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Mulheres de Abril: Testemunho de Jorgete Teixeira

O medo era uma constante, sabíamos dos riscos, sabíamos dos métodos utilizados pela PIDE para obter informações, sabíamos que quem denunciasse os camaradas era banido e desprezado. Acho que era esse o meu maior medo, não ser capaz de resistir. Por Jorgete Teixeira.
Jorgete Teixeira aos 22 anos, na Cantina da Cidade Universitária, em Lisboa.

Este é o vigésimo quinto testemunho da série "Mulheres de Abril". São relatos, na primeira pessoa, de mulheres antifascistas sobre a sua história de resistência e de luta contra a ditadura.

À medida que os testemunhos forem publicados, poderá consultar toda a série em: Mulheres de Abril. Coordenação de Mariana Carneiro.


O despertar

Antes de ir para a Universidade não tinha grande consciência política. Oriunda de uma família de pequenos camponeses, estaria votada a uma vida pacata na aldeia, fazendo o duplo trabalho que sempre se exigia às mulheres, de cuidar da casa, do marido e dos filhos e granjear as terras, se não fosse a decisão do meu pai de ingressar na carreira militar e libertar-se da vida campesina, dura e sem horizontes.

Nasci assim em Angola, numa das comissões para onde foi enviado e onde vivi, intermitentemente, em várias cidades, ao ritmo dos desígnios militares. A África é um continente cuja marca nos fica para sempre, intensidade, imensidão, exuberância, liberdade. Mas eram também visíveis, ainda que aos olhos de uma criança, as diferenças entre brancos e negros, os colonos e os seus privilégios, a violência com que eram tratados os cipaios no quartel, as lavadeiras, mulheres para todos o serviço incluindo o sexual, a forma como os angolanos de raiz eram olhados como se fossem seres humanos de segunda.

Jorgete Teixeira e a sua mãe na Huíla, Angola.

O meu pai, sendo militar, acatando as normas do regime, nunca deixou de tomar algumas posições de crítica e até de intervenção em algumas situações concretas. Entendia também que o saber e a cultura eram essenciais para a nossa formação. Por isso, a leitura sempre teve lugar privilegiado na nossa casa e, como nesse tempo não havia TV nem outras distracções, lembro-me das centenas de obras que eu levantava na Biblioteca itinerante da Gulbenkian em Vila Real e me levou a outros mundos descritos pelos grandes clássicos, Hemingway, Victor Hugo, Tolstoy, Thomas Man, Jorge Amado e tantos outros.

Depois de sair de Angola pela última vez, aos 12 anos, com grande mágoa minha e dos meus irmãos, fui para Vila Real estudar. As primeiras reflexões sociais e políticas surgiram, ainda de uma forma incipiente, no 6º e 7º anos do Liceu, muito pela influência de um jovem professor de Filosofia e História, a lembrar muito o professor José Afonso, que fez despoletar em nós algumas interrogações e nos divulgou umas publicações da JEC sobre alguns temas que punham em causa o estado em que vivíamos, a falta de liberdade e justiça social, a guerra colonial…

Estes alertas, juntamente com as inquietações próprias da adolescência, começavam a fazer caminho no sentido da minha progressiva consciencialização. É claro que este professor não tinha lugar numa escola retrógrada e repressora em que havia divisão de sexos, com aulas e entradas feitas em separado e onde as raparigas eram impedidas de usar calças, isto apesar do rigoroso inverno, e cujas saias eram medidas para não ultrapassarem os X centímetros considerados decentes. Foi afastado do Liceu e mais tarde expulso do ensino.

Lisboa cidade de todas as utopias

Quando cheguei a Lisboa, em 1969, foi como se uma chapada de luz intensa de repente me atingisse. Um mundo novo despontava e estava ali inteiro e liberto para mim.

Para quem tinha passado os anos da adolescência em Vila Real, cidade fechada e conservadora, sob a alçada de um pai que seguia o rigor e contenção que se exigia na educação de uma menina, a capital apresentava-se como uma porta aberta a todas as liberdades e insurreições.

