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Mulheres de Abril: Testemunho de Maria Antónia Palla

Foram uns dias que não se podem esquecer. Mas, quando fiz o relato dos acontecimentos, escrevi uma frase que me ficou na memória: “Agora que temos a Liberdade, o que vamos fazer com ela?”. Por Maria Antónia Palla.
Maria Antónia Palla, 1972. Reprodução de foto de Alfredo Cunha (imagem cedida por Maria Antónia Palla).

Este é o vigésimo terceiro testemunho da série "Mulheres de Abril". São relatos, na primeira pessoa, de mulheres antifascistas sobre a sua história de resistência e de luta contra a ditadura.

À medida que os testemunhos forem publicados, poderá consultar toda a série em: Mulheres de Abril. Coordenação de Mariana Carneiro.


Os princípios maçónicos – Liberdade, Igualdade e Fraternidade

Eu tive a sorte de ter nascido numa família - e falo da minha família paterna - republicana, laica, e meio socialista, meio anarquista. Os meus avós maternos já eram bastante diferentes, eram muito conservadores.

Nasci em casa dos meus avós paternos, no Seixal, e saí de casa deles aos quatro anos, quando os meus pais foram viver para perto de Sintra. Mas passei sempre muito tempo com eles, porque era lá que gostava realmente de estar.

O meu avô era maçon e a minha avó partilhava os seus ideais: Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Eram extremamente generosos. Davam todo o apoio não só à família mas também aos companheiros que necessitavam de auxílio. Foram eles que me transmitiram esses valores. Em mim, foi natural, não tive de pensar muito. Foi como respirar, como beber água, nunca tive dúvidas acerca disso. Também nunca tive nenhuma queda para a religião, eram estes princípios que me nortearam e norteiam, no respeito pelas opiniões dos outros.

Quando eu nasci, em 1933, estávamos no começo da ditadura, e o meu avô fazia parte da Oposição. A casa dos meus avós era uma casa onde nunca se fechava a porta. A todas as horas havia gente a entrar e a sair. A minha avó gostava muito de jogar às cartas, pelo que a casa se enchia de pessoas à noite. Vinham conspirar com o meu avô e falar de livros proibidos ou jogar com a minha avó.

O meu pai também era maçon, mas era muito contraditório. Sempre achei, desde miúda, que existia essa contradição, sobretudo no que tocava à liberdade das meninas. “Vícios privados, públicas virtudes”... Os meus avós não eram assim. Por isso, deixavam-me fazer tudo.

Os meus brinquedos foram os livros

No Natal, quando os meninos recebiam presentes, os meus avós achavam que não se deviam dar prendas nesta época. Contudo, durante o resto do ano davam-me imensas coisas. Na nossa casa apenas se assinalava o Natal com um almoço mais rico, com mais doces. Na altura, sentia essa diferença e ainda não a compreendia bem. Sentia, contudo, que havia nós e os outros.

Também não me davam bonecas. A partir do momento em que aprendi a ler, os meus brinquedos foram os livros. Não tinha qualquer limite no que respeita ao dinheiro que gastava em livros.

Outro deslumbramento para mim foi o cinema. Com sete anos, comecei a ir com a irmã da minha mãe ao cinema, onde é hoje o Palácio Foz, ver filmes do Fred Astaire e da Ginger Rogers. Ainda hoje tenho uma paixão por filmes musicais. Na altura, afligia-me não saber ainda ler as legendas, pelo que aprendi a ler num mês.

A minha avó levava a defesa dos direitos das mulheres muito a sério

Tenho a impressão de que o termo feminista não existia no país na altura ou não era usado pela minha avó. O sufragismo em Portugal foi defendido por um grupo privilegiado de mulheres, escritoras, jornalistas, médicas, como a Ana de Castro Osório, a Maria Veleda, a Adelaide Cabete, a Beatriz Ângelo... Era uma elite. As outras pessoas, mesmo perfilhando ideias feministas, não falavam assim. Eram republicanas, apenas.

Foi da minha avó que colhi esta ideia, que, a meu ver, ainda hoje tem razão de ser: “Se queres ser livre, tens de ter o teu dinheiro”

A minha avó sempre defendeu os direitos das mulheres. A minha bisavó foi uma mulher que se tinha casado duas vezes, que tinha tido três filhos e que, por duas vezes, enviuvou. Foi sempre o bastião da família. E isso, como é óbvio, marcou a minha avó. Foi dela que colhi esta ideia, que, a meu ver, ainda hoje tem razão de ser: “Se queres ser livre, tens de ter o teu dinheiro”. A minha avó tinha total independência em relação ao meu avô. Afirmava-o e praticava-o. Quando as coisas não corriam como ela achava que deviam correr, pegava nas malas e vinha para Lisboa para casa de uma irmã, uma mulher sozinha. Até que o meu avô vinha buscá-la e faziam as pazes.

A segunda Guerra Mundial

Lembro-me perfeitamente de sentir um choque, uma enorme preocupação, ao ver todas aquelas crianças que foram evacuadas, com um cartão no peito com a sua identificação, e que foram recebidas por famílias de outros países onde a guerra não tinha chegado. Vivi isso com uma grande angústia, porque essa é a altura em que não nos queremos separar das nossas mães, e aquelas crianças eram separadas das suas famílias.

