“Os portugueses têm má memória de maiorias absolutas”, argumentava António Costa em 2019. Se isso não impediu o Partido Socialista de a obter, a má memória parece dominar as análises no rescaldo eleitoral.
A jornalista Constança Cunha e Sá sintetizou no Twitter uma linha preponderante nas reações aos resultados eleitorais deste domingo: “Eu queria uma vitória da esquerda, não uma maioria absoluta do PS”.
Eu queria uma vitória da esquerda, não uma maioria absoluta do ps.
— Constança Cunha e Sá (@ConstancaSa) January 30, 2022
Estas preocupações foram veiculadas também por Ana Gomes, no debate de análise na Sic Notícias esta segunda-feira, onde argumentou que, perante uma maioria absoluta, os debates quinzenais deveriam ser repostos como garantia de “escrutínio democrático a bem do próprio Partido Socialista”.
E espero q @antoniocostapm tome a iniciativa de os retomar. Escrutínio democrático em governação com maioria absoluta exige-o. Para salvaguarda do próprio @psocialista. https://t.co/3h3ERQ9OXa
— Ana Gomes (@AnaMartinsGomes) January 31, 2022
Por seu lado, Carmo Afonso aponta para as razões de concentração de voto no PS. “Muitos portugueses não votaram numa maioria absoluta, votaram contra a ameaça de uma direita radicalizada”.
muitos portugueses não votaram numa maioria absoluta, votaram contra a ameaça de uma direita radicalizada.
— carmo afonso (@carmoafonso) January 31, 2022
Num artigo publicado no El País, o politólogo André Freire argumenta que a proximidade entre PS e PSD - ou mesmo entre maiorias parlamentares renhidas entre esquerda e direita - sugerida pelas sondagens, “poderá ter levado muitos eleitores da esquerda radical a concentrar o seu voto no PS à última da hora, para evitar uma vitória da direita”.
A jornalista Lliliana Valente regista que, no discurso de vitória da noite eleitoral, António Costa assumiu que “milhares de pessoas de outros pensamentos se juntaram e garantiu que ia respeitar «fielmente» esses votos, que tinha sabido lê-los. Terá quatro anos para o provar”, conclui.
Pelo menos no discurso, AC pareceu perceber isso. Assumiu que a maioria só foi possível pq milhares de pessoas de outros pensamentos se juntaram e garantiu q ia respeitar "fielmente" esses votos, q tinha sabido lê-los. Terá 4 anos para o provar
— Liliana Valente (@LilianaValente) January 31, 2022
Seja como for, a maioria absoluta foi a forma de o Partido Socialista recuperar aliados no mundo financeiro. Em comunicado, a agência de rating Moody’s declara que o resultado é “um bom augúrio”, e manifesta-se satisfeita com o fim da geringonça.
Esta segunda-feira, também José Luís Arnaut, administrador da ANA aeroportos, bem como da Goldman Sachs, declarava “ser importante ter esta maioria absoluta”.
Arnaut, presidente do Conselho de Administração da ANA, de sorriso nos lábios em reacção à maioria absoluta do PS, pois assim ficará liberto dos partidos à sua esquerda.
A satisfação dos representantes dos grandes grupos económicos é esclarecedora. https://t.co/ukPGsZ39KS
— João Ferreira (o outro) (@vilalva_joao) January 31, 2022
Um sentimento acompanhado pela confederações patronais, que congratularam o resultado do Partido Socialista como um sinal positivo que vai acabar com as "restrições" a medidas como a redução da Taxa Social Única bem como "uma política salarial mais consentânea com a realidade".