Musk está a fazer amigos na extrema-direita e os anunciantes estão a ficar nervosos

19 de dezembro 2022 - 19:55

O especialista em tecnologias da comunicação Ben Tarnoff fala, nesta entrevista a Elena de Sus, das contradições inerentes as redes sociais privadas inclinadas para a extrema-direita e propõe uma “desprivatização” da Internet.

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Ben Tarnoff. Foto de Simon Simard/CTXT.
Ben Tarnoff. Foto de Simon Simard/CTXT.

Ben Tarnoff (San Francisco, 1985) trabalha numa empresa de software em Massachusetts e é um dos fundadores da revista Logic, que se debruça sobre as tecnologias da comunicação e o seu impacto na sociedade. Escreve sobre este tema para meios de comunicação social como a Jacobin, o The Guardian ou o The New York Times. Este ano publicou o livro Internet for the people (Verso Books). Nele explica como a Internet, uma invenção das instituições públicas norte-americanas, se converteu num “centro comercial online” cuja infraestrutura está controlada por “rentistas” e propõe uma “desprivatização” que liberte todo o potencial da rede. Aproveitando o caos desencadeado pela compra do Twitter por Elon Musk, falámos com ele por vídeo-chamada sobre as implicações de uma esfera mediática privatizada e como construir uma alternativa.

 

Finalmente, Musk acabou por comprar o Twitter e isto produziu um grande impacto nos seus utilizadores. Ficou provado que alguém pode comprar uma rede social e fazer mais ou menos o que quiser com ela. Houve migrações para o Mastodon e procuraram-se alternativas… Poderá isto ser uma oportunidade para avançar no sentido de uma mudança de modelo na Internet?

Pode ser uma oportunidade. Suponho que no mínimo é uma lição valiosa sobre a fragilidade das nossas plataformas corporativas. Refiro-me aos riscos de permitir que as plataformas onde acontece a nossa vida online pertençam a empresas privadas e sejam operadas por elas.

Há uma história mais longa aqui, claro, que é a da comercialização da esfera mediática. Dos jornais, da rádio e da televisão. Ao longo da história dos meios de comunicação social, assistimos a um conflito real entre os imperativos comerciais e a capacidade de oferecer informação útil, correta, relevante e fiável ao público. Estes meios têm um potencial que está inibido pela dinâmica comercial.

O exemplo dos Estados Unidos é extremo porque temos muito poucos meios de comunicação públicos e uma esfera mediática fortemente desregulada, o que produziu uma paisagem informativa distópica, com algumas consequências políticas.

De forma que, na minha opinião, quando falamos no Twitter ou no Facebook e noutros espaços online onde circula informação, temos que os situar no contexto mais amplo dos meios de comunicação social e de como foram sendo definidos pelos objetivos comerciais.

 

Consideras que as redes sociais são meios de comunicação social?

Bom, no sentido amplo. É claro que há uma diferença, que é a nossa capacidade para interagir socialmente através destes sistemas computacionais de um modo que é impossível através do jornal ou da televisão, e há que ter isso em conta. Mas o seu problema continua a ser muito familiar: como o princípio da maximização de lucros corrompe a qualidade da informação e da interação social.

As redes fomentam certos tipos de informação, certos tipos de interação. Tende a ser informação sensacionalista, provocante e com uma carga emocional intensa. E isto, geralmente, favorece as forças de direita.

O Facebook, em concreto, converteu-se numa poderosa máquina de propaganda reacionária em parte porque o seu algoritmo prioriza o conteúdo mais provocador. Isto criou uma oportunidade que foi explorada por certos grupos de direita para usar as redes como megafone. É algo que será familiar a quem conheça a história da rádio comercial nos Estados Unidos e de Rush Limbaugh, por exemplo. Ou da televisão e da Fox News. Por isso acredito que é importante juntar os pontos e perceber que isto não aconteceu do nada, mas que é a intensificação de uma dinâmica já conhecida.

 

Contudo, no teu livro Internet for the people, consideras que as explicações mais difundias sobre como as redes favorecem a extrema-direita são simplistas. Afirmas que, por um lado, o conteúdo polémico gera interações, mas, por outro, pode afugentar os anunciantes, que são a principal fonte de rendimentos destas empresas, daí que seja uma questão complexa. Podes explicar-nos isso?

É um exercício de equilibrismo. Por um lado, servir de megafone à direita tem vantagens claras, porque acedes a uma base de utilizadores muito empenhada. E, como sabemos, estas plataformas vivem do engagement, é o que usam para vender anúncios. Por outro lado, por vezes as atividades desta base de utilizadores podem envergonhar e incomodar os anunciantes. O QAnon é um bom exemplo. É um movimento conspiranóico dos Estados Unidos que está relacionado com o assalto ao Capitólio de 6 de janeiro. Isto obrigou o Facebook a reagir.