No ano lectivo de 1969/70, ingressei na Faculdade de Direito de Lisboa e de imediato dei conta de que aquele espaço nada tinha a ver comigo. Era uma faculdade tremendamente elitista, frequentada pelos filhos da fina flor da sociedade de então, advogados conhecidos, políticos do regime, que chegavam em carros com motorista privado. Tudo isto se reflectia nas indumentárias, nos interesses, na forma como eram abordados pelos professores e até nos lugares que ocupavam nos anfiteatros. Ainda assim, encontrei um nicho de conforto em alguns amigos que, como eu, provinham de classes mais “populares”, digamos assim: as minhas amigas alentejanas, Aurora Rodrigues, Isaura Deodato e Isabel Brites e também a Fany Lopes e colegas vindos das ex colónias.

Naquele tempo, nas Universidades, tanto em Lisboa como em Coimbra, a luta estudantil estava em efervescência com greves e manifestações. As canções do Zeca e Adriano acompanhavam as concentrações e os comícios, “Canta camarada, canta” “Não há machado que corte a raiz ao pensamento, porque é livre como o vento, porque é livre”, e tinham uma força impulsionadora de revolta.

Jorgete Teixeira com 20 anos.

Depressa me ambientei a este meio em permanente desassossego, onde havia sempre algum ponto de interesse. O teatro era um desses pontos que sempre me seduziu, talvez por um legado genético do meu pai, actor e encenador amador na aldeia transmontana onde nasceu. Entrei para o Grupo Cénico de Direito, na altura sob a direcção do argentino Adolfo Gutkin que posteriormente viria a ser expulso do país pela PIDE e com ele participei em Melim 4, uma criação colectiva, onde o meu amigo Melim Teixeira era actor principal. Com esta peça e Volpone, esta premiada pela crítica, o grupo apresentou-se no Festival Internacional de San Sebastian, em 1970. Nessa altura, a guerra colonial era uma sombra ameaçadora pairando sobre as cabeças dos jovens rapazes, que se viam obrigados a entrar numa luta que sabiam injusta e da qual ou voltavam estropiados ou numa “caixa de pinho”. Uma das formas de escapar a esse destino era “dar o salto”. A viagem para Espanha foi feita de autocarro. Era mais ou menos sabido, embora não fosse francamente verbalizado, que alguns dos que seguiam de viagem no autocarro se aproveitariam da passagem da fronteira, em conjunto, para chegarem a França. E foi o que aconteceu. Na viagem de volta a Portugal, vinham menos alguns.

As Associações de Estudantes eram organismos vivos de extrema importância na luta contra a repressão e o fascismo, organizando toda a espécie de iniciativas desde as greves até aos comícios, meetings, manifs, RGAs . Havia vários grupos em confronto e as lutas eram renhidas, muitas vezes até chegando a vias de facto. Em Direito, a disputa da liderança para a Associação de Estudantes fazia-se essencialmente entre os do PCP e do MRPP. As razões pelas quais optamos por uns ou outros são muitas vezes mais fruto das circunstâncias ou dos laços afectivos do que racionais. O grupo do MRPP era mais activo e ousado (o PCP movia-se mais na clandestinidade) e foi dele que me aproximei, ou eles de mim, já não sei, integrando uma das listas à AE. Nessa altura nomes conhecidos de todos integravam o movimento associativo: Ribeiro Santos, José Lamego, Garcia Pereira, Galamba, Paisana, Maria José Morgado, Saldanha Sanches, recém libertado da prisão, João Soares e tantos outros…

Os palcos onde os estudantes actuavam eram muitos, desde os recintos das próprias faculdades abrangendo todo o perímetro envolvente, as cantinas, associações, cafés e, enfim, as ruas. A alameda da Universidade de Lisboa, as escadarias da Reitoria, da Faculdade de Letras e de Direito foram várias vezes ocupadas com reuniões e protestos. Lembro-me de uma, em especial, pela dimensão que teve, com milhares de estudantes concentrados e espalhados pelas escadarias e relva e onde as forças da ordem carregaram com extrema violência, a pé e a cavalo e desataram a dispersar à cacetada todos os que ali se encontravam e mesmo os que estavam apenas à espera de autocarro ou que passavam pelo local. Dispersámos, cada um procurando fugir por qualquer lado e eu corri para a rua do Colégio Moderno cuja carrinha ia levar as crianças e onde prontamente me abriram a porta e me puseram a salvo.

Um dos lugares mais emblemáticos e marcados pela repressão foi a Cantina da Cidade Universitária, hoje chamada de Cantina Velha.

