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Mulheres de Abril: Testemunho de Maria Custódia Chibante

A fúria do chefe da Brigada Silva Carvalho era indescritível, pois além de me insultar e deixar a cara inchada, cuspiu-me três vezes para a cara. Foi este o meu último dia de prisão. Por Maria Custódia Chibante (mulher do Couço).
Ficha da PIDE de Maria Custódia Chibante.

 

Este testemunho foi recolhido no âmbito do projeto Mulheres de Abril, iniciado em 2018, e que compila relatos, na primeira pessoa, de mulheres antifascistas sobre a sua história de resistência e de luta contra a ditadura. Coordenação de Mariana Carneiro.


Com oito anos, Maria Custódia Chibante, natural do Couço, concelho de Coruche, lia o jornal República para as vizinhas ouvirem. Com doze ou treze anos, já se sentia revoltada com o facto de na sua terra existir meia dúzia de grandes proprietários e o resto da população passar fome. Também não conseguia compreender  a razão pela qual não podia estudar e ser professora, que era o seu sonho.


Nas vindimas com o marido, ambos ao centro.

Chegou a ir trabalhar para a costura, durante três meses, passando, posteriormente, a vender o leite das cabras, e a queijar o que sobrava. Ajudava também a apanhar figos para os porcos e a fazer o serviço da casa. O irmão também deixou a escola, foi logo trabalhar com o seu pai assim que fez a quarta classe.

Os pais de Maria Custódia Chibante não lhe davam mais porque não tinham, mas foram uns pais muito carinhosos: “Posso dizer que foram dos melhores pais, foram do melhor que podiam ser, só que eles não podiam dar-me mais do que aquilo que me davam porque não o tinham, mas carinho, deram-nos muito”. A sua mãe trabalhava no campo e o seu pai era pedreiro, mas também trabalhava como trabalhador rural. Tinha sempre sopa para comer, contudo, muitas vezes, não havia mais nada a acompanhar, que não um punhado de azeitonas.


Maria Custódia Chibante (primeira à esquerda) em passeio com os amigos. 

Com quinze anos, Maria Custódia Chibante já tinha consciência que pertencia à classe trabalhadora e da exploração a que era sujeita: “Costumava dizer e ainda hoje digo: ainda ninguém foi capaz de me explicar porque é que um rico nasce rico e morre rico, e nunca fez nada na vida, e porque é que um trabalhador trabalhou a vida inteira, passou fome, e ainda tem que pedir aos ricos”.

O sonho de ser professora teve de ser posto de parte. Maria Custódia Chibante acabou por se tornar comerciante. Tinha, com o seu marido, uma loja em Foros de Lagoíços, a um quilómetro da aldeia do Couço. Era um espaço de encontro, de convívio, de jogo. “Um espaço único de lazer ao ar livre naquele lugar, exclusivamente para homens, claro!”, como recorda a filha de Maria Custódia Chibante, Augusta Barroso:


Na RDA, em 79-80.

 “O dominó e as cartas eram jogos de mesa e de interior onde o vinho a copo, a aguardente, e o pão com chouriço tinham presença obrigatória. Homens sentados em mesas e bancos de madeira ou encostados ao balcão eram a realidade do entardecer ou das noites de sábado e domingo. No outro espaço, a loja, tudo se vendia, prenúncio das grandes superfícies da atualidade, bacalhau, arroz, atum, marmelada, feijão, grão, milho (tudo a peso e embrulhado em papel vegetal ou em pacotes de papel pardo), tecidos a metro, louça utilitária, barros, queijos, petróleo, álcool, carne de porco fresca, enchidos e o famoso bucho – o estômago do porco que se enchia com carne em pedaços bem temperada e arroz, sendo cozido, à mão, com linha grossa e uma grande agulha. Petisco delicioso que, depois de alguns dias no fumeiro, era demolhado e cozido em lume brando durante cerca de uma hora e meia/duas horas. Era servido com batata frita e salada de alface.


Foto recente de Maria Custódia Chibante em casa (Évora) a ler o Avante! que recebe, em nome próprio, e leva para o lar.

