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Mulheres de Abril: Testemunho de Manuela Góis (Manu)

Havia muitas ligações entre o movimento estudantil e outros movimentos que queriam o fim do fascismo e a independência das colónias. Daí que houvesse tantas prisões de estudantes, vigorosamente denunciadas pela imprensa estudantil. Por Manuela Góis (Manu).
Manuela Góis, 1974.

 

Este testemunho foi recolhido no âmbito do projeto Mulheres de Abril, iniciado em 2018, e que compila relatos, na primeira pessoa, de mulheres antifascistas sobre a sua história de resistência e de luta contra a ditadura. Coordenação de Mariana Carneiro.


Até que a madrugada esperada nos libertou…

Nasci em 1951 numa família republicana e antifascista, apercebendo-me desde cedo das enormes desigualdades sociais que me rodeavam e da ausência de liberdades democráticas.

Na adolescência, quando me encontrava nos últimos anos do liceu (ente 1967 e 1969), participei no MAESL (Movimento Associativo do Ensino Secundário de Lisboa). Este movimento semilegal integrava estudantes dos últimos anos do Ensino Secundário que lutavam pela legalização das associações de estudantes deste grau de ensino. Reuníamo-nos nas faculdades para mobilizar colegas para as lutas. O jornal do MAESL intitulado Intervalo e os comunicados eram impressos nas associações de estudantes das faculdades e eram distribuídos por nós nas respectivas escolas (na altura liceus).

Nessa altura Portugal vivia uma efervescência social, acentuada após a farsa eleitoral de 1969, em que o movimento operário e o movimento estudantil eram protagonistas. Foi neste clima social que eu entrei para Económicas (actualmente ISEG), no ano lectivo de 1969-70. Aí iniciei um período de experiências políticas inesquecíveis! Havia um clima de agitação com muitas Reuniões Gerais de Alunos (RGAs) que extravasavam os meros processos pedagógicos devido à crescente politização das lutas estudantis que contestavam o carácter classista do ensino e denunciavam o fascismo e o colonialismo. Realizavam-se cursos livres e distribuía-se um boletim intitulado Contra a Fábrica. Pretendia-se com estas actividades que os/as estudantes tivessem acesso a publicações que não se encontravam nas livrarias devido à censura e se politizassem. Nesses cursos livres uma das ideias fundamentais era que não nos transformássemos em “dóceis lacaios do capital”. Também criticávamos as burocracias e o capitalismo de Estado dos países do leste da Europa e da União Soviética. A autoimolação de Jan Palach com 20 anos, em Praga, em janeiro de 1969, contra os tanques do Pacto de Varsóvia que invadiam a Checoslováquia, teve repercussões no movimento estudantil e marcou-me muito. Foi um acontecimento que me ensinou a importância das lutas pelos ideais e que me mostrou que as pessoas podem morrer pelas causas, mas estas alimentam-se das lutas abnegadas e persistem fortalecidas.

Em outubro de 1972, era assassinado em Económicas à queima-roupa o colega de Direito Ribeiro Santos durante uma reunião entre associações de estudantes. Foi mais um crime bárbaro do regime com vestes de “Primavera marcelista”. O assassinato de Ribeiro Santos teve um forte impacto na sociedade portuguesa. O seu funeral, a que acorreu muita gente, transformou-se numa grande manifestação contra o fascismo e o colonialismo, apesar da repressão policial. Senti uma revolta ainda maior contra esse regime. Lembro-me perfeitamente do carregamento da polícia de choque que retirou a urna dos ombros dos amigos e camaradas de Ribeiro Santos e de, já no cemitério, termos cantado a Internacional perante os esbirros do regime.


Manuela Góis na Marcha LGBT, Lisboa.

Em 1969-70 havia uma grande politização do movimento estudantil e de muitos grupos que colheram as influências do pacifismo norte-americano contra a guerra do Vietnam, do maio de 68, das lutas estudantis nos outros países ocidentais, de Che Guevara e da revolução cubana, e da Revolução Cultural chinesa. Lembro-me de ter participado em várias manifestações como, por exemplo, quando se partiram as montras do Centro Cultural Americano contra o imperialismo dos EUA, e de em pequenos grupos se distribuírem nos quartéis exemplares da “Carta da FRELIMO ao soldado português”.

Foi neste contexto que soubemos da vigília de católicos progressistas na Capela do Rato, iniciada a 30 de dezembro de 1972 e interrompida pela polícia de choque no dia seguinte pela tarde. Embora sendo ateia, integrei-me com colegas nesta acção de luta contra a guerra colonial. Foram detidas pela PSP cerca de noventa pessoas, entre as quais eu. Posteriormente, fui interrogada na Prisão de Caxias.

Havia muitas ligações entre o movimento estudantil e outros movimentos que queriam o fim do fascismo e a independência das colónias. Daí que houvesse tantas prisões de estudantes, vigorosamente denunciadas pela imprensa estudantil. As mulheres intervinham cada vez mais nas reuniões, assembleias e manifestações, sendo igualmente alvo da repressão.

 

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Em novembro de 1973, foi distribuído nas faculdades um boletim intitulado “Apoiemos os estudantes presos”, assinado por “Um grupo de Estudantes” que denunciava as prisões. Dos/as quinze estudantes que se encontravam na prisão, oito eram mulheres o que mostra o protagonismo das mulheres nestas lutas. Embora ainda não se falasse em questões de género, algumas de nós falávamos em feminismos, mas éramos muito poucas. Defendíamos o amor livre, o direito a dispormos do nosso corpo e das nossas vidas, a fazer o que quiséssemos e muito bem entendêssemos. Comprávamos a pílula em algumas farmácias “amigas”, pois esta só podia ser vendida com receita médica. O aborto estava proibido e para conseguirmos abortar as condições eram de grande secretismo e muito duras, como foi o meu caso e de algumas colegas e amigas.

Até que a madrugada esperada nos libertou…

Esta é a madrugada que eu esperava

O dia inicial inteiro e limpo

Onde emergimos da noite e do silêncio

E livres habitamos a substância do tempo

(Sophia de Mello Breyner Andresen, “25 de Abril” in O Nome das Coisas)


*Manuela Góis (feminista e professora aposentada)

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