Ponto de encontro e de encontros, vários, era lá que nos reuníamos para fazer comícios mais ou menos espontâneos, com grandes oradores, lembro o José Fanha e a suas palavras inconfundíveis e outros.

Lá fizemos muitos levantamentos de rancho e até acolhíamos os “putos” dos bairros pobres a quem, primeiro introduzimos no refeitório e quando isso foi proibido, passávamos pratos de comida, pão e sobremesas através das janelas.

Várias vezes a Cantina foi invadida pela polícia, as marcas das balas nas paredes são o indício da extrema violência dessas intervenções, algumas até causando mortes. Uma delas foi em Janeiro de 1971 quando os estudantes de Direito aí se refugiam depois de uma carga policial a um plenário na faculdade.

Entretanto fui abordada pelo MRPP para integrar a organização clandestina. Entrei numa célula do partido pela mão do Ribeiro Santos. Lembro-me de fazermos umas pichagens à noite ali para os lados do Jardim Zoológico, sempre atentos a quem passava, fingindo ser um par no namoro, não fosse algum pide dar connosco.

O medo era uma constante, sabíamos dos riscos, sabíamos dos métodos utilizados pela PIDE para obter informações, sabíamos que quem denunciasse os camaradas era banido e desprezado. Acho que era esse o meu maior medo, não ser capaz de resistir.

Entretanto eu tinha começado a namorar com o pai dos meus filhos, o Mário Durval, estudante de Medicina e fomos viver para uma casa em São Domingos de Benfica. Claro que isto foi um choque para os meus pais, que, embora nunca me tivessem fechado a porta, acharam que, dada a nossa intransigência face à legalização da situação pelo casamento, devia assumir a minha independência. Fiquei então entregue a mim própria e à pensão que o exército português continuava a dar-me enquanto estudasse.

Jorgete Teixeira com o seu pai e Mário Durval, em Lisboa.

Nessa casa viviam além de nós, mais dois estudantes de Medicina: o Júlio Pêgo, hoje psiquiatra e o Manuel Coelho, médico, mais tarde autarca em Sines. Um dia, regressando nós de férias, quando metemos a chave à porta, deparou-se-nos do outro lado a presença de duas criaturas que logo identificamos como agentes da PIDE. Jamais me esquecerei da sensação, um misto de medo e raiva pela intimidade devassada. Tinham revistado todos os quartos, virado tudo, gavetas de roupa, estantes, livros, papéis de toda a ordem. Achamos estranho que não tivessem implicado com os panfletos contra a guerra colonial, percebemos depois que tinham ido à procura do Manuel Coelho, que entretanto tinha fugido. Provocadores e cínicos como eram apenas nos disseram, apontando para um quadro que o meu companheiro tinha pintado e que retratava a Catarina Eufémia de bandeira vermelha na mão, despida e grávida (não o estava na realidade) no meio da seara:

“Para a próxima, este não escapa!”

O poder da palavra escrita: a Livrelco

A formação política fazia-se não só pelos debates e pela discussão e confronto de ideias, mas também através da leitura. Os livros proibidos circulavam apesar do lápis azul da censura e das apreensões constantes da PIDE. As teses de Marx, Engels e Lenine, Trotsky, para outros, eram lidas e debatidas como textos sagrados, a estes se juntavam outros, Rosa do Luxemburgo, Mao Tse Tung…

A Livrelco era uma cooperativa livreira universitária onde os sócios podiam adquirir os livros com desconto. A livraria ficava num primeiro andar de uma rua em Entre- Campos. Em 1970/71, era liderada por gente mais ligada ao MRPP. Visitada frequentemente pela PIDE que vasculhava estantes à procura de títulos comprometedores, era um veículo de introdução de obras vindas do estrangeiro, políticas mas não só, romances de autores malditos, poesia, artes, cartazes, etc.

Com o recrudescimento da luta, as greves, os meetings, os boicotes, a repressão abate-se sobre os estudantes tentando cercear-lhes a liberdade: suspensões colectivas, fecho de Associações, cargas policiais. É neste contexto que a Livrelco é encerrada, em inícios de 1972. No dia em que a polícia chegou para fazer cumprir a ordem da PIDE, estávamos, eu, a Aurora Rodrigues e o Mário Durval, na cooperativa. Quando a polícia chegou ainda nos insurgimos contra o fecho e tentámos resistir, mas sem êxito, naturalmente. A porta foi encerrada e selada. Anteriormente, sabendo da iminência do fecho, já tínhamos retirado alguns livros e discos, não tenho bem a certeza se não voltamos lá a buscar mais, e esses exemplares continuaram a ser vendidos, por nós, em bancas, nas diferentes Faculdades.