A loja tinha balcão corrido que terminava numa porta com tampo levadiço e que permitia o acesso à zona dos 'fregueses'. Os armários abertos por trás do mesmo, uma faca fixa para cortar o bacalhau e, na zona de atendimento exterior ao balcão, armários envidraçados para tecidos e produtos mais delicados, cubas debaixo destes para feijão, grão, milho… Era realmente, num olhar distanciado, um espaço digno e com algum impacto visual. Tudo muito limpo e arrumado. Havia ainda um armazém enorme e um espaço mais pequeno contíguo à loja onde se guardavam os sacos grandes (sacas) de açúcar, bacalhau, arroz, latas de conservas… A minha mãe guardava aí, suponho, os documentos de propaganda política que a PIDE tentou encontrar sem sucesso.

A população do lugar abastecia-se de tudo, para a semana, e pagava ou levava fiado de acordo com a sua situação económica”.

Apesar da oposição do marido, que temia pela sua segurança, ninguém demovia Maria Custódia Chibante de se encontrar com os camaradas, de distribuir o Avante! e de mobilizar a população para a luta por melhores condições de vida.

A 27 de Maio de 1962, Maria Custódia Chibante foi presa pela PIDE.  Já fazia uma ideia do que a esperava, devido aos relatos de vários camaradas, essencialmente homens, que tinham sido sujeitos a tortura e espancamentos.


Maria Custódia Chibante, 25 de Abril de 2017.

Militante do Partido Comunista, foi uma das primeiras mulheres a ser torturada como um homem. Nunca vergou perante as torturas a que foi sujeita, mas compreende quem falou: “As que falaram não sofreram menos, penso até que sofreram mais nas mãos deles e que depois ficaram com uma dor cá dentro para o resto da vida”.

Tinha medo, mas ainda maior era a sua revolta e consciência da justeza da luta em que se empenhava. Lutava também pela sua filha, Augusta Barroso, que tinha nove anos quando a mãe foi presa. Durante todo o tempo de prisão, Maria Custódia Chibante nunca teve direito a qualquer visita.


Fui presa no dia 27 de abril de 1962 pelas cinco horas da manhã

Eu, Maria Custódia Chibante, nascida a 6-2-1933, casada, natural do Couço e aí residente até 1-9-1965, e actualmente a residir em Évora, fui presa no dia 27 de Abril de 1962 pelas cinco horas da manhã, assim como homens e mulheres da minha terra.

Conforme nos iam prendendo, levavam-nos para junto do matadouro, que fica a um quilómetro da povoação, no qual estava um verdadeiro aparato bélico, e dali nos iam levando aos poucos para o Posto da Guarda Republicana de Coruche.

Por volta das três horas da tarde, fomos levados para Caxias numa camioneta fechada própria para o efeito. Aí chegados, fomos todos revistados e enviados às respectivas celas. Nós, mulheres, ficámos todas juntas, e creio que, no dia seguinte, juntaram-se a nós duas senhoras de Aljustrel. Com as manifestações do 1º de Maio vieram mais, do Barreiro, Palmela e Lisboa. Chegámos a ser 16 na mesma sala.

O primeiro interrogatório foi-nos feito em Caxias com ameaças e gritos. Ainda me lembro de uma senhora, Antónia Gaudêncio do Condado de Palma, de mais de 50 anos, mulher do campo e analfabeta, mas alma nobre e aberta, ao entrar na sala depois do interrogatório, dizer-nos com lágrimas nos olhos: “Sabem, não soube responder ao que me perguntaram, porque nunca tinha ouvido aquelas palavras, e um deles disse-me um palavrão e perguntou-me se eu sabia o que era”. Talvez isto não interesse, mas é para dar uma ideia da falta de moral de que a PIDE era dotada.

Ao fim de um mês de desgaste em que quase não se dormia, pois as carrinhas chegavam a todo o momento no seu barulho infernal, com mais presos, chegou finalmente a minha ida à António Maria Cardoso. Também nessa altura não passou de ameaças, por não assinar o auto de identificação.


Maria Custódia Chibante, início dos anos 60.