À época, não sabíamos o que tinha acontecido aos judeus, só mais tarde, no final da guerra, tivemos conhecimento de que a maior parte tinha sido exterminada pelos nazis. Em minha casa apoiavam os Aliados. O meu pai ainda nos mandou um tempo para fora de Lisboa porque tinha medo que houvesse um bombardeamento aqui. Por um lado, tinham esperança que a vitória dos países democráticos derrubasse Salazar, mas tal não aconteceu. Estivemos seis meses fora de Lisboa até que a minha avó se impôs e disse que tínhamos de regressar, para eu ir para a escola.

Quando cheguei à Faculdade percebi o que era o país real

Eu tive de fazer a primária em casa, devido a ter estado muito doente, e depois passei para o Liceu Francês, onde o ensino era misto e bilingue e onde era poupada à influência do Estado Novo. Lá estruturei mais a minha noção de Liberdade. Deixou de ser algo instintivo para passar a ser justificada racionalmente.

A maior parte dos professores que estavam no curso bilingue – de português e francês – eram pessoas da Oposição. Muitos deles já tinham sido julgados e não o escondiam. E eu pensava que aquela liberdade que sentia no Liceu Francês era geral. Lá sentia-me protegida, mimada, tinha muito boas notas.

Só quando entrei na Faculdade de Letras, no curso de Ciências Histórico-Filosóficas, percebi o que era o país real. Entrei num meio hostil.

Só quando entrei na Faculdade de Letras, no curso de Ciências Histórico-Filosóficas, percebi o que era o país real. Entrei num meio hostil. Nunca pensei que existissem tantos católicos em Portugal. Hoje, olho para os católicos como olho para qualquer outra pessoa, independentemente da sua opção, seja de ordem religiosa, ou política, ou outra, mas, naquela altura, o catolicismo estava demasiado ligado ao Regime e, portanto, para mim, eles pertenciam a outro mundo. À época, nunca tive um amigo católico ou de direita. Portugal estava dividido. Hoje acho que foi uma grande conquista do 25 de Abril podermos ter amigos de todos os lados. O que interessa são as pessoas. Há outra tolerância nas relações. Na altura era tudo extremado. No fundo, eu aspirava a essa pluralidade, e, por isso, tive sempre relutância em entrar em qualquer organização clandestina.

Participei e liderei vários protestos

Existiam alguns comunistas na Faculdade, mas julgavam-se muito importantes, pelo que não podiam arriscar manifestar a sua opinião. Para mim, a Liberdade foi sempre tão assumida que nunca escondi a ninguém o que pensava, o que era. Estava-me na pele.

Eu e mais dois colegas, um rapaz e uma rapariga, o Arezes e a Maria José Marinho, éramos os únicos que distribuímos toda a espécie de papéis que nos pediam para distribuir. Estava sempre a ser chamada ao director da Faculdade de Letras, que era também comissário nacional da Mocidade Portuguesa. Assim que chegava ao gabinete, dizia-me: “A senhora, que é comunista...”, ao que eu respondia: “Ah, isso é que eu não sou!”. Na verdade, cheguei a ser representante do MUD Juvenil na Comissão Universitária, mas declarava sempre que não pertencia ao MUD Juvenil. Simplesmente, colaborava, executava tarefas. Mas... como eu ainda digo, eles liam Marx e eu... Freud...

Na Faculdade participei e liderei vários protestos. Sempre que estava em causa alguma situação de injustiça, conseguia congregar pessoas e tomar posição. Lembro-me que, no meu ano, tivemos um professor que era inspector da PIDE, Farinha dos Santos, que tinha interrogado vários conhecidos meus, do MUD Juvenil. Uns colegas aceitavam-no, outros temiam-no. Eu ignorava-o. Nunca lhe falei. Mais tarde, ele foi professor de arqueologia. Dizia-se que “era capaz de fazer falar as pedras”...

Nunca cumprir ordens, sobretudo nas questões políticas

Eu era muito crítica em relação ao MUD Juvenil porque percebi que, quando fazíamos uma reunião para discutir um assunto qualquer, o resultado já estava determinado. O controleiro já trazia a conclusão lá de fora. Estávamos ali a fazer figuras de parvos a discutir coisas que já estavam pré-definidas. E muito poucos discordavam, talvez porque estivessem habituados a seguir ordens. Eu vinha de um Liceu onde, quando discutíamos algo, discutíamos a sério. A conclusão ficava com cada um. Existia uma liberdade total de discussão.

Praticamente, o único partido mais ou menos organizado era o PCP e, portanto, muitas pessoas que nem sabiam bem o que era o comunismo entravam para o partido porque, sobretudo fora de Lisboa, eles tinham uma acção. Em Lisboa, eu achava que eles tinham iniciativas um bocado tontas. Por exemplo, uma acção que era praticada todos os anos e que nunca teve efeitos positivos era assinalar o dia 9 de Abril - a batalha de La Lys na Primeira Guerra Mundial durante a qual morreram muitos portugueses - depositando um ramo de flores no Monumento aos Mortos da Grande Guerra, na Avenida da Liberdade. Como é óbvio, antes de lá chegarem, aquilo já estava apinhado de pides. Nem conseguiam deixar o ramo de flores, porque entretanto eram presos.

Estes acontecimentos reforçaram a minha convicção de não entrar em organizações políticas controladas por partidos. Apenas continuei a apoiar aquilo em que acreditava, o que a minha consciência ditava.