A morte de Ribeiro Santos

O Ribeiro Santos era um camarada muito activo, amável e bem disposto. Lembro-me dele a cantarolar enquanto a velha impressora da Associação de Estudantes de Medicina vomitava comunicados contra a guerra colonial. Quem, como eu, viveu esse tempo de luta, de escuridão e de medo deve lembrar-se do ruído característico, dos papéis impressos a stencil, das mãos borradas de tinta. Íamos para Medicina porque a Associação de Estudantes de Direito tinha sido encerrada. Num dia de manhã, quando para lá nos dirigimos, no piso inferior, a porta estava emparedada. Tinham-no feito pela calada da noite.

No dia em que o assassinaram, não segui o meu companheiro ao meeting em Económicas, como era habitual. Havia muitos encontros estudantis ou RGAs e nós saltávamos de um sítio para o outro. Fiquei em casa e lembro-me de ter feito, um pudim de morango. Nunca o chegámos a comer.

Quando ele chegou, contou-me o que se tinha passado e que o Ribeiro Santos tinha sido ferido gravemente. Fiquei, como é evidente, em suspenso. As comunicações eram difíceis e só quando chegamos à Cantina da Cidade Universitária é que soubemos que ele afinal tinha falecido.

A morte do Ribeiro Santos atingiu com extrema violência o mundo estudantil, causando tumulto e revolta. Mesmo nos meios não académicos, a consternação era visível

A morte do Ribeiro Santos atingiu com extrema violência o mundo estudantil, causando tumulto e revolta. Mesmo nos meios não académicos, a consternação era visível. No dia do funeral uma massa enorme de estudantes de todas as Universidades, de todos os quadrantes políticos, e outros anti fascistas encheu a rua onde ele vivia, o largo de Santos e as outras que nele confluíam.

Quando o carro funerário saiu, alguns camaradas, amigos e familiares queriam levar a urna em ombros e fazer o cortejo a pé para o cemitério. A polícia de choque que estava em força no local não o permitiu.

Carregaram sobre nós. Nessa altura estava com 2 meses de gravidez da minha filha mais velha. Nada que conseguisse conter a minha fúria.

Na primeira linha, levei umas bordoadas. Que nem senti verdadeiramente. Virei-me para o polícia e gritei: “Seu estúpido, não vê que estou grávida?” Claro que o polícia nada descortinava da minha invisível gravidez. O certo é que parou.

Não desmobilizamos e manifestámo-nos ferozmente contra a ditadura, gritando: assassinos, assassinos, prosseguindo o caminho até ao cemitério da Ajuda e daí para a cidade em ruidosos protestos.

Passados alguns dias saiu, apaziguadas as diferenças políticas, um comunicado aprovado na RIA (reunião inter associações) afirmando a firme disposição de vingar a morte de Ribeiro Santos.

Os gorilas

Devido à crescente onda de contestação estudantil, o poder tenta a todo o custo controlar os estudantes nos estabelecimentos de ensino superior. Em 1972, chegam à faculdade de Direito os primeiros gorilas, assim denominados pelo seu porte atlético e bruto. Recrutados nos Comandos, Fuzileiros e outras tropas de elite, policiam os espaços académicos e impõem as regras. Esta entrada teve o repúdio geral dos alunos e de alguns professores até mesmo de conservadores, que viam assim posta em causa a sua autoridade. A contestação não esmoreceu por isso, antes pelo contrário, apesar das suspensões e prisões.

Jorgete Teixeira, grávida, com Manuela Gois e colegas.

Eu estava na altura já com uns 7 meses de gravidez. Tinha decidido acalmar um pouco e voltar às aulas. O meu primeiro embate com os gorilas podia ter tido uma consequência mais grave, porque num dia em que houve mais agitação eles carregaram contra os alunos e houve uma perseguição pelos corredores. De pasta na mão e menos ágil por causa do meu estado, caí de barriga para baixo o que me levou a ir fazer uma ecografia para ver se o bebé (não sabia se era menino ou menina) não tinha sido afectado. Nessa altura não se faziam estes exames que hoje são quase obrigatórios. Felizmente estava tudo bem.

