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Nanni Balestrini, o poeta-artista agitador (1935-2019)

Poeta, ensaista, escritor e artista. Experimentalista e agitador. Militante. Nanni Balestrini, referência da contra-cultura europeia, morreu este domingo em Roma aos 83 anos.
Foto da DeriveApprodi Editore publicada no facebook

É descrito como um dos “artistas totais mais enérgicos, inquietantes e obstinados” pelo jornal italiano, insuspeito de simpatias radicais, La Reppublica. Realça-se nele “o gesto de provocação, signo claro que cria um brecha com o passado, o grito e a fúria de quem quer inventar o futuro.” Foi tudo menos consensual. Contudo, a sua importância parece inegável, mesmo para quem não simpatizasse com a forma ou o conteúdo das suas obras. Nanni Balestrini é uma das referências da contra-cultura europeia do século XX.

Era um experimentalista que colava, misturava textos, multiplicava formas artísticas, produzia acontecimentos, buscava um linguagem coletiva e tinha um forte sentido de justiça social.

Ao início, era a poesia. Balestrini integrou, com Umberto Eco, Edoardo Sanguineti, Antonio Porta y Giorgio Manganelli, o movimento chamado neovanguarda. Este passou depois a ser o Grupo 63 que o próprio, em entrevista ao jornal El Salto, explicou como sendo um grupo de jovens pertencentes a “uma geração que tinha a necessidade de dar um novo rumo à literatura italiana que se tinha tornado asfixiante depois do fascismo e do pós-guerra.”

No final dos anos 60 fez parte da vaga ativista que mobilizou parte da juventude na Europa. Participou na fundação do grupo político Potere Operaio. Por isso, em 1979, foi perseguido pela justiça italiana por associação subversiva e constituição de grupo armado. Refugiou-se em França, depois na Alemanha. Em 1984, considerado inocente, regressou ao seu país.

Entretanto não parou de criar. No cruzamento deste vanguardismo artístico e da experiência militante escreve várias obras: Queremos tudo, Os invisíveis e a Horda de Ouro. Em Queremos tudo, de 1971, encontramo-nos com as lutas dos trabalhadores da FIAT, a partir de uma história real, que lhe foi contada por um operário. Em Os invisíveis visita a geração de finais dos anos 70, as experiências dos movimentos okupa, as rádios livres, as lutas operárias para além do sindicalismo oficial. Em Horda de Ouro, de 1988, faz uma montagem de panfletos, cartazes, discursos, filmes.

Mas o escritor não se limita a falar de temas diretamente militantes. Por exemplo, em Os furiosos, dedica-se à cultura dos adeptos do AC Milan e em Sandokán à camorra. Nem à literatura. Guionista, artista visual e muito mais. Foi ainda editor e redator. Participou erm várias revistas: da Il Verri à Alfabeta que co-fundou. Trabalhou para a editora Feltrinelli até 1972. Aliás, a Giangiacomo Feltrinelli dedica uma obra entitulada O Editor. Colaboriu também com a editorial Marsilio e fundou depois uma editora chamada Manicle.

Numa entrevista ao The Nation de 2016 considerou-se “sortudo por ter passado por um período extraordinário e feliz” mas “não teria sentido procurar nesse período por alguma coisa que pudesse ser aplicado politicamente numa situação radicalmente diferente”. Contudo, para Balestrini, “esse período lega-nos apenas um imperativo: que precisamos mudar o mundo e que é possível, necessário e urgente – até se não conseguimos imediatamente concretizá-lo como queríamos.”

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