Philippe Lazzarini, da Agência da ONU para os refugiados palestinianos, dá conta da situação dramática vivida em Gaza no âmbito do bloqueio total de Israel à entrada de ajuda humanitária.
Em 75% dos lares, as condições sanitárias e o acesso à água estão agora piores do que há um mês, ao mesmo tempo que o exército sionista usa a fome “provocada” como arma de guerra. Esta “está a espalhar-se. As pessoas estão exaustas. As pessoas estão esfomeadas”, assinala em entrevistas a vários meios de comunicação social reproduzidas nas suas contas do X.
Para ele, “o cerco tem de ser levantado” porque “Gaza tornou-se um campo de morte. Os civis estão numa espiral de morte sem fim”.
No campo diplomático, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu vinca que “não há nenhuma situação em que paremos a guerra”, jurando levá-la até ao final. E Reino Unido, Rússia e China rejeitam o plano dos EUA e de Israel para passarem a ser os sionistas a controlar a distribuição de ajuda alimentar e apelam ao levantamento do bloqueio.
Israel oficialmente nega quaisquer problemas de falta de alimentos. Mas uma análise interna de militares seus, divulgada pelo New York Times, admite em privado o que é negado em público. Os militares sabem que a fome em larga escala devastará a Faixa de Gaza se ajuda não for restaurada “dentro de semanas”. No seio das suas fileiras, os avisos da “ameaça colocada pelo bloqueio” circulam há meses.
Manhã sangrenta em Gaza: mais de 80 pessoas assassinadas por Israel
Israel intensificou os seus ataques na manhã desta quarta-feira tendo assassinado pelo menos 84 pessoas e ferido 125 só neste período. Entre a madrugada e a manhã, 22 das vítimas mortais foram crianças, de acordo com o que avançaram fontes hospitalares à Associated Press. Algumas delas estavam a jogar futebol no campo de refugiados de al-Nahda quando foram mortas, indica a Al Jazeera.
Um dos alvos atingidos foi o Hospital Europeu perto de Khan Younis. O fotojornalista Amro Tabash descreveu à AFP que “toda a gente dentro do hospital, pacientes e feridos, correu com medo, alguns com muletas, outros gritando para as suas crianças, enquanto outros estavam a ser arrastados nas camas”.
Segundo as informações passadas pelo exército sionista aos meios de comunicação social do seu país para justificar este ataque, o alvo principal ser Mohammed Sinwar, irmão do ex-líder do Hamas que foi morto em outubro passado. Mais uma vez, lançou-se sem provas a acusação de que o hospital era um “centro de comando do Hamas”.
Também o hospital Nasser foi atingido, de acordo com os militares sionistas. E também aí a justificação foi terem sido “eliminados terroristas significativos”. Entre os quais contam o jornalista Hassan Aslih, que aí estava ferido depois do exército israelita ter atacado uma tenda com jornalistas.
A Reuters, por sua vez, salienta que a maior parte das vítimas desta manhã foram avo de ataques a residências em Jabalia, norte de Gaza, com 50 mortes.
Desde 7 de outubro de 2023, Israel já matou confirmadamente 52.928 palestinianos em Gaza, sem contar com o número dos desaparecidos nos escombros. Houve ainda 119.846 feridos, números do Ministério da Saúde de Gaza.
Protestos em Israel e no festival da Eurovisão
Enquanto isto acontecia, perto de 200 estudantes manifestavam-se nas imediações do campus de Telavive para lembrar o 77º aniversário da Nakba, a “catástrofe”, o grande processo de expulsão dos palestinianos das suas terras por parte de Israel que aconteceu entre 1947 e 1949, e que se assinala na quinta-feira.
O grupo queria passar a mensagem que “é nosso dever e responsabilidade fazer o choro do povo palestiniano e a sua narrativa histórica ouvidos” na “sombra do genocídio em Gaza e do silenciamento sistemático de todas as vozes que se opõem à guerra de aniquilação”.
Para além da polícia, os manifestantes tiveram de enfrentar as contra-manifestações da extrema-direita.
Em Tóquio, manifestantes pró-palestinianos tentaram interromper a conferência de imprensa do ministro dos Negócios Estrangeiros israelita, Gideon Saar, chamando-o de “criminoso de guerra” e gritando “genocídio”.
Em Basileia, onde acontece o Festival da Canção da Eurovisão, o grupo Basileia pela Palestina marcou uma marcha silenciosa também para assinalar o aniversário da Nakba e para protestar contra a cumplicidade da organização do certame com a propaganda sionista.