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"Não me silenciaram. Nem a mim, nem ao nosso povo"

Jorge Falcato sublinhou na sessão solene do 25 de Abril como as lutas a que hoje assistimos pela habitação, pelo SNS, dos trabalhadores, dos estudantes, das mulheres, dos jovens afrodescendentes, "mostram que o espírito de Abril está bem vivo".
Jorge Falcato na sessão solene do 25 de abril na Assembleia da República, 2019. Foto António Cotrim/Lusa.
Foto António Cotrim/Lusa.

Na sessão solene de comemoração do 25 de Abril na Assembleia da República, o deputado Jorge Falcato recordou a revolução como um tempo de lutas em que "as pessoas acreditaram que o poder podia mudar de mãos" e o fizeram contra os "interesses instalados" que se moviam "para impedir os avanços nos direitos e se organizavam para lançar o terror na sociedade".

Falcato vê nas lutas política de hoje a continuação desse espírito de Abril. Em relação ao SNS, perguntou: "pode voltar a andar de cravo ao peito, como Arnaut e Semedo o sonharam, ou manterá a porta aberta para o negócio dos privados em cedência à pressão presidencial?". Em relação à habitação, nova questão: "A Lei de Bases da Habitação chegará a ser uma realidade, plena e de cravo ao peito, ou o direito à habitação ficará a depender da vontade dos especuladores imobiliários?".

O deputado do Bloco afirmou ainda que "o espírito de Abril está bem vivo" nas lutas atuais dos estudantes pelo clima, das mulheres contra uma justiça machista, dos jovens afrodescendentes que denunciam a violência racista, dos estivadores, trabalhadoras da limpeza e dos call center que se levantam por um trabalho digno.

O esquerda.net reproduz abaixo o discurso de Jorge Falcato na sessão solene do 25 de Abril na Assembleia da República.


Era um país cinzento e triste quando nasci. Mais tarde a guerra colonial acrescentaria terror a uma realidade de repressão e censura. Era um país que asfixiava, mergulhado no medo, no discurso do respeitinho, onde o destino era marcado pela família em que se nascia, onde a mulher era subalterna ao homem, onde a miséria era a realidade de uma imensa maioria. A escola, quando havia, era a dos meninos para um lado e meninas para o outro, onde o pensamento não era livre. Na faculdade pairava a ameaça constante do Capitão Maltez e da sua tropa de choque.

Era o país onde a opinião livre trazia a prisão, a morte ou o exílio. Onde amigos desapareciam às mãos da PIDE.

Esse país acabou a 25 de Abril de 1974.

Aos movimentos de libertação das colónias, aos ativistas políticos, aos movimentos estudantis, ao movimento operário, aos capitães, a todos e todas que nunca desistiram: o nosso obrigado.

Levo no peito a memória desse dia inteiro, dessa torrente transformadora quando a esperança andou à solta. Não esquecerei quando subi a encosta da Ajuda, em Lisboa, com centenas de moradores de bairros de barracas que ocuparam o bairro da Fundação Salazar. Num instante as janelas vazias ficaram cheias de gente e pelas ruas ecoavam os gritos de felicidade: “tenho casa, tenho casa”.

As pessoas acreditaram que o poder podia mudar de mãos e foi essa a força que construiu um país novo. Havia comissões de moradores, grupos de teatro e de música nos bairros, fazia-se a gestão operária, nasciam cooperativas de produção e serviços, iniciava-se a reforma agrária, conseguia-se a democracia também nas escolas. A política era a própria vida.

Abril é sinónimo de conquistas, mas engana-se quem afirma que não é sinónimo de lutas. Os interesses instalados moviam-se para impedir os avanços nos direitos e organizavam-se para lançar o terror na sociedade, por vezes com a conivência das forças de segurança, como todos os dias sou forçado a não esquecer. Foi uma bala da PSP que me colocou nesta cadeira por ter protestado contra a realização de uma manifestação da extrema direita.

Não me silenciaram. Nem a mim, nem ao nosso povo. Construímos a Segurança Social universal, a Escola Pública e o Serviço Nacional de Saúde. Garantimos do salário mínimo ao direito à greve. Aprendemos que nada é oferecido, tudo se conquista.

Hoje passam 45 anos da revolução de Abril. Os cravos nos nossos peitos devem ser mais que um enfeite na lapela. A esperança que voltou a sair à rua com a solução governativa alcançada em 2015 olha para estes cravos e pergunta o que faremos nas decisões fundamentais.

O Serviço Nacional de Saúde pode voltar a andar de cravo ao peito, como Arnaut e Semedo o sonharam, ou manterá a porta aberta para o negócio dos privados em cedência à pressão presidencial? A Lei de Bases da Habitação chegará a ser uma realidade, plena e de cravo ao peito, ou o direito à habitação ficará a depender da vontade dos especuladores imobiliários?

Celebrar Abril não pode ser uma cerimónia anual, é um compromisso permanente e muito há para fazer.

45 anos depois, há ainda muitos cidadãos e cidadãs de segunda no nosso país. Pessoas a quem são negados direitos humanos tão básicos como o direito à mobilidade, ao emprego, a uma vida digna; a quem são negados direitos humanos unicamente porque são diferentes; que são sujeitas a uma opressão e exclusão social porque têm uma deficiência.

Opressão e exclusão que também perseguem a cor da pele, porque ainda não conseguimos acabar com o racismo estrutural que ainda marca a nossa sociedade.

E, se a minha presença aqui serve para alguma coisa, é para afirmar que é possível vencer esta opressão e exclusão. O futuro não nos pode continuar a ignorar, não deixaremos que isso aconteça.

As lutas a que hoje assistimos mostram que o espírito de Abril está bem vivo, que não aceitamos que nos digam não, que rejeitamos os impossíveis e as inevitabilidades. Que acreditamos, como no passado, que o poder pode mudar de mãos.

Os estudantes que saíram à rua pela urgência climática são cravos semeados por Abril que se transformam em agentes principais de uma mudança inadiável.

As mulheres que se levantam contra a justiça machista, que reivindicam uma plena igualdade de género, são ecos das vozes que rejeitam a submissão e a desigualdade.

Os jovens afrodescendentes que subiram a Avenida da Liberdade para denunciar a violência racista são frutos das mesmas lutas emancipatórias que derrotaram o colonialismo.

Os trabalhadores que se organizam, como os precários dos call center, as trabalhadoras da limpeza, ou os estivadores, fazem parte dos mesmos movimentos que conquistaram direitos laborais no passado.

Os combates pela qualidade dos serviços públicos são a consciência de uma solidariedade que nos engrandece, respeitando as pessoas que todos os dias dão corpo ao que é de todos nós e para todos nós.

A novidade dos dias que correm é que abril fica mais vivo com todas estas lutas, porque este é o verdadeiro espírito que estes cravos carregam. A vontade de um povo que se agigantou nas adversidades e que se junta agora por novas conquistas.

Viva a Liberdade!
Viva a democracia!
Viva o 25 de Abril!

"Não me silenciaram. Nem a mim, nem ao nosso povo"

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