França

Mundo do desporto e da Internet mobilizam-se contra a extrema-direita

18 de junho 2024 - 22:10

Duas tribunas públicas, uma de 400 figuras do mundo desportivo outra de 200 criadores de conteúdo de Internet, tomam partido contra a extrema-direita. Os do desporto apelam à “fraternidade, solidariedade e espírito de equipa” e à aprendizagem de que “a nossa diversidade é um ponto forte”, opondo-se a quem “explora diferenças e manipula medos para nos dividir”.

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Manifestação contra a União Nacional.
Manifestação contra a União Nacional. Foto de ANDRE PAIN/EPA/Lusa.

Com as eleições legislativas antecipadas em França à porta, a notícia não são apenas os programas eleitorais, as movimentações para as candidaturas em cada círculo, a arquitetura da complexa unidade à esquerda, a desfaçatez da extrema-direita e a confusão no campo do macronismo e da direita conservadora. A possibilidade da extrema-direita chegar ao poder tem mobilizado manifestações e declarações bem para além do campo político. Mais recentemente foram o mundo do desporto e o da Internet a juntar-se para expressarem oposição ao crescimento do campo da ultra-direita.

No domingo, no jornal L´Equipe, perto de 400 personalidades do mundo do desporto, entre desportistas, árbitros, dirigentes associativos, jornalistas e outros, assinaram uma tribuna pública em que apelam ao voto “pela esperança” e contra a extrema-direita.

Afirmando estar conscientes das “dificuldades crescentes” da população e da cólera face às desigualdades, destacam porém que “o respeito é uma das peças angulares do desporto” e que este é “espezinhado” todos os dias pela extrema-direita. Para além disso, apelam à “fraternidade, solidariedade e espírito de equipa” e à aprendizagem de que “a nossa diversidade é um ponto forte”, tomados também do campo desportivo para se oporem a quem “explora diferenças e manipula medos para nos dividir”.

Retomam ainda as “lições do passado” que mostram que “a extrema-direita opõe-se profundamente à construção de uma sociedade democrática, tolerante e digna”, lembrando que a União Nacional de Le Pen tem “as suas raízes” no nazismo e anti-semitismo que “levaram a atrocidades inimagináveis, incluindo genocídios.”

E terminam dizendo que as eleições são uma “oportunidade extraordinária” de mostrar que o mundo do desporto apela a “uma sociedade mais inclusiva e democrática” em que “cada indivíduo, independentemente da sua origem é tratado com dignidade”.

Na lista de signatários encontram-se nomes como os dos ex-tenistas Yannick Noah e Marion Bartoli, o jogador de rugby Serge Betsen e a tri-campeã olímpica Marie-José Perec.

Mbappé quis ficar em cima do muro, a extrema-direita tratou de o instrumentalizar

Declaração de sentido muito diferente da emitida horas antes pelo capitão da seleção francesa de futebol, Kylian Mbappé, que fez um apelo ao voto contra os “extremos”, deixando assim espaço a interpretações que possam equiparar esquerda e ultra-direita. Para ele, “os extremos estão às portas do poder” e seria preciso travá-los.

Esta mensagem, genérica, zangou alguns elementos da União Nacional, como o vice-presidente Sébastien Chenu, que falou em quem “está desligado da realidade” e “prega sermões aos franceses”, mas também permitiu que outros a tentassem instrumentalizar a seu favor. O porta-voz da UN, Julien Odoul, tinha começado até no X por alinhar pelo mesmo diapasão do que o seu colega de partido, criticando os “pregadores privilegiados que tomam os franceses por parvos”, para depois na televisão elogiar Mbappé como “um jogador fantástico” e afirmar: “partilho a sua aversão ao extremismo” e a sua “rejeição da violência que é uma marca da extrema-direita”, rejeitando assim que a mensagem se dirigisse ao seu partido. Na FranceInfo, outro deputado, Laurent Jacobelli, foi mais longe na colagem à declaração, dizendo: “partilho a sua aversão ao extremismo, às ideias divisionistas, nomeadamente a apologia do terrorismo e do anti-semitismo feita pela França Insubmissa e pelo senhor Mélenchon. Partilho a sua rejeição da violência que é a marca da extrema-esquerda e desta nova frente popular.”

Mais prudente, a França Insubmissa, diz não querer “colocar palavras na boca” de Mbappé mas, esclareceu Manuel Bompard na Franceinfo, o partido não se sentiu “de forma alguma” identificado com aquilo que o futebolista criticou.

Um “stream popular” contra a extrema-direita

Também no mundo da Internet há quem levante a voz contra a extrema-direita. Noutra tribuna, esta no Mediapart e contando com 200 assinaturas, criadores de conteúdo e “personalidades da Internet”, apelam à mobilização contra a extrema-direita.

Dizem que a extrema-direita “não foi, não é e nunca será a solução”, lembram que a Frente Nacional foi co-fundada em 1972 por ex-elementos das forças especiais nazis Waffen-SS e consideram que “o partido não mudou apesar da sua mudança de nome”, mantendo ligações “amplamente documentadas” com “os piores grupúsculos de extrema-direita”.

Os seus alvos continuam os mesmos, “as mulheres, as pessoas LGBTI+, as pessoas racializadas, as pessoas de confissão judaica ou muçulmana” e o seu programa é “estruturado à volta da teoria racista da grande substituição”.

Os autores do documento afirma que “a hora não é de neutralidade”, que é preciso “ir massivamente votar e fazer votar”. E escolhem a Nova Frente Popular como o voto que permite vencer a extrema-direita e responder à urgência ecológica, salvaguardar serviços públicos e melhorar o quotidiano dos trabalhadores. 

Mobilizam-se através da rede Stream Popular e admitem que mobilizar-se na Internet é contrariar o “medo de perder audiência ou patrocínios” e que por isso há muitos criadores de conteúdos que “hesitam em tomar a palavra” mas pensam que é “necessária uma clarificação”.