Chegou então o dia dos verdadeiros interrogatórios. Aparentemente, estive quase calma, mas o meu estômago ressentia-se muito, e as náuseas eram evidentes. Como não aceitei comida, e depois de passadas várias refeições sem comer, chamaram o chefe da Brigada Silva Carvalho, que me ameaçou com a sonda.

A mulher pide que me estava a guardar no momento, chamada Odete, e de aspecto franzino, tentou persuadir-me a comer, mas, como não o fiz, mandou-me tirar os brincos, relógio e anel. A poucos momentos de ser rendida, deu-me umas bofetadas para me convencer a comer, o que não conseguiu.

A seguir entrou uma outra, com todo o aspecto da sua baixa condição moral. Chamava-se Assunção e, pelo que eu ouvi aos colegas, tinha transitado da Judiciária para a PIDE. Assim que entrou, com o seu ar cínico, colocou um cassetete de grandes dimensões em cima da mesa [eu sabia que eles também batiam em mulheres, mas não com cassetetes, pensei que era para me aterrorizar].

Quando me recusei a comer, disse-me que os presos não tinham querer e, portanto, eles mandavam e nós obedecíamos. Espancou-me durante toda a noite apenas com pequenos intervalos para ela descansar. Saía para o corredor ofegante e a abanar-se e ia descansar. Quando voltava, era exactamente o mesmo: levantava-me a saia, espancava-me com o cassetete até se cansar, e assim sucessivamente.

Foi de tal maneira brutal que fiquei negra da cintura até à curva da perna. Deu-me tantas bofetadas na cara que quase deixei de ver do olho esquerdo devido ao inchaço. Disse-me, cinicamente, que já estava “à Camões”. Quando tentei defender a cara, foi tal a dor ao receber a pancada do cassetete na mão que pensei que estava partida. A mão ficou toda esverdeada e inerte, só com a outra a conseguia elevar. As pancadas na nuca são horríveis, e deu-me tantas com um tipo de cutelo que me dava a sensação de a testa abrir.

Aquela mulher mais parecia uma fera do que um ser humano, pegava-me pelo cabelo e fazia-me andar de um lado para o outro com tanta força que quando me largava quase caía. Eu penteava-me a seguir e o cabelo arrancado era aos montes. Esta minha aparente calma ao fazer isto deixava-a furiosa.

Quando se convenceu que não me fazia comer, apertou-me o nariz com força e meteu-me um copo com leite nos lábios. A sua fúria foi indescritível, ao ver que nem assim conseguia o seu intento. Então despejou-me o leite pela cara e continuou a espancar-me. A seguir pôs-me de estátua no meio da sala, Eu, que nunca tinha desmaiado, senti-me nesse momento a desfalecer. Disse-lhe: Se a senhora não me manda sentar eu caio”. Olhou-me e, como o meu aspecto era evidentemente mau, mandou-me sentar.

Entrou então outra, chamada Madalena, de porte altivo e olhar cínico, fez mordazes comentários sobre o meu aspecto e começou o interrogatório. As minhas negativas em relação às acusações que me fez ocasionaram-me mais espancamentos, principalmente na nuca, o que me levou a pensar que talvez não saísse dali com vida.

Chamado o chefe Silva Carvalho, para lhe darem conhecimento de que não queria falar, disse-me: “Daqui não sai ninguém sem falar, se não falar não sai daqui viva”.

Não é que eu goste de morrer, mas tão pouco me aflige a ideia de morrer. E, nessa altura, preferia a morte a trair-me a mim própria. A minha coragem e força de vontade deve-se em parte ao conhecimento das grandes torturas que tinham sofrido muitos camaradas, e o seu escrúpulo levou-me a não recear o que quer que fosse.

Estive 98 horas na PIDE, fui interrogada e amesquinhada várias vezes. Cheguei ao limite das forças físicas aproximadamente ao fim de 75 horas.


Pedido de autorização para consultas de neurologia ao diretor da
PIDE.