Estes acontecimentos reforçaram a minha convicção de não entrar em organizações políticas controladas por partidos. Apenas continuei a apoiar aquilo em que acreditava, o que a minha consciência ditava. Não aceitava ordens de ninguém. É claro que isto acabava também por se reflectir no meu comportamento em casa, não aceitava as ordens do meu pai e da minha mãe. Era também um combate contra a tirania doméstica.Há uma história trágica relacionada com esta acção, que envolve o Francisco de Sousa, primo do Orlando Costa (com quem eu entretanto tinha casado), que andava em Medicina e era um rapaz fantástico de quem eu gostava muito. Ele vinha de um meio muito católico lá em Goa. Quando chegou cá, quebrou com a Igreja e juntou-se ao MUD Juvenil. Um ano, opus-me à iniciativa do 9 de Abril. Juntei um grupo que estava em Ciências e convenci-os de que devíamos recusar participar nessa acção. Argumentei que os resultados eram nulos e a prisão dos participantes nessa iniciativa era absurda. Disse-lhes que aquilo só era feito porque as pessoas achavam que tinham de cumprir ordens. E, da parte do PCP, de fazer mártires. Tentei convencer o Francisco a não aderir. Ele concordava comigo, mas achou que tinha de cumprir a ordem. Meteu-se num táxi e desapareceu. Não chegou a sair do carro para depositar as flores, mandou o táxi seguir. Isso provocou-lhe uma depressão profundíssima. afastou-se de todos nós e acabou por se suicidar.

Fui-me interessando cada vez mais pelos assuntos das mulheres

Entretanto, fui-me interessando cada vez mais pelos assuntos das mulheres. Desde muito miúda que prestava atenção a tudo o que era relacionado com esta temática. Apercebia-me da diferença entre homens e mulheres, que as mulheres eram impedidas de fazer determinado tipo de coisas, e eu não entendia porquê. É certo que o ter andado numa escola mista também contribuiu para essa percepção.

Na Faculdade, conheci Maria Lamas. Eu tinha então 18 anos. Ela tentou sempre lançar um movimento de mulheres, mas isso não foi possível, até porque a ditadura não o permitia. Entretanto, exilou-se em Paris. Tínhamos muitas coisas em comum, apesar da diferença de idades. Ela era uma mulher de Liberdade e muito determinada. Aderia às coisas porque acreditava nelas, e não para seguir ordens. Isso fortaleceu a minha disposição para me entusiasmar com causas e não com organizações. Maria Lamas contribuiu de uma forma muito intensa para a minha formação feminista, ainda que não estivéssemos de acordo em muitas questões: ela queria a unidade entre mulheres e homens, e eu começava a perceber que a luta das mulheres tem de ser autónoma, porque os homens nunca consideram prioritários os nossos problemas. Só em determinadas situações podemos ter uma luta comum.

Maria Lamas gostava de coisas bonitas, como eu. Por exemplo, ainda que tendo dificuldades económicas, quando tinha de comprar qualquer coisa em Paris, não ia aos armazéns, ia a uma boutique na Rue Saint Honoré. No início da sua vida, tinha sido uma grande burguesa. Casou cedo, aos dezassete anos, divorciou-se aos vinte e cinco, procurou emprego e criou três filhas, escreveu livros, fez jornalismo e impôs-se no meio cultural português. Desde muito cedo, criou-se entre nós uma empatia muito grande e ficámos amigas, tanto que nos correspondíamos quando ela estava fora do país. E ia visitá-la a Paris todos os anos.

Creio que foi através do meu primeiro marido, Orlando da Costa, pai do António, que a conheci.

“Ó Toninha, ó cara linda, não saias de noite à rua, porque a lua nunca viu cara linda como a tua”

Eu e o Orlando casámos tinha eu 20 anos, após dois anos de namoro, e só nessa altura soube que ele estava no Partido Comunista, o que foi um choque para mim. Ele era uma pessoa muitíssimo aberta, até porque vinha de outra cultura, da Índia, e, portanto, não preenchia aquele modelo do militante do PC. Casei-me pelo registo civil, que foi criado pelo Afonso Costa, um dos homens mais notáveis da República.

O Orlando tinha estado preso durante seis meses e eu não pude visitá-lo porque não era da família. Ia todos os dias a Caxias levar coisas de que ele precisava, mas só conseguia ver o seu braço. As raparigas que estavam presas em Caxias na cela por cima da sua avisavam-no de que eu estava lá. Começavam a cantar uma cantiga que era assim: “Ó Toninha, ó cara linda, não saias de noite à rua, porque a lua nunca viu cara linda como a tua”. Assim que ele saiu da prisão, disse-lhe que devíamos casar, para o poder ver em caso de nova punição. Mesmo depois da nossa separação, sempre mantivemos uma relação. O seu último Natal foi passado cá em casa, com a mulher e o filho mais novo.

A campanha de Humberto Delgado -  um movimento de esperança como não voltou a existir em Portugal

Terminada a faculdade, não queria ingressar por nenhuma das carreiras que eram destinadas às mulheres – ser secretária ou professora. Entretanto, acabei por ficar dona de casa. Era, realmente, o que o Orlando queria. Para o perceber, procurei saber muitas coisas sobre a Índia, lia tudo o que encontrava. Percebi que ele queria recriar na casa dele o ambiente da casa da Índia. Só que lá ele tinha dez criados e nós tínhamos muito pouco dinheiro e nenhuma ajuda doméstica. Recaía tudo sobre mim.

