Está aqui

Na China, o gongo soa mais alto para Xi Jinping

O facto de ter surgido e ecoado entre os manifestantes a palavra de ordem “Renuncie Xi” indica que os protestos avançam para a contestação, de conjunto, do regime. Ou seja, a fúria não é apenas contra as medidas sanitárias, há mais fermento a mover as diversas camadas da indignação popular. Por Milton Alves.
Foto de protesto contra a política de Covid Zero em Pequim. Foto de MARK R. CRISTINO/EPA/Lusa.
Foto de protesto contra a política de Covid Zero em Pequim. Foto de MARK R. CRISTINO/EPA/Lusa.

Os protestos multitudinários e furiosos avolumam-se na China, informam a imprensa ocidental, as plataformas virtuais e estudantes brasileiros que moram naquele país.

Xi, que saiu consagrado e com mega-poderes do XX Congresso do PC chinês, atravessa um duríssimo desafio político e de liderança.

Os motivos mais aparentes dos atuais protestos estão relacionados com a diretriz de “Covid Zero” do governo central, baseado em prolongados lockdowns, rigoroso isolamento e até confinamento de regiões inteiras – o que tem provocado a ira da população (o incêndio num conjunto habitacional na cidade de Urumqi foi o gatilho das manifestações).

Chama atenção que a recente onda de protestos – diferente de 1989 – teve como epicentro inicial os conjuntos habitacionais populares e os grandes complexos fabris, como o da Apple/FoxConn.

Porém, no passado fim de semana, a onda de protestos ganhou a adesão e o apoio dos estudantes universitários e da classe média urbana (fração social que tem dado sólido apoio ao regime nas últimas décadas) das gigantescas urbes, como Pequim e Xangai.

O regime encontra-se emparedado entre seguir a política draconiana e repressiva de Covid Zero ou adotar medidas de relaxamento, o que começou a acontecer primeiro em diversas províncias no interior do país.

Do ponto de vista político imediato, o maior desafio político de Xi Jinping é o de conter o alcance da onda de indignação contra o regime.

O facto de ter surgido e ecoado entre os milhões de manifestantes a palavra de ordem “Renuncie Xi” indica que os protestos avançam para a perigosa contestação, de conjunto, do regime. Ou seja, a fúria não é apenas contra as medidas sanitárias, há mais fermento a mover as diversas camadas da indignação popular.

Resta saber como o governo chinês, liderado por Xi Jinping, vai encontrar uma saída para essa inédita e tensa conjuntura interna.

Nos próximos meses, a China pode atravessar um cenário de forte turbulência política e social.

Uma conclusão inicial é possível: o mandarinato de Xi Jinping perdeu substância política diante da impetuosa e ampla jornada de protestos – um movimento que parece demonstrar maior solidez que as manifestações de 1989, ainda na era Deng.

No gigante asiático, o gongo soa mais alto para Xi Jinping – e o mundo olha para a China.

 

Milton Alves é jornalista e escritor. Autor dos livros ‘A Política Além da Notícia e a Guerra Declarada Contra Lula e o PT’ (2019), ‘A Saída é pela Esquerda’ (2020), ‘Lava Jato, uma conspiração contra o Brasil’ (2021) e de ‘Brasil Sem Máscara – o governo Bolsonaro e a destruição do país‘ (2022) – todos pela Kotter Editorial.

Texto editado para português de Portugal.

Termos relacionados Comunidade
(...)