O Facebook pode beneficiar muito em ser o espaço onde o QAnon se consolida e recruta os seus membros. Mas se passa a ser uma vergonha, se provoca controvérsia ao ponto de os anunciantes não quererem surgir ligados a isto, então o Facebook passa a ter que atuar.

Creio que esta dinâmica se vê muito claramente na gestão de Musk no Twitter. Ele está a abraçar abertamente ideias reacionárias e fazer amigos na extrema-direita. E os anunciantes estão a ficar nervosos. Preocupa-os a segurança das marcas, não querem que o seu anúncio surja debaixo de um tuíte com uma suástica por exemplo. Essa imagem é muito má para eles. De maneira que, para as plataformas é um exercício de equilibrismo, porque têm uma relação simbiótica com a extrema-direita que os faz ganhar dinheiro, mas têm de moderar os conteúdos, porque senão os anunciantes começam a ter suores, que é o que está a acontecer com o Twitter.

 

A publicidade é o principal negócio das grandes empresas da Internet, como a Google e o Facebook. Usam os big data para isso. Contudo, no teu livro insinuas que os anúncios na Internet não são muito eficazes. Porque pensas isto?

Tim Hwang tem um livro maravilhoso que se chama Subprime Attention Crisis. Argumenta que o ecossistema da publicidade online foi construído, até certo ponto, a partir de um engano. Muitos anúncios existem mas não são mostrados porque as pessoas têm bloqueadores, porque estão em sítios onde as pessoas não os veem, ou são simplesmente ignorados e não influenciam em nada.

A publicidade está sobrevalorizada. Creio que é importante tê-lo em mente porque normalmente o que escutamos, especialmente aos críticos da tecnologia, é o contrario. Se leres Shoshana Zuboff, por exemplo, ficas com a impressão de que estas empresas se tornaram máquinas de controlo mental, capazes de inserir mensagens subliminares nos nossos cérebros que nos fazem comportar-nos de uma forma determinada e comprar certas coisas.

Provavelmente, a verdade está em algum ponto intermédio.

Mas creio que temos a responsabilidade de recusar a narrativa segundo a qual estão a controlar a nossa mente porque a psicologia humana não funciona assim, é muito mais complexa. Para além disso, há muito software que não funciona. Uma coisa é o que o software promete e outra é o que faz. Nunca é o mesmo. Zuckerberg quer que pensemos que tem uma máquina de controlo mental porque é assim que vende anúncios, mas claramente não é esse o caso.

A minha intenção nessa parte do livro era trazer um pouco de sanidade ao discurso porque é fácil deixar-se levar pela propaganda. Acho importante tentar compreender de forma precisa como estas tecnologias na realidade funcionam, não como os seus executivos nos dizem que funcionam.

 

Outra questão em que o teu livro me pôs a pensar é como a Internet que conhecemos, em Espanha, por exemplo, é muito norte-americana. A tecnologia foi desenvolvida por uma agência governamental para o exército dos Estados Unidos. E as plataformas que mais utilizamos como o Google, o Facebook, a Netflix ou a Amazon são norte-americanas.

Na China construíram um ecossistema totalmente chinês, com grandes plataformas chinesas, devido à Great Firewall. É uma questão de censura e também de política industrial, o equivalente às tarifas aduaneiras para um país que tenta industrializar-se. Foi assim que criaram a sua própria economia da Internet. E também há ecossistemas mais ou menos regionais na Índia, na América Latina ou na Rússia. Mas, de forma geral, empresas como a Google e o Facebook continuam a ser dominantes no mundo e ainda há alguns mecanismos de governo da Internet que são norte-americanos. O DNS, que é como a agenda de moradas da Internet, era controlado pelo Departamento de Comércio dos Estados Unidos e agora é gerido pelo ICANN, que é tecnicamente uma ONG, mas está sediada em Los Angeles, sob jurisdição norte-americana. A base de utilizadores globalizou-se, mas os Estados Unidos ainda retêm uma grande quota de soberania, ainda que não como nos anos 1990, quando o controlo era total.

Hoje em dia há muitas especulações sobre a fragmentação da Internet, mas não acho que chegue a fragmentar-se totalmente. Tem sempre benefícios manter algum grau de interconexão. A Internet significa a rede das redes. Estas redes podem estar conectadas de diversas formas. E é difícil antecipar como se vão desenvolver.

 

Escreveste muito sobre a organização dos trabalhadores do sector tecnológico. Qual é a situação agora nos Estados Unidos?

Em geral, no país, houve uma desmobilização desde que Biden ocupou a presidência. A energia que se gerou na época de Trump esgotou-se e há que procurar novas formas de se organizar.

Houve uma grande vaga de mobilizações depois da eleição de Trump. Foi um acontecimento que levou muita gente a pensar mais na ação coletiva e daí saíram iniciativas muito mediáticas em grandes empresas tecnológicas como os Google Walkouts [protestos contra a gestão dos casos de assédio sexual, de discriminação e de racismo na empresa que aconteceram em 2018], mas agora o movimento centra-se em empresas mais pequenas.