Entretanto, lia muito, recebia muitas pessoas, e ia às tertúlias literárias que existiam em Lisboa, sobretudo uma que havia no café Chiado. Continuei também a ter reuniões com a Maria Lamas, quando ela estava em Portugal, e com outras mulheres da Oposição. Estive, igualmente, envolvida em todas as campanhas pseudo-eleitorais que se fizeram durante a ditadura. Não com um papel de destaque, mas como militante convicta.

A teoria do levantamento popular, defendida pelos comunistas, era uma tolice. A história viria a dar razão ao General Humberto Delgado

Uma das personalidades que mais me entusiasmou foi o General Humberto Delgado. Concordava absolutamente com ele quando afirmava que a ditadura só podia cair com a intervenção dos militares. A teoria do levantamento popular, defendida pelos comunistas, era uma tolice. A história viria a dar razão ao General.

O General Humberto Delgado tinha o condão de fazer a ligação entre os militares e os civis. A participação na sua campanha era essencialmente popular. Quando abriu uma sede na Avenida da Liberdade, fui de imediato para lá, ainda o PCP apoiava Arlindo Vicente. A campanha foi estrondosa. Fui esperar o General quando saiu em Santa Apolónia e havia gente desde a estação até à Rua do Ouro. Foi um movimento de esperança como não voltou a existir em Portugal. No 25 de Abril foi diferente. A grande maioria da população veio para a rua, mas já sabíamos que o Regime ia cair. Nem por um segundo se pensou que aquele golpe não ia ser vitorioso.

Cobri o julgamento dos assassinos de Delgado, que durou cerca de três anos, para a ANOP, com todo o empenhamento. O desfecho foi uma vergonha.

O meu sonho era ser jornalista

1º de Maio de 1974. Maria Antónia Palla (a acenar) e Carlos Plantier (ao seu lado, de óculos). Reprodução de foto de Alfredo Cunha (imagem cedida por Maria Antónia Palla).

A partir dos 32 anos fiquei sozinha. Primeiro, separei-me do Orlando, e, mais tarde, do Vitor Palla, o meu segundo marido, por achar que o ambiente que se vivia lá em casa não era aquilo que eu queria para o meu filho. Eu tinha de tornar a vida daquela criança o mais feliz possível. O papel de musa inspiradora não me assenta.

Quando fiquei sozinha com o António, tornou-se óbvio que precisava de trabalhar. Fui secretária da direcção do Sindicato dos Arquitectos e trabalhei com muitos amigos meus, nomeadamente o arquitecto Manuel Tainha, que foi uma presença excepcional nesse período da minha vida.

Entretanto, o Jacinto Baptista, grande jornalista do Diário Popular, apresentou-me ao Dr. Francisco Balsemão, e eu comecei a colaboração de dois anos na página literária do Diário Popular. Nessa altura, uma mulher não podia entrar na redacção. Escrevia com total liberdade sobre peças de teatro, sobre livros, entrevistava escritores, actores, artistas plásticos, etc. De um modo geral, os directores das publicações onde estive aceitavam as minhas sugestões.

Ser jornalista era um sonho antigo. Quando era pequena, o meu avô foi-me apresentar ao director do jornal República. Ainda hoje sinto o cheiro da tipografia. Fiquei encantada! Desde então, sempre sonhei ser jornalista. Como os homens.

Como o género maior era a reportagem, percebi que, se queria entrar na redacção de um jornal, tinha de me destacar na reportagem. Assim, aproveitei umas férias e, com o meu dinheiro, fui um mês para o Brasil. O Luís de Lima, grande actor e encenador que vivia então no Brasil, ajudou-me, ao apresentar-me a vários intelectuais brasileiros. A reportagem que fiz chamava-se “Brasil, olha que coisa mais linda!” e teve imenso sucesso. Foi chamada de capa durante sete dias. Isso contribuiu para que participasse no concurso promovido pelo Dr. Francisco Balsemão para a redacção do Diário Popular, onde acabei por ingressar, em 1968.

Conheci o Luís de Lima quando o entrevistei para o Diário Popular

Conheci o Luís de Lima em 1968, quando o entrevistei para o Diário Popular. Ele era director-encenador do Grupo Cénico da Faculdade de Direito que apresentava, no Teatro Villaret, o espectáculo “Mestre Gil”. A peça não passou despercebida à polícia política. Apesar da distinção obtida no Festival de Nancy, Luís de Lima foi impedido de prosseguir o seu trabalho no Cénico de Direito e a PIDE expulsou-o para o Brasil.

Luís de Lima voltou a Portugal para dirigir o Teatro de Estudantes da Universidade de Coimbra (TEUC). Após estrear em Coimbra, “A Ilha dos Escravos”, de Marivaux, vem para Lisboa, mas é proibida. Mais uma vez, Luís de Lima é expulso de Portugal.

Já com Marcelo Caetano no poder, os estudantes de Coimbra voltam a convidá-lo para dirigir o TEUC. Ele estava nessa altura em Madrid, e tinha receio de voltar a Portugal porque não queria ser expulso novamente.  Acresce que o Luís, que já tinha sobrevivido a um acidente aéreo na Baía de Guanabara, tinha pavor a andar de avião, vindo para o país sempre de barco. Todas as vezes, quando o expulsavam, obrigavam-no a ir de avião para o Brasil.

