Está aqui

Mynda Guevara: “A Mulher pode ser e cantar o que ela quiser”

A jovem rapper da Cova da Moura entrou em dois filmes, Mulheres do Meu País, de Raquel Freire, e Maria Cobra Preta, de Erika da Cunha. Em entrevista ao Esquerda.net, explica que o seu sonho continua o ser o mesmo: vingar num meio "predominantemente dominado por homens" e “Viver da Música”. Por Mariana Carneiro.
Fotos cedidas por Mynda Guevara.

Disseste numa entrevista ao Público, de 2018, que “O rap está em primeiro lugar, o resto vem por acréscimo”. Como é que surgiu essa paixão, esse “bichinho” pelo rap?

Desde muito nova sempre consumi muito hip-hop/rap. O tempo foi passando e cada vez mais me vi in love com esse estilo musical. Com 13 anos, sensivelmente, comecei a frequentar o estúdio do meu bairro e as coisas foram fluindo naturalmente.

Nasceste e foste criada na Cova da Moura. Foi lá que gravaste o teu primeiro trabalho e a tua música “Nha Mundo” é uma porta de entrada para o teu bairro. Queres conquistar o mundo, mas levarás a Cova da Moura sempre contigo? É importante não te esqueceres de onde vens, das tuas referências?

A primeira música que gravei foi com dois amigos meus que infelizmente já não estão entre nós, que são o Dany G e o Saliu , nesse projeto cantei o refrão.

Obviamente que nasci e cresci no bairro da Cova da Moura e assim sendo é impossível desvincular-me das minhas raízes, carrego-o para onde for. É obrigatório e crucial não nos esquecermos de onde vimos porque a base nunca pode ser descartada, seja em que circunstâncias for.

E falando em referências, os teus pais são cabo-verdianos e tu abraçaste desde o início o rap crioulo. Foi algo espontâneo cantar em crioulo?

Sim, tenho descendência caboverdiana e por essa mesma razão quando comecei a escrever as minhas letras não tive que pensar muito entre uma coisa e outra, neste caso o português ou o kriolo. Foi sem dúvida algo natural e espontâneo escrever na língua da minha terra, na língua das minhas verdadeiras raízes.

Mas, entretanto, tens alternado entre o português e o crioulo, e surgiu “Na nossa língua”, a tua primeira música inteiramente em português. A que se deve essa escolha?

Optei por também usar a língua portuguesa como forma de expressão porque sinto que o kriolo me limita um bocado em termos de alcance do público. Como tenho o objetivo de alcançar outros horizontes, comecei a fazer essa alternância entre o português e o kriolo sem qualquer tipo de dificuldade lírica.

Quando começaste a cantar não o fazias sozinha. O salto para o trabalho a solo foi importante para a afirmação da tua identidade enquanto artista?

Sim, o início do meu percurso foi em dupla, eu e o Ridell. Assim que ele emigrou, decidi não parar a minha caminhada por ali e com 16 anos arrisquei na minha carreira a solo. Acho que essa decisão reflete muito na Artista que me tornei hoje e que a cada dia tenta melhorar. Foi bom porque tive autonomia, poder de escolha a 100% e poderia trabalhar da forma que, a meu ver, era correta . Sem dúvida alguma que o Ridell foi e é um elemento chave neste processo porque a primeira pessoa a dizer-me para tentar "reppar" foi ele!

Quais são as tuas grandes referências do rap? As rappers sempre constaram da tua playlist ou as tuas influências eram inicialmente maioritariamente masculinas?

As minhas referências sempre foram masculinas, mas, passado algum tempo, e já com outra maturidade, comecei a questionar-me sobre esse "fenómeno" do Rap ser um estilo predominantemente dominado por homens. Aí fui à procura de referência femininas no meio, e encontrei a Lauryn Hill, Queen Latifa e a Miss Eliott.

Numa entrevista que deste à Vogue, afirmaste que uma das músicas que mais te marcou foi “Quando o sorriso morre”, do Valete. O que representa essa música para ti?

Essa música representa a força que temos que ter na vida mesmo que, por muitas vezes, não tenhamos vontade de sorrir e sermos felizes. A morte de um sorriso é declarar desistência e isso esforço-me para que nunca aconteça. É uma música que me motiva bastante e é uma faixa que hei de levar para a vida.

Mynda Guevara é o teu nome artístico. Desde adolescente que te tratam por Mynda. Como é que surgiu o Guevara, em referência a Che Guevara que, aliás, também é evocado numa das tuas tatuagens? Corre-te nas veias sangue revolucionário?

O meu principal objetivo é revolucionar o Rap e mostrar que a Mulher pode ser e cantar o que ela quiser. O Guevara é mesmo por isso, tem a ver com a minha sede de revolução, fazer a diferença sem nunca perder a minha essência.

Quando entramos na tua página de facebook ou na tua conta da plataforma Soundcloud surge-nos a frase: “Mynda'Guevara é uma das muitas provas de que as mulheres também têm lugar no rap!”. As mulheres já têm, de facto, um lugar no rap ou essa é uma luta constante que tu e outras rappers têm de travar?

É e será uma luta constante. E, por mais que seja difícil admitirmos que as Mulheres são muito menos unidas, é a realidade. Muito honestamente falando, acho que seremos sempre uma minoria, porque é muito mais difícil para nós mantermo-nos firmes sem desistir. Há quem não tenha motivação, apoio, moral, e essas pequenas coisinhas são fulcrais para uma possível desistência ou permanência no movimento Hip-Hop. Sem falar que somos literalmente obrigadas a trabalhar duas ou três vezes mais e ainda assim não ser o suficiente. É deveras frustrante.

A primeira música que escreveste foi “Mudjer na Rap”. Em declarações ao Diário de Notícias, em 2019, assinalaste que era como se fosse o teu “bilhete de identidade”. Foi um statement como mulher rapper, negra, afrodescendente, que, enfrentando múltiplas discriminações, se empodera e reivindica o seu espaço?

Sim, foi o marco do meu território e da minha, ainda que prematura, chegada no game.

E há espaço nas estruturas de programação do centro de Lisboa para uma jovem mulher rapper negra?

Sim existem! Quanto a isso não tenho razão de queixa. Mas ainda há muito trabalho a fazer de ambas as partes. Em relação a mim é mais músicas em português por causa do público alvo desses eventos, mesmo tendo em conta que o kriolo está a conquistar um espaço cada vez mais consistente. E em relação às estruturas é darem espaço e criarem oportunidades para quem realmente merece.

Quais são os maiores constrangimentos que tens sentido na tua carreira, e que podem condicionar a sua evolução?

A única coisa que tem condicionado a minha evolução é o COVID, fora isso o que tiver ao meu alcance fazer, fá-lo-ei com o mesmo love de sempre.

Participaste no Projeto Turn Up, que te levou até Itália, onde trabalhaste na música “Chilldown” com Dario Cangreo. Como foi essa experiência, esse intercâmbio cultural?

A minha experiência no PROJ TURN UP foi muito criativa. Tive a oportunidade de trabalhar com artistas de outras nacionalidades e acho que isso é muito bom porque acaba por criar pontes entre línguas e países. Cada um cantar na sua língua acho que não foi um entrave para se poder fazer uma conexão. Houve organização e isso é imprescindível. À parte do PROJ, fui muito bem recebida e acolhida pelos restantes participantes.

Estiveste também envolvida num projeto nos Açores com Raquel Freire, ao qual chamaram "O meu maior sonho é deixarem-me sonhar". Como foi a residência artística com esses jovens em risco de exclusão social?

Foi o projeto social mais bonito que participei até hoje. A minha missão foi semear a semente do "Sonho" em cada um deles e fazê-los ver e acreditar que é possível. São jovens que têm uma história de vida incrível e que só precisam de oportunidades na vida. E, como não lhes são dadas, veem-se encurralados e obrigados a ter certas e determinadas atitudes e comportamentos que não lhes são favoráveis, de todo. E aí começa o ciclo da exclusão social juvenil, e, por outras palavras, é pô-los num barco à deriva. É preciso ser muito humano e empático para se poder lidar com estes jovens. No meu caso fui de coração aberto e com algumas expectativas em relação à forma como o projeto em si poderia decorrer. E superou todas e algumas sem margem de dúvidas! Estavam todos os dias eufóricos e totalmente empenhados. Escrevemos letras juntos, gravámos e fizemos os videoclips com a Raquel Freire. São jovens que me ficarão no coração para sempre e que sei e senti que fiquei no deles! Meus putos Açorianos! heart

O cinema também já entra no teu currículo. A música “Ken Ki Fla” integrou a banda sonora de Gabriel, filme de Nuno Bernardo. E participaste em dois filmes: “Mulheres do Meu País”, de Raquel Freire, e “Maria Cobra Preta”, de Erika Nieva da Cunha. Foste, inclusive, a protagonista deste último. São experiências a repetir? O cinema também é uma das tuas paixões?

Sem dúvida! O cinema é outra das minhas paixões, em segundo plano. Mas assim que protagonizei o papel principal deste último filme que fiz acendeu-se a chama que nunca tinha sido acesa. Espero que não tenha sido o último porque tenho mais que vontade de explorar essa área!

Com a crise pandémica, tornou-se cada vez mais difícil fazer planos. Ainda assim, já tens novos projetos para um futuro próximo?

Sim, tenho aproveitado para escrever novos projetos e estou atenta às restrições de circulação para poder gravar o meu primeiro videoclip da música intitulada "ATXIM" com um beat produzido por LVIN BEATS, gravação, mix e master por BADZ RECORDS ENT.

No filme “Mulheres do Meu País” dizes "O meu maior sonho é deixarem-me sonhar”. Com o que sonhas agora?

Sonho exatamente da mesma forma, Viver da Música!
ESSE É E SEMPRE SERÁ O MEU MAIOR SONHO!!!

 

Sobre o/a autor(a)

Socióloga do Trabalho, especialista em Direito do trabalho
Termos relacionados Cultura
(...)