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Mulheres de Abril: Testemunho de Isabel do Carmo

O meu primeiro confronto político foi com o padre que dava aulas de moral no Liceu de Setúbal e que, tinha eu dez anos, me disse “a menina é comunista”. Por Isabel do Carmo.
Isabel do Carmo numa manifestação da FUR em 1975. Foto publicada no site memoriando.net

 

Este testemunho foi recolhido no âmbito do projeto Mulheres de Abril, iniciado em 2018, e que compila relatos, na primeira pessoa, de mulheres antifascistas sobre a sua história de resistência e de luta contra a ditadura. Coordenação de Mariana Carneiro.


Dum país pobre para um país com esperança

Nasci no Barreiro nos anos 40 do século XX. Este país era pobre e atrasado. Foram os anos de guerra e do racionamento, mas também foram os anos da descoberta dos antibióticos e do impulso da melhoria das condições sanitárias e da vida em geral, que se seguiram à guerra nos outros países da Europa, excepto Portugal, Espanha e Grécia, que ficaram esquecidos pelos Aliados. O nosso país manteve-se sob a ditadura, com miséria e pobreza. Morriam no parto muitas mães e recém-nascidos, havia infecções intestinais na infância, infecções respiratórias e tuberculose nos adultos, numa altura, à beira dos anos 50, em que o tratamento já existia.

No Barreiro havia uma escala naquilo a que podemos chamar proletariado, em que os vários extractos não eram confundíveis. Os mais pobres eram aqueles que ainda viviam no trabalho do rio, fossem pescadores, fossem descarregadores. Seguiam-se os trabalhadores da cortiça. Vinham depois os ferroviários, com salários baixos quando trabalhavam na linha ou nas oficinas, mas com alguma segurança comparados com os anteriores. Os maquinistas e revisores ficavam no topo dos trabalhadores do Caminho-de-Ferro. Depois vinham os trabalhadores da Cuf, que por sua vez tinham várias escalas. No entanto, na Cuf havia os “balões” ou seja os despedimentos colectivos promovidos pelo patrão dos patrões, o Alfredo da Silva. A seguir à guerra houve esperança de mudança, mas quando entrámos nos anos 50 estabeleceram-se os anos cinzentos. Só havia a memória: da Escola de Esperanto, onde o meu pai tinha sido professor e que fora fechada, da bandeira vermelha que tinha sido içada na chaminé dum bairro dos trabalhadores do Caminho-de-Ferro, das greves da Cuf e dos ferroviários, dos militantes que tinham estado nas Brigadas Internacionais na Guerra de Espanha, dos que tinham estado no Tarrafal, dos que regressavam. Os velhos e os desempregados da cortiça pediam esmola na rua, nas casas havia pobreza escondida ou miséria. Os “remediados” como nós contavam os tostões e a questão das despesas era muito falada no interior das famílias. Poucas eram as que sentiam segurança, embora estivesse garantida a reforma para os trabalhadores da Cuf e dos Caminhos-de-Ferro efectivos. Os outros eram deixados à sorte e à caridade. Tinha-se que pagar os médicos e os remédios e só isso era factor de angústia dentro das famílias.

Neste ambiente era quase natural e sem mérito ser contra o Estado Novo e os ricos. No entanto, no Barreiro e no distrito de Setúbal em geral havia outro factor de repressão e revolta – o papel da Igreja Católica no apoio e na fusão com o regime. E foi assim que o meu primeiro confronto político foi com o padre que dava aulas de moral no Liceu de Setúbal e que, tinha eu dez anos, me disse “a menina é comunista”. Esta premonição do padre, que era nazi, proporcionou-me uma luta de cinco anos contra tal personagem, com regozijo da turma, que tinha muita gente filha de famílias de esquerda, mas que não ousavam afrontar a criatura.

Quando vim para o Liceu Maria Amália fui completamente esmagada por aquele ambiente, mas mais uma vez ousei afrontar a professora de moral e ainda distribui uns panfletos do MUD. Aos 17 anos entrei para a Faculdade de Medicina, rapidamente integrei a Comissão Pró-Associação (a Associação tinha sido fechada Pela PIDE), que foi uma verdadeira escola de democracia de base e de convívio com alunos mais velhos (o curso tinha 7 anos) que me abriram as portas do conhecimento político e da experiência de reuniões. E foi assim que logo nesse ano escolar, em 1958, integrei a campanha presidencial, primeiro do Arlindo Vicente e depois do Humberto Delgado e tive o privilégio de participar na grande manifestação deste último que veio de Santa Apolónia até à Avenida da Liberdade. Aos dezoito anos entrei para o Partido Comunista (PCP), integrei a célula de Medicina e passei para a direcção clandestina do PCP na Cidade Universitária.


Isabel do Carmo é médica Especialista em Endocrinologia, Diabetes e Nutrição

Espalhávamos as ideias comunistas, recrutávamos, distribuíamos o Avante e panfletos. Em Março/Abril de 1962 falei na assembleia do estádio universitário, numa altura em que havia um clima social que inibia o papel activo das mulheres, apesar de estarem muitas e valiosas no movimento dos estudantes nas Faculdades. Cinquenta e cinco anos depois ainda nos reunimos cerca de 150 só de Lisboa daquela luta! Foi um marco importante, numa altura em que começara a guerra colonial e a Oposição levantava a cabeça. Em 1969 estive na comissão política da Comissão Democrática Eleitoral (CDE) de Lisboa. Saí do PCP em 1970, por dissidência – posição anti-estalinista e proposta da luta armada, prometida, mas nunca cumprida. Depois disso fundei as Brigadas Revolucionárias com o Carlos Antunes. Fui presa em 1970 e depois em 1972, na sequência da morte do Ribeiro Santos. Passei à clandestinidade em 1973 e recebi a notícia do movimento revolucionário do 25 de Abril de 1974 com muita alegria. 


*Isabel do Carmo - Médica Especialista em Endocrinologia, Diabetes e Nutrição. Fundadora da Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade. Fundadora da Sociedade Científica Núcleo de Doenças do Comportamento Alimentar. Professora da Faculdade de Medicina de Lisboa.

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