Perguntei a várias pessoas, entre as quais o Luiz Francisco Rebello, se achava que o Luís de Lima podia agora entrar no país. O  Luiz Francisco Rebello respondeu logo que sim, que não haveria qualquer problema. Fui então buscá-lo a Madrid. Metemos-nos num comboio e fomos barrados na fronteira de Ficalho. Disseram-nos que o Luís não estava autorizado a entrar no país e que tinha de apanhar o próximo comboio na direcção contrária. Fiquei com ele. Permanecemos o resto do dia ali, com o passaporte e os restantes documentos do Luís apreendidos. Embarcámos num comboio de mercadorias e descemos logo na primeira estação, que era um apeadeiro no meio de nenhures, onde ficámos à espera do Lusitânia Expresso, para regressar a Madrid.

O Luís foi para Barcelona, onde ainda deu um curso de teatro e, posteriormente, seguiu de barco para o Brasil. A embarcação ainda parou em Lisboa, mas o Luís não chegou a sair do camarote, simulando ter partido uma perna. Ele tinha deixado uma arca em Coimbra e eu fui com um amigo dele buscá-la. Consegui arranjar quem a transportasse até ao barco. No caminho, a arca começou a verter um líquido. Viemos a saber que alguém lhe tinha oferecido uma garrafa de azeite, ou algo do género, que ele decidiu guardar ali. Chegámos a pensar que poderiam supor ser um cadáver...

A passagem pelo Diário Popular

Como já tinha referido, entrei na redacção do Diário Popular em 1968, quando o Dr. Francisco Balsemão abriu um concurso, o primeiro a realizar-se na imprensa portuguesa, a que concorreram vinte rapazes e três mulheres. As mulheres entraram todas. Durante um mês, corremos todas as secções do jornal.

Nunca abandonei o tema das mulheres. Aliás, a minha forma de contribuir para a luta das mulheres passou também pelo jornalismo

Três meses após entrar para a redacção, recebi um prémio por publicar uma reportagem sobre as mulheres de alcoólicos. Nunca abandonei o tema das mulheres. Aliás, a minha forma de contribuir para a luta das mulheres passou também pelo jornalismo. A secção do Diário Popular pediu-me, por exemplo, para fazer uma peça sobre o drama das mulheres casadas com os jogadores da terceira divisão.

Entretanto, fui despedida do Diário Popular por ter feito uma reportagem sobre o “Maio de 68” em Paris, sem autorização formal. Tive oportunidade de fazer uma entrevista a um dirigente da União dos Estudantes que ia no dia seguinte para a tropa. Avancei, sem pedir permissão, porque era uma oportunidade única, e não podia avisar ninguém, já que não existiam telemóveis na altura.

A série de entrevistas que realizei nesse âmbito deram origem ao livro "Revolução Meu Amor", que foi apreendido pela polícia política. Reuni testemunhos de Jacques Sauvageot, Françoise Giroud, Jacques Brel, Jean Luc Godard, Siné, Robert Toussaint, Alain Tourraine, António José Saraiva e Maria Lamas.

Quando regressei a Portugal, Francisco Balsemão ainda tentou que eu entrasse no Diário de Lisboa, mas eles já lá tinham a Antónia de Sousa e não queriam mais conversas com mulheres. Entretanto, um grande amigo, meu colega no Liceu Francês, e que era um dos administradores d'O Século, conseguiu que, ao fim de seis meses sem emprego, entrasse para O Século Ilustrado.

N'O Século Ilustrado fui extraordinariamente feliz

Na revista O Século Ilustrado fui extraordinariamente feliz. Entrei como redactora, fui chefe de reportagem, subchefe e chefe de redacção ainda antes do 25 de Abril. Depois zanguei-me e passei para a Vida Mundial, dirigida pelo Augusto Abelaira. Também ajudei a reestruturar a revista Modas e Bordados, que tinha sido dirigida pela Maria Lamas. Após o 25 de Abril, voltei para O Século Ilustrado.

N' O Século Ilustrado, corri Portugal durante onze anos, até aos sítios mais recônditos. E tive uma colaboração fantástica com os fotógrafos Eduardo Gageiro, Fernando Baião e Alfredo Cunha. Sempre gostei muito de juntar texto e imagem. As fotografias deles eram maravilhosas e o Gageiro apoiava-me muito logisticamente. Lembro-me de uma das reportagens sobre as cheias do Ribatejo. Ele tinha arranjado o barco que nos transportou. Desembarquei na estrada e estava a falar com umas senhoras. Ele entretanto já tinha feito as suas fotos. A água foi subindo e, quando acabei a entrevista, o Gageiro estendeu-me umas botas de borracha e já tinha encomendado o almoço, para comermos antes de fazermos a travessia de volta.

Trabalhar com o Alfredo Cunha foi extraordinário, porque ele era muito jovem. Ensinei-lhe algumas coisas e daí ficou um amizade enorme, fui uma espécie de segunda mãe dele.

N' O Século Ilustrado davam-me o tempo todo de que necessitava para ir até onde achava que era necessário ir. E o espaço todo que queria na revista. Cheguei a fazer reportagens com 70 linguados, e às vezes saíam em dois números. Tinha, de facto, uma posição privilegiada, permitiam-me ir atrás dos assuntos que me interessavam. Creio que a liberdade que conquistei n' O Século também passava pelo facto de ajudar a vender a publicação...

