Está aqui

"O problema não está nos custos salariais, mas na punição financeira sobre Portugal"

O primeiro relatório do Observatório sobre Crises e Alternativas (OCA), a divulgar depois do verão, prevê soluções para “retomar o comando sobre a economia”, criando riqueza e emprego, defendeu esta segunda-feira o economista José Reis.

"Não é nos custos salariais que está o problema, mas sim na enorme punição financeira do exterior sobre Portugal, na perda de capacidades produtivas para que consumíssemos excedentes de outros", afirmou o diretor da Faculdade de Economia de Coimbra.

O OCA foi fundado há um ano, no âmbito das atividades do Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra.

O primeiro relatório, "Anatomia das Crises em Portugal", da responsabilidade dos fundadores, entre os quais Carvalho da Silva, Boaventura Santos, Pedro Hespanha, José Pureza e José Reis, vai ser publicado em outubro.

Alguns destes, incluindo Carvalho da Silva, coordenador do Observatório, vão participar no colóquio "A Crise Portuguesa na Europa em Crise: Diagnósticos e Alternativas", na Reitoria da Universidade de Lisboa, no dia 4 de julho.

Com uma "visão alternativa" da atual crise, o relatório, cujas principais conclusões estarão em debate, irá preconizar "reindustrialização, políticas redistributivas para assegurar que haja procura e investimento, reconstituição do Estado, quer na sua dimensão social, quer no seu papel como administração pública e prevalência dos princípios do Estado de direito", salientou José Reis.

Será analisada "a recente recolocação de Portugal numa situação de dependência económica, social e política", ou seja, segundo o professor catedrático, "a Europa pós-Maastricht".

Estará em causa, no documento, "a Europa que substituiu uma lógica de integração e coesão por uma União Económica e Monetária (UEM) defeituosa, que está no centro da nova dependência" do país.

"A nossa entrada na UEM, com uma moeda ‘sobreapreciada', revelou-se desastrosa em todos os planos: desindustrialização, privatizações para benefício dos que se colocaram numa posição cómoda dentro do mercado interno, economia comandada pelos bancos, crescente financeirização da vida das famílias, mundo do trabalho em precarização, reduzindo-o a variável sobre que recai uma ‘ajustamento' violento, regressão do Estado Social, emergência de formas de assistencialismo perante a pobreza crescente, regressão constitucional e imposição de formas sistemáticas de exceção em matéria de direitos", afirmou José Reis.

Os responsáveis do OCA quererão "mostrar que as análises dominantes sobre os problemas da economia portuguesa são profundamente redutoras".

Elas "ignoram as suas raízes mais profundas, especialmente as relacionadas com a UEM, e carecem de contraposição, valorizando o pluralismo de ideias", adiantou.

O relatório, a apresentar após discussão com os parceiros institucionais do OCA, "indicará futuros campos de trabalho, para que gradualmente se componha um quadro mais sensato do que aquele que é frequentemente oferecido", sublinhou.

"As alterações legislativas em matéria laboral constituem significativas transferências de riqueza do trabalho para o capital", criticou José Reis.

O Observatório sobre Crises e Alternativas é uma iniciativa do CES, apoiada pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), e tem empresas e organizações sindicais entre os doadores.

As outras entidades parceiras são a Fundação Mário Soares, a Fundação Alternativas, a Fundação Getúlio Vargas, o Banco Mundial e a Organização dos Estados Ibero-americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura.

Artigos relacionados: 

Termos relacionados Sociedade
(...)