A suspensão da Faculdade

Os boicotes às aulas eram diários, especialmente ao catedrático Soares Martinez, que além de fascista era mau professor, limitando-se a ler a Sebenta na aula.

Foi numa dessas alturas que os alunos à porta do anfiteatro se juntaram para boicotar a sua aula.

Quase todos os membros da Associação de Estudantes tinham sido suspensos e eu tinha escapado talvez porque, estando em estado avançado de gravidez, tivesse abrandado a participação nas lutas. Foi quando Soares Martinez se virou para mim e para o João Soares que estava ao meu lado, e nos intimou:

“O senhor e a senhora identifiquem-se!”

Não o fizemos e mantivemo-nos no mesmo lugar.

No dia seguinte, desloquei-me à Faculdade para assistir a uma aula de Ribeiro e Castro e um gorila irrompe pela sala dentro, dirige-se a mim e diz que eu tenho de sair porque tinha sido suspensa.

Ribeiro e Castro tomou uma atitude que não esqueci. Firmemente, dirigiu-se ao gorila e disse: “A senhora veio para assistir à aula e assim será, quando esta terminar, eu próprio a vou acompanhar à saída”. E assim aconteceu.

Foi-me instaurado um processo disciplinar e fui suspensa por 60 dias que foram prolongados por mais 30.

Foi o pretexto final para desistir do curso de Direito.

A prisão

Apesar da repressão nunca deixamos de resistir nem o medo nos tolheu os braços. Éramos uma geração aguerrida e idealista, correndo atrás da utopia de fazer do nosso país uma terra livre de opressão, justa e igualitária. No fundo, é aquilo que ainda nos move, mas nesse tempo, tínhamos a arrogância de que tínhamos nas nossas mãos o poder de mudar o mundo.

Éramos uma geração aguerrida e idealista, correndo atrás da utopia de fazer do nosso país uma terra livre de opressão, justa e igualitária.

Muitas vezes éramos temerários e inconscientes. Foi o que aconteceu naquela tarde de Março quando um grupo resolveu ir distribuir comunicados para o Hospital Curry Cabral. Éramos 6 ou 7, entramos por um dos portões e fomos de enfermaria em enfermaria, fazer a distribuição. Quando chegámos à saída, esperava-nos a PSP. Um agente em visita a um familiar tinha dado o alarme. Queriam que nos identificássemos, mas alguns de nós não tinham levado identificação. Gerou-se uma certa confusão e a nossa preocupação foi a de proteger uma camarada que sabíamos ser da FRELIMO e não podia ser presa de modo nenhum, porque o regime era impiedoso para com os apoiantes dos movimentos de libertação das colónias. Ela conseguiu escapar, alguns identificaram-se e ficaram libertos e eu, o Mário Durval e o João Gens, fomos levados para a esquadra mais próxima e daí para o Governo Civil.

Pediram-nos os dados de identidade para preenchimento de papelada e depois deixaram-nos ali várias horas, sentados no corredor.

Sabíamos que o Governo Civil era muitas vezes a ante câmara da PIDE , mas mantivemo-nos calmos com esperança de que nos libertassem, mas desconfortáveis e receosos, eu, com a agravante de estar no fim da gravidez.

Naquelas alturas tudo passa pela nossa cabeça e começamos a rever o que nos tinha sido transmitido sobre a atitude a tomar caso fossemos para a PIDE.

Lembro-me de sentir frio e de me embrulhar numa toalha. Tínhamos ido à praia e, por isso, a roupa que vestíamos era leve e os corredores frios. Por nós passavam polícias fardados e à paisana e fartavam-se de mandar bocas, ao mesmo tempo que olhavam para a minha barriga com ar de reprovação e desdém: “Quando forem para o outro lado é que vai ser…”

Felizmente, o pai do João Gens era uma figura conhecida e intercedeu por nós. Fomos libertados perto da meia-noite e conduzidos a casa por ele.

O 25º dia do mês de Abril de 1974

Era para ser um dia como os outros. Mas tinha sido gerado nessa noite e noutras antes dela, entre a revolta e o medo, entre o amor à liberdade e a coragem. E uma madrugada clara, prenhe de braços, vozes e passos, tinha nascido sem eu dar conta. Apanhou-me de surpresa naquela sala de um 6º andar de uma rua do Lumiar, em Lisboa.

Ocupação de um espaço no Lumiar para uma creche.