Em 1972/3, fiz uma grande reportagem sobre o Carnaval do Brasil que foi um enorme sucesso. Fizemos a cobertura do Carnaval desde o morro até aos bailes chiques de Copacabana. Tentámos captar o sentimento daquelas pessoas que desciam do morro para a cidade, perceber o sentido daquela festa. Era uma reportagem com um pendor sociológico. Eu entrava muito por esse caminho. Conseguimos vender cerca de 250 mil exemplares.

Os Bijagós - um laboratório onde se podia estudar o colonialismo

Em 1973, o etnólogo Victor Bandeira falou-me sobre os Bijagós, e sobre a sua hipotética sociedade matriarcal. Pensei imediatamente: “Tenho de ir aos Bijagós”.

Depois de 68, um tema que se discutia muito era a questão da felicidade, e se a felicidade tinha a ver com o consumo, com a possibilidade de aquisição de coisas. Como os Bijagós tinham uma cultura muito primitiva e muito pobre, fui ter com o proprietário d' O Século e disse-lhe que queria ir aos Bijagós. Ele perguntou-me o que é que eu queria ir lá fazer. “Olhe, vou à procura da felicidade”, respondi-lhe. Ele olhou para mim, não tendo percebido nada, e aconselhou-me a “ter cuidado com os tubarões”. O Século era isto. Davam-nos muito pouco dinheiro, pagavam-nos mal, mas faziam de nós uns reis. Não nos podiam tratar melhor. Davam-nos uma liberdade que eu não encontrei em mais parte nenhuma. E tinham um enorme respeito pelo nosso trabalho.

Em menos de um mês, organizámos uma expedição aos Bijagós na qual participei eu, o Gageiro, o Victor Bandeira, a mulher dele e uma filha, com cerca de 18 anos.

Para mim, aquilo era um laboratório onde se podia estudar o colonialismo, e o ISEU teve consciência disso. Depois da publicação da reportagem, ameaçaram fechar O Século Ilustrado durante seis meses.

Quem nos recebeu na Guiné foi o então Capitão Otelo Saraiva de Carvalho. Na reportagem que escrevi agradeci todo o apoio que nos deu. Otelo mandou-nos aos Bijagós num avião da tropa e pôs um barco à nossa disposição. Percebendo que o que me angustiava era saber que ia estar em duas ilhas que nem sequer tinham rádio, e não teria notícias do meu filho, o Otelo Saraiva de Carvalho sugeriu que a minha correspondência fosse enviada para Bissau ao seu cuidado, arranjando posteriormente um avião para a atirar lá de cima. Quando se aproximou a Páscoa, mandou um avião para nos ir buscar, por forma a podermos estar com as nossas famílias.

A censura deixou passar a reportagem dos Bijagós, mas o Instituto Superior de Estudos Ultramarinos (ISEU) percebeu as minhas intenções: Havia aquela doutrina do Salazar “Portugal uno e indivisível do Minho a Timor” e eu queria demonstrar que não era assim, e que não precisava de ir a Timor para prová-lo.

No princípio do século XX, a comunidade dos Bigajós tinha 50 mil habitantes. Ali não tinha havido guerra, nem nenhuma catástrofe natural, mas, naquela altura, já estava reduzida a 12 mil pessoas. Não existia médico, apenas um enfermeiro. Quando visitávamos uma aldeia, a primeira coisa que nos pediam eram aspirinas, porque era o único medicamento que conheciam. Julgavam que era possível curar tudo com aspirinas. Era dramático.

Para mim, aquilo era um laboratório onde se podia estudar o colonialismo, e o ISEU teve consciência disso. Depois da publicação da reportagem, ameaçaram fechar O Século Ilustrado durante seis meses. Falaram com o proprietário d'O Século, que lhes respondeu que “se a senhora escreveu, é porque é verdade”. Acabou por convencê-los, não sei como, a não fechar a publicação. E eu continuei a escolher os meus temas.

O 25 de Abril - Agora que temos a Liberdade, o que vamos fazer com ela?

Recebi a notícia do golpe logo pela manhã. Uma gráfica d'O Século Ilustrado telefonou-me para casa a avisar que existia uma revolução. Arranjei rapidamente o meu filho e fui deixá-lo a casa de uma amiga minha, que morava no Príncipe Real. Fui imediatamente para O Século Ilustrado e segui para a rua com um colega, o Carlos Plantier. Ligávamos várias vezes para a redacção a dar as informações que íamos recolhendo. Estava tudo num turbilhão. Corríamos de um lado para o outro atrás de informações. Mas, como toda a gente, nunca duvidámos que o movimento sairia vitorioso. E assim aconteceu!

Corríamos de um lado para o outro atrás de informações. Mas, como toda a gente, nunca duvidámos que o movimento sairia vitorioso. E assim aconteceu!

Assisti ao assalto à PIDE, estive no Largo do Carmo onde o Governo se rendeu, assisti também à libertação dos presos políticos em Caxias, onde reencontrei o Capitão Otelo Saraiva de Carvalho. Quando cheguei à redacção, disse: “Vocês sabem quem é que manda nisto tudo? É o nosso Capitão!”.

Naquele momento existia um conflito, em que alguns achavam que os presos que estavam em Caxias por crimes de sangue, um deles o Palma Inácio, não deviam ser libertados. Mas os presos uniram-se e disseram que ou saíam todos ou não saía ninguém. Foram todos libertados.

