Gaza

Na véspera do aniversário da Nakba, Israel intensifica ataques e a fome espalha-se

14 de maio 2025 - 16:17

A situação humanitária no enclave deteriora-se, como admite um relatório dos próprios israelitas. Só esta manhã, 80 pessoas foram mortas pelos bombardeamentos das forças sionistas. Na véspera do aniversário do processo de expulsão dos palestinianos das suas terras também houve manifestações em Israel a denunciar genocídio.

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Resultado do bombardeamento ao hospital europeu. Foto de MOHAMMED SABER/EPA.
Resultado do bombardeamento ao hospital europeu. Foto de Mohammed Saber/EPA.

Philippe Lazzarini, da Agência da ONU para os refugiados palestinianos, dá conta da situação dramática vivida em Gaza no âmbito do bloqueio total de Israel à entrada de ajuda humanitária.

Em 75% dos lares, as condições sanitárias e o acesso à água estão agora piores do que há um mês, ao mesmo tempo que o exército sionista usa a fome “provocada” como arma de guerra. Esta “está a espalhar-se. As pessoas estão exaustas. As pessoas estão esfomeadas”, assinala em entrevistas a vários meios de comunicação social reproduzidas nas suas contas do X.

Para ele, “o cerco tem de ser levantado” porque “Gaza tornou-se um campo de morte. Os civis estão numa espiral de morte sem fim”.

No campo diplomático, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu vinca que “não há nenhuma situação em que paremos a guerra”, jurando levá-la até ao final. E Reino Unido, Rússia e China rejeitam o plano dos EUA e de Israel para passarem a ser os sionistas a controlar a distribuição de ajuda alimentar e apelam ao levantamento do bloqueio.

Israel oficialmente nega quaisquer problemas de falta de alimentos. Mas uma análise interna de militares seus, divulgada pelo New York Times, admite em privado o que é negado em público. Os militares sabem que a fome em larga escala devastará a Faixa de Gaza se ajuda não for restaurada “dentro de semanas”. No seio das suas fileiras, os avisos da “ameaça colocada pelo bloqueio” circulam há meses.

Manhã sangrenta em Gaza: mais de 80 pessoas assassinadas por Israel

Israel intensificou os seus ataques na manhã desta quarta-feira tendo assassinado pelo menos 84 pessoas e ferido 125 só neste período. Entre a madrugada e a manhã, 22 das vítimas mortais foram crianças, de acordo com o que avançaram fontes hospitalares à Associated Press. Algumas delas estavam a jogar futebol no campo de refugiados de al-Nahda quando foram mortas, indica a Al Jazeera.

Um dos alvos atingidos foi o Hospital Europeu perto de Khan Younis. O fotojornalista Amro Tabash descreveu à AFP que “toda a gente dentro do hospital, pacientes e feridos, correu com medo, alguns com muletas, outros gritando para as suas crianças, enquanto outros estavam a ser arrastados nas camas”.

Segundo as informações passadas pelo exército sionista aos meios de comunicação social do seu país para justificar este ataque, o alvo principal ser Mohammed Sinwar, irmão do ex-líder do Hamas que foi morto em outubro passado. Mais uma vez, lançou-se sem provas a acusação de que o hospital era um “centro de comando do Hamas”.

Também o hospital Nasser foi atingido, de acordo com os militares sionistas. E também aí a justificação foi terem sido “eliminados terroristas significativos”. Entre os quais contam o jornalista Hassan Aslih, que aí estava ferido depois do exército israelita ter atacado uma tenda com jornalistas.

A Reuters, por sua vez, salienta que a maior parte das vítimas desta manhã foram avo de ataques a residências em Jabalia, norte de Gaza, com 50 mortes.

Desde 7 de outubro de 2023, Israel já matou confirmadamente 52.928 palestinianos em Gaza, sem contar com o número dos desaparecidos nos escombros. Houve ainda 119.846 feridos, números do Ministério da Saúde de Gaza.

Protestos em Israel e no festival da Eurovisão

Enquanto isto acontecia, perto de 200 estudantes manifestavam-se nas imediações do campus de Telavive para lembrar o 77º aniversário da Nakba, a “catástrofe”, o grande processo de expulsão dos palestinianos das suas terras por parte de Israel que aconteceu entre 1947 e 1949, e que se assinala na quinta-feira.

O grupo queria passar a mensagem que “é nosso dever e responsabilidade fazer o choro do povo palestiniano e a sua narrativa histórica ouvidos” na “sombra do genocídio em Gaza e do silenciamento sistemático de todas as vozes que se opõem à guerra de aniquilação”.

Para além da polícia, os manifestantes tiveram de enfrentar as contra-manifestações da extrema-direita.

Em Tóquio, manifestantes pró-palestinianos tentaram interromper a conferência de imprensa do ministro dos Negócios Estrangeiros israelita, Gideon Saar, chamando-o de “criminoso de guerra” e gritando “genocídio”.

Em Basileia, onde acontece o Festival da Canção da Eurovisão, o grupo Basileia pela Palestina marcou uma marcha silenciosa também para assinalar o aniversário da Nakba e para protestar contra a cumplicidade da organização do certame com a propaganda sionista.