Era para ser um dia igual aos demais, com as suas rotinas, as suas dores, as suas angústias, as suas asas e o seu medo. O medo, definido na gramática como substantivo comum, masculino do singular era, naqueles tempos, um nome concreto, sem género, plural e comum a todos. Físico como uma pedra nos rins. O medo que não impedia que pela calada da noite pichássemos as paredes com palavras de ordem contra a guerra colonial, ou desafiássemos as forças repressivas em manifestações e protestos vários.

Porém, esse dia 25, do mês de Abril, não iria ser um dia normal, embora só tivesse dado conta disso quando saí para levar a Inês, a minha filha mais velha, à creche, situada um pouco mais à frente do quartel da EPAM, na Alameda das Linhas de Torres. A creche estava fechada e não havia ninguém para dar explicações. No supermercado da rua notei um movimento pouco habitual para aquela hora, as pessoas entravam e saíam mudas, carregadas de sacos e de olhos baixos.

A rádio que liguei, mal cheguei a casa, transmitia música clássica e a ausência da voz do locutor era marcadamente estranha, até que na TV o Fialho Gouveia lê o comunicado do Movimento das Forças Armadas. O coração entrou em alvoroço e já não mais se acomodou.

Depois chegou-nos o som da marcha militar e o comunicado repetido ao longo do dia mandando-nos ficar em casa.

Fiquei, de início. Estava grávida de 7 meses, pela segunda vez e tinha uma outra menina que iria completar um ano três dias depois.

Colada às notícias e para me libertar da ansiedade, comecei a fazer um saco de ganga, daqueles que a moda hippie ditava, inteiramente feito à mão, com umas aplicações de pano formando uma flor e debruado a vermelho, num ponto cruzado. Não me lembro de muito naquele dia, mas não me esqueço do saco a tiracolo que usei até se rasgar.

Pouco sabíamos dos passos e dos segredos dos bravos militares que aquela noite e outras antes dela tinham acolhido.

Cautelosa, esperei em casa presa de esperança e de esperanças, até que não consegui aguentar mais.

Fui até à baixa, passei pelo Rossio, a abarrotar de pessoas, vozes, punhos, cravos, carros de combate e um sol esplendoroso nos olhos de todos.

Espectáculo de apresentação do núcleo da AJA Barreiro Moita.

Subi o Chiado, onde ondas de gente em rebuliço se deslocava em correntes ora num sentido, ora no contrário, enquanto se ouviam tiros para os lados da António Maria Cardoso. Só ao fim do dia soube que tinha havido mortes.

Incomodava-me um pouco a barriga túrgida, mas não conseguia ficar longe das ruas que ferviam de risos e de esperança. Tínhamos passado tanto tempo na escuridão que a luz extrema nos incomodava os olhos e não sabíamos o que fazer às palavras e aos braços. Éramos como pássaros a sair do ninho, entontecidos ensaiávamos voos sempre com medo de que nos estatelássemos no chão, ou que garras mortais nos aprisionassem.

Nunca mais nenhum dia teve assim uma luz tão clara.


 


*Maria Jorgete Ribeiro de Sá Teixeira, 67 anos, nasceu na Huíla, Angola.
Frequentou o Liceu Nacional de Vila Real e mais tarde a Faculdade de Direito de Lisboa, cujo curso não concluiu.
Participou activamente nas lutas estudantis.
Licenciou-se em Línguas e Literaturas Modernas, na variante de Estudos Portugueses, pela Universidade Clássica de Lisboa.
Iniciou a carreira como docente em Aljustrel.
Continuou a sua actividade profissional no Barreiro, cidade onde reside há 30 anos.
Desempenhou vários cargos inerentes à docência e foi Presidente do Conselho Geral do Agrupamento.
Actualmente está aposentada.
A luta pelos direitos das mulheres foi uma das suas prioridades. Foi sócia fundadora da UMAR.
Foi activista sindical, delegada sindical, dirigente local/distrital do SPGL.
Faz parte da Coordenadora concelhia do Barreiro e da Mesa Nacional do Bloco de Esquerda.
Pertence à direcção da Associação José Afonso e faz parte do núcleo do Barreiro Moita, desta Associação.
Além da participação em algumas antologias, publicou: O coração é puta sempre à espera.
Prepara-se para publicar um novo livro de contos inspirados em canções de José Afonso.

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