Foram uns dias que não se podem esquecer. Mas, quando fiz o relato dos acontecimentos, escrevi uma frase que me ficou na memória: “Agora que temos a Liberdade, o que vamos fazer com ela?”.

O fim d'O Século

Costumo dizer que sou uma viúva d'O Século. Quando aquelas luzes, que via à noite de minha casa, se apagaram, chorei perdidamente. Nunca mais estive num sítio onde tivesse tanta liberdade e onde me sentisse tão bem.

Só saí d'O Século em 1976, aquando do seu encerramento. Para mim, fechar O Século foi uma das maiores injustiças que o Governo do Partido Socialista cometeu. A par do fecho da Caixa de Previdência dos Jornalistas, à qual presidi entre 1996 e 2008.

Quando se deu o 25 de Abril, O Século já estava mal, com 500 trabalhadores, e o Partido Comunista conseguiu lá meter mais 300. Com 800 pior ficou. E depois tomaram conta da redacção. O Século, que era o jornal de maior expansão em Portugal, teve uma mudança drástica. Deixou de ser vendido, os seus carros eram apedrejados, os jornais queimados...

Foi instituída uma comissão de censura numa empresa onde os jornalistas tinham sido sempre livres. A nova orientação traiu os leitores. Isso passou-se sobretudo no jornal, mais do que nas revistas. Com a ajuda do Copcon, em meados de Outubro de 74, metade dos trabalhadores foram expulsos. Só voltámos após o 25 de Novembro de 1975.

O Século estava, de facto, numa situação ruinosa, mas que era reversível. No entanto, o PS achou que aquela empresa não era dominável, e evocou razões económicas para fechar O Século. Fui eleita pelas redacções dos semanários para todas as Comissões de Reestruturação e sabia que existiam saídas. Mas houve interesses poderosos e a empresa foi encerrada.

Foi uma situação muito dramática para os trabalhadores, que ficaram sem ordenado e sem indemnização. A Maria de Lourdes Pintasilgo tornou, mais tarde, os trabalhadores credores principais, e só já com o Sá Carneiro foram pagas indemnizações. Alguns trabalhadores suicidaram-se durante este processo.

O Sindicato dos Jornalistas

Quando saí d'O Século Ilustrado 'abanquei' no Sindicato dos Jornalistas, ajudando a recolocar as pessoas que tinham ficado no desemprego. Achei que, como dirigente sindical, devia ser a última.

A actividade era muito intensa. Fizemos muitos protestos, comícios, vigílias... Naquela altura era o deslumbre, encontrávamos tempo para fazer tudo.

Maria de Lourdes Pintasilgo chamou-nos “As três Antónias”. Como as “Três Marias”, assumimos o feminismo.

Após ter liderado, em 1977/78, o Conselho Técnico do Sindicato dos Jornalistas, fui a primeira mulher a ser eleita para vice-presidente, em 1979. Cáceres Monteiro presidia à estrutura sindical e Cesário Borga e Rui Osório eram os outros dois vice-presidentes. A condição fora esta: as mulheres só aceitavam participar na lista em lugares de chefia. E foi assim que, além de mim, Antónia de Sousa assumiu a presidência da Assembleia Geral e Maria Antónia Fiadeiro a presidência do Conselho Técnico e Deontológico. Maria de Lourdes Pintasilgo chamou-nos “As três Antónias”. Como as “Três Marias”, assumimos o feminismo.

Ao cabo de dez anos, acabei por me demitir do sindicato, porque havia uma luta fundamental a travar: criar uma comissão que aglomerasse as mulheres que quisessem, impulsionar o movimento para a legalização do aborto. Eu achava que essa causa era suficientemente importante e que eu já não teria tempo para me multiplicar em frentes de luta.

A reportagem “O aborto não é um crime” levou-me ao banco dos réus

Entre 1974 e 1976, eu e a Antónia de Sousa fizemos, para a RTP, um programa quinzenal, o “Nome Mulher”, com a equipa do Fernando Matos Silva e do João Matos Silva. O projecto passava por inventariar e debater os problemas das mulheres e registar as acções mais representativas das suas lutas no período revolucionário. Umas vezes, abordávamos um caso concreto, outras, um caso temático. Falávamos sobre coisas que nunca se tinham discutido antes: divórcio, mães solteiras, união de facto, etc. Fizemos 46 reportagens, de 50 minutos. A primeira estreou-se em Agosto de 1974, e foi dedicada à Maria Lamas.

Maria Antónia Palla durante o julgamento no Tribunal da Boa Hora, Lisboa, 16 de Maio de 1979. Foto de Alfredo Cunha, Lusa.

No âmbito desse programa, fizemos ainda a reportagem “O aborto não é um crime”. O meu actual marido, Manuel Pedroso Marques, que era presidente da RTP, face aos protestos que o programa causou, suspendeu o “Nome Mulher”. Essa reportagem, emitida a 4 de Fevereiro de 1976, levou-me, inclusive, ao banco dos réus, acusada de ofensa ao pudor e incitamento ao crime, após a direcção da Maternidade Alfredo da Costa ter feito queixa, alegando "exercício ilegal da medicina". Acabei por ser absolvida, e continuei a bater-me, ao longo de toda a minha vida, por esta causa.