Ouvi espancar um preso que estava na sala ao lado, devia ser homem de condição modesta, pois ouvia-lhe os passos de botas cardadas. Nós sofríamos muito quando nos espancavam, mas creio que a nossa dor não era menor ao ouvirmos os nossos camaradas de sofrimento a serem torturados. Nós já sabíamos que iam começar a espancar alguém quando ouvíamos uma música estridente que nos punha quase loucos. Não sei se se poderia chamar música àqueles gritos, vozes e gargalhadas, só sei que demorei dias a perceber que aquilo era uma gravação que, certamente, tinha como objectivo disfarçar os gritos que porventura os presos dessem ao ser torturados. Quando em Caxias falei nisso também várias camaradas o confirmaram.

Como disse há momentos, a minha resistência física findou nesse momento. Até então não me deixaram dormir, pois, quando sentada numa cadeira, fechava os olhos, eles davam murros na mesa e batiam os pés com força no chão. Isto arrasava-me completamente, e tinha a sensação de que o coração me saltava pela cabeça.

Foram então buscar um colchão imundo no qual me deitei, mas não consegui dormir, tal era o meu estado nervoso. Deram-me um comprimido e assim passei pelo sono, como se costuma dizer, pois não consegui dormir verdadeiramente.

No dia seguinte tentaram tirar-me o colchão, mas como não conseguia suster-me em pé continuaram os interrogatórios sentada no dito colchão. Ao verem que não me recompunha, levaram-me para o forte. Levaram-me em braços, pois não conseguia andar. No dia seguinte, o médico foi à sala para me medicar, já estando a ser tratada pela enfermeira com infravermelhos.

Passado algum tempo, voltei novamente à António Maria Cardoso, na qual estive uma tarde inteira numa sala de espera, de onde saí novamente para Caxias sem ser interrogada. Ao chegar ali verifiquei que todas as minhas colegas tinham mudado de sala. Vi-me assim, só, durante 19 dias, sem livros nem jornais, pois durante os cinco meses e meio de prisão estive sempre no chamado regime especial. Só lia livros e jornais que as minhas colegas recebiam. Em todo o tempo de prisão, nunca tive visitas.

 

Parece mentira, mas as únicas distracções que tive nos 19 dias de isolamento foram-me dadas pelas moscas. Fazia bolinhas de pão com açúcar e punha-as em cima da mesa para as ver a comer e a fazer toda a espécie de acrobacias e movimentos. Nos dias encobertos estas minhas companheiras não apareciam, e então a solidão tornava-se mais pesada. E mais pesada se tornou ao aperceber-me que estavam a dar a liberdade à companheira de Augusto Lindolfo. Recebi um choque tão violento ao ver o preço dessa liberdade, que comecei a vomitar. Até ao fim, daí em diante, o meu único alimento era o leite que ingeria com dificuldade. Todo o esforço para comer resultava em náuseas.

 

No dia em que a companheira de António Dias Lourenço e os seus filhinhos chegaram a Caxias, fui então para junto das minhas antigas companheiras, para a sala ficar vazia para eles.

A comida que tínhamos em latas era guardada pelas carcereiras fora da sala. Sucedeu a várias estarmos dias sem nos servirem esses alimentos, e quando os requisitávamos, comprovávamos que alguns deles tinham desaparecido.

Todos os presos da minha terra foram libertados, e eu segui para mais um interrogatório na António Maria Cardoso. O Silva Carvalho, ao ver que eu não estava disposta a assinar mesmo as respostas de desmentidos das acusações que me faziam, ao que eles chamavam negativos, nem a dizer nada, fechou a janela e, com toda a calma, começou a arregaçar as mangas da camisa. A sua fúria era indescritível, pois além de me insultar e deixar a cara inchada, cuspiu-me três vezes para a cara.

Foi este o meu último dia de prisão. Chegada a Caxias, foram-me dadas as minhas coisas para sair em liberdade. Mas nem sequer me foi permitido ir buscá-las, para as minhas companheiras não saberem o meu destino e assim sofrerem mais.

 


Maria Custódia Chibante com Álvaro Cunhal, no Couço.

 

[Autobiografia de Maria Custódia Chibante escrita nos anos 70 e republicada pelo Esquerda.net com autorização da própria]

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