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Mulheres de Abril: Testemunho de Irene Rodrigues

Foi na Livrelco que iniciámos a nossa formação política, foi aí que adquirimos uma maior abertura e reforçámos a nossa consciência da necessidade de existir uma sociedade mais justa. Por Irene Rodrigues.
Irene Rodrigues, anos 70.

 

Este testemunho foi recolhido no âmbito do projeto Mulheres de Abril, iniciado em 2018, e que compila relatos, na primeira pessoa, de mulheres antifascistas sobre a sua história de resistência e de luta contra a ditadura. Coordenação de Mariana Carneiro.


Os livros e a censura antes do 25 de Abril

Os primeiros contactos com situações em que me apercebi de que algo de estranho acontecia com trabalhadores/as, tiveram lugar no Montijo, terra onde nasci em 1946.

O Montijo era então uma vila operária industrial e comercial, e de pescadores, em que a cortiça e a suinicultura tinham o seu grande monopólio nas fábricas existentes da Mundet e do Izidoro, que empregavam dezenas e dezenas de homens e mulheres.

Na zona onde morava tinha como vizinhos pescadores e outras pessoas que trabalhavam nessas fábricas. Lembro-me de ouvir conversas em casa e entre a vizinhança, sempre ditas em sussurro, e em datas diferenciadas, que o vizinho Manuel tinha sido preso e levado durante a noite; o «tio» Zé também; parece que  a D. Maria lhe entraram pela casa adentro e também foi presa. Recordo-me de mais tarde começar a ouvir outras conversas em que diziam que essas pessoas eram presas e levadas pela calada da noite por serem comunistas, que o governo de Salazar mandava prender e maltratar essas pessoas, e que elas pertenciam a um partido que lutava pelos operários, mas que era tudo muito clandestino.

Essas prisões eram executadas pela GNR. Havia um terrível cabo dessa polícia que era o pavor da vila. Só muito mais tarde ouviria falar da tenebrosa PIDE.

A moral patriarcal dominante

A vila onde nasci era muito conservadora, muito machista e amante da festa brava, tradição essa que sempre detestei. Estudei na Escola Industrial e Comercial do Montijo, que era uma escola mista, mas onde os rapazes e as raparigas, devido à moral retrógrada e aos «bons costumes» que ditavam as leis, não podiam conviver nem falar com os seus colegas no recreio, tinham de estar separadas incluindo no espaço ao redor da escola, até uma área de 100 metros. Se por acaso desobedecêssemos e fossemos vistas por algum professor, isso poderia dar origem a um processo disciplinar.

Senti uma grande revolta perante tal comportamento, por parte dos responsáveis da escola, mas… nesses tempos sombrios, a moral patriarcal dominante era assim.

Ficou-me na memória, quando andava nessa escola, por volta dos meus 15 anos, o caso de uma colega que apareceu grávida, o que provocou um grande escândalo. Marcou-me muito a forma como a expulsaram. Ela foi viver com o namorado, mas expulsaram-na na mesma, porque essa jovem teve a ousadia de aparecer grávida na escola. Senti uma grande revolta perante tal comportamento, por parte dos responsáveis da escola, mas… nesses tempos sombrios, a moral patriarcal dominante era assim.

Entretanto, vim para Lisboa para estudar. Passados alguns anos, tive necessidade de arranjar um emprego e, tendo conhecimento que a Livrelco, na altura desconhecida para mim, necessitava de uma trabalhadora, respondi ao convite. Fui aceite e comecei a minha actividade nessa cooperativa livreira, em Maio de 1967, iniciando assim a minha aprendizagem nessa área.

O meu gosto pelos livros começou no Montijo com as bibliotecas itinerantes da Gulbenkian. Requisitava os livros quando a carrinha da biblioteca ia lá uma vez por semana. Depois de lidos, ia entregá-los e requisitava outros. Estas bibliotecas foram muito importantes para o meu gosto pelos livros e pela leitura. Tenho presente que havia muita miudagem a requisitar livros a estas bibliotecas, isto há mais de cinquenta e tal anos…

A Livrelco, uma cooperativa de estudantes ao serviço da cultura

[No que respeita à experiência na Livrelco, este texto envolve as memórias partilhadas de Irene Rodrigues e Cândida Ferreira, primeiras trabalhadoras da Livrelco-cooperativa de universitários]

Nos tempos da ditadura do Estado Novo, a censura existente exercia uma grande repressão sobre qualquer forma de escrita que considerasse inconveniente ao regime de Salazar e Caetano. São esses tempos vividos em livrarias exemplos de resistência ao regime fascista que agora se transcrevem. A Livrelco-cooperativa livreira de universitários, e também a livraria Opinião, tiveram um papel muito importante como espaço alternativo e, de esquerda, da intelectualidade portuguesa na luta contra o regime censor e opressor.

A Livrelco - cooperativa Livreira de universitários foi criada em 1962 por um grupo de alunos do Instituto Superior de Agronomia, apoiados pelo professor Henrique de Barros. Era uma cooperativa de estudantes, ao serviço da cultura, e a sede encontrava-se na rua Barbosa do Bocage.

Nos