Não é agradável ser julgada. E, eventualmente, condenada a prisão. Mas o meu processo acabou por gerar um grande movimento de solidariedade, impulsionando a luta pela legalização do aborto e contribuindo para a formação de várias plataformas e associações de mulheres que, em Abril de 1979, se juntaram na Campanha Nacional para a Contracepção e Aborto (CNAC).

Fizeram-se coisas extraordinárias. A 8 de Março de 1977, o nosso grupo entregou uma petição de 5 mil assinaturas na Assembleia da República (AR) a exigir a legalização do aborto. Dois anos mais tarde, em Julho de 1979, lançámos o abaixo-assinado "Nós abortámos", que foi entregue na AR com mais de 2000 mil assinaturas.

Maria Antónia Palla, Directora do jornal de campanha do movimento "Sim" pela despenalização do Aborto, durante a conferência de imprensa realizada em Lisboa, 1998. Foto de Andre Kosters, Lusa. 

A Comissão de Mulheres pela Legalização do Aborto em Defesa da Maternidade Responsável, na qual eu estava incluída, ao lado de Isabel Barreno, Teresa Horta, e outras, produziu, numa só noite, um dossier com legislação de vários países e opiniões de várias personalidades: advogados, juristas, músicos, biólogos, psiquiatras, pediatras, etc.

Em 1982, a legalização do aborto foi discutida na discussão na Assembleia da República. Intervieram Zita Seabra, então pelo PCP, Teresa Ambrósio pelo PS e Natália Correia pelo PSD. O CDS e o PSD votaram contra. Apenas Natália Correia se levantou e votou a favor da lei e Pedro Pinto, que era nosso apoiante, saiu da sala, recusando-se a votar.

A legalização parcial da interrupção voluntária da gravidez só ocorreria em 1984, mas a lei era muito limitada, só prevendo a despenalização do aborto por razões médicas ou em caso de violação ou malformação do feto. Não era tudo, mas representava dez anos de luta!

A nossa luta continuou. Em 1985, tornei-me presidente da Liga dos Direitos das Mulheres. Só em 2007 se veio a tornar possível o aborto por opção da mulher.

Outra causa a que me dediquei no pós-25 de Abril foi a da luta pela democracia em Angola, através do apoio dado à oposição angolana. Com amigas e amigos de várias orientações políticas, fundámos o Fórum Português para a Paz e Democracia em Angola.

Em 2013, fundei, com outras mulheres, a Biblioteca Especializada Ana de Castro Osório, a funcionar na Biblioteca Municipal de Belém. É a segunda Biblioteca Feminista da Europa, e a única em Portugal, existente num espaço público. Constituída integralmente por doações, organiza todos os meses um debate sobre a problemática das mulheres, numa perspectiva feminista. 


* Maria Antónia Assis dos Santos Palla e Carmo - Nasceu em casa dos avós paternos, no Seixal, a 10 de Janeiro de 1933. Aos quatro anos foi viver com os pais para perto de Sintra.
Frequentou o Liceu Francês, em Lisboa. Licenciou-se em Ciências Histórico-Filosóficas pela Faculdade de Letras de Lisboa.
Iniciou a sua carreira de jornalista no Diário Popular, em 1968. Três meses depois de entrar na redacção deste jornal, ganhou um prémio por publicar uma reportagem sobre as mulheres dos alcoólicos. Esteve 11 anos n'O Século, a maior parte dos quais n'O Século Ilustrado.Entrou como redactora, foi chefe de reportagem, subchefe e chefe de redacção ainda antes do 25 de Abril. Passou ainda pela Vida Mundial e ajudou a reestruturar a revista Modas e Bordados. Passou ainda pela Agência Noticiosa Portuguesa - ANOP e pela Capital. Foi cronista do Diário de Notícias, grande repórter da RTP e chefe de redacção da revista Máxima.
Entre 1974 e 1976, fez para a RTP, juntamente com Antónia de Sousa, um programa quinzenal, o “Nome Mulher”, que contou com 46 reportagens, de 50 minutos. A primeira estreou-se em Agosto de 1974, e foi dedicada à Maria Lamas. A reportagem “O aborto não é um crime” levou-a ao banco dos réus, acusada de ofensa ao pudor e incitamento ao crime, após a direcção da Maternidade Alfredo da Costa ter feito queixa, alegando "exercício ilegal da medicina". Foi absolvida e continuou a bater-se, ao longo da sua vida, por esta causa.
Trabalhou no Sindicato dos Jornalista. Foi a primeira mulher vice-presidente do Sindicato, membro eleito do Conselho de Imprensa.
Foi presidente da Caixa de Previdência e Abono de Família dos Jornalistas.
Foi presidente da Liga dos Direitos das Mulheres, associação feminista formada em 1985.
Foi dirigente do Fórum Português para a Paz e Democracia em Angola.
É uma das fundadoras da Biblioteca Feminista Ana de Castro Osório, núcleo especializado da biblioteca municipal de Belém.
É autora de vários artigos e de livros, um deles apreendido pela polícia política da ditadura salazarista: "Revolução Meu Amor" (1969), sobre os acontecimentos do Maio de 1968; Só Acontece aos Outros – crónicas de violência (Ed. Bertrand, 1979; A Condição Feminina (Ed. Imprensa Nacional, 1989).
Publicou “Viver pela Liberdade”, um livro de memórias, em co-autoria com Patrícia Reis.
A 25 de Abril de 2005, foi agraciada pelo Presidente Jorge Sampaio com a Ordem da Liberdade.

 

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