Com as leis norte-americanas, é muito difícil organizar um sindicato numa grande empresa como a Google. Há centros de trabalho divididos por diversas cidades, há muitas empresas subcontratadas… Houve algumas experiências mas penso que o foco se deslocou para empresas mais pequenas onde é mais fácil organizar e ganhar campanhas para constituir um sindicato formal.

Provavelmente, o maior sindicato de trabalhadores do setor informático de colarinho branco é o do The New York Times. Este tipo de empresas converteram-se em empresas tecnológicas por necessidade, têm muitos engenheiros contratados e estão a desenvolver-se processos muito interessantes de ver.

 

A indústria tecnológica alberga grandes desigualdades. Há engenheiros de software com salários muito elevados e há moderadores de conteúdo em condições lamentáveis, espalhados pelo mundo. Consideras muito importante criar solidaridade entre os diferentes trabalhadores do sector. Achas que isto está a acontecer?

Houve casos inspiradores. Por exemplo, muitos empregados de colarinho branco de Silicon Valley desempenharam um papel importante nas campanhas de sindicalização dos trabalhadores de serviços como os das cafetarias ou da segurança nos seus centros de trabalho. A solidariedade é certamente possível. Há obstáculos evidentes, que são fomentados pelas empresas. Creio que o truque é não ignorar as diferenças entre os trabalhadores. Não fingir que todos estes indivíduos pertencem à mesma categoria mas facilitar que se entendam mutuamente e possam colaborar na ação coletiva.

 

Debateu-se muito sobre os perigos das fake news na Internet quando Trump chegou ao poder. Agora que governam os democratas, planeiam legislar nesse sentido?

A preocupação com a desinformação desapareceu do discurso popular, simplesmente porque Trump já não está no cargo. Há pessoas que trabalham sobre isto mas já não é visto como algo urgente. Penso que é uma abordagem que sempre teve limitações graves. Davam demasiada importância à desinformação para tentar explicar porque Trump tinha ganho, queriam fazer passar a ideia de que a desinformação era a causa de demasiadas coisas. Agora creio que se estão a dedicar muitas mais energias à questão anti-monopólio que à da desinformação.

 

Não estás de acordo com essa abordagem, não acreditas nas políticas anti-monópolio para a Internet…

Correto. Mantenho um apoio crítico, digamos, porque estes grupos querem reduzir o poder das grandes empresas e isso é bom. Apoio muitas das propostas que fizeram nos Estados Unidos, como desmembrar grandes empresas ou impor interoperabilidade entre serviços. Mas não partilho o seu diagnóstico do problema. Eles defendem que o problema é que os mercados estão demasiado concentrados, pensam que se se introduzir mais concorrência na Internet, os resultados para a sociedade serão mais positivos. Não creio que isto esteja correto. De fato, acho que a concorrência iria piorar as coisas.

Se pensares nas redes sociais, acreditar que com dez Facebook a dinâmica seria mais saudável é ilusório. É claro que seria pior porque as empresas fariam qualquer coisa para ganhar quotas de mercado. As piores práticas do Facebook para envolver os seus utilizadores surgiram no seu início, quando ainda não eram tão dominantes.

 

A tua proposta é a desprivatização. Em que consiste?

Criar uma Internet para as pessoas, não para o lucro. Isto soa um pouco abstrato. O que quer dizer? Significa criar alternativas às estruturas empresariais, que sejam de propriedade pública ou cooperativa, sobre as quais se possa exercer um verdadeiro controlo democrático. Muitas já existem. No livro, por exemplo, falo das redes comunitárias que existem nos Estados Unidos, na Europa e por todo o mundo para gerir a infraestrutura física da Internet. No que diz respeito às plataformas, o Mastodon é um projeto muito interessante, tem os seus limites, mas dá-nos uma ideia de como poderia ser uma rede social descentralizada de comunidades auto-suficientes. E as pessoas estão a utilizá-lo para experimentar este tipo de questões.

As inovações de que precisamos são tanto sociais como técnicas. Trata-se de criar espaços nos quais possamos deliberar, atuar, pensar as questões difíceis entre todos.

Poderíamos dizer muitas coisas sobre como levar à prática estas ideias. As políticas públicas têm que desempenhar um papel importante, há que usar o Estado para dirigir investimentos para as alternativas e para limitar o poder das grandes empresas e tudo isso. Mas o que quero enfatizar é que estas alternativas já existem, não é preciso criá-las do zero, podemos fixar-nos nos modelos existentes, que têm os seus limites, mas que ainda assim nos dão pistas sobre o aspecto que teria uma Internet do povo.


Elena de Sus é jornalista e pertence à redação da CTXT.

Publicado originalmente na CTXT. Traduzido por Carlos Carujo para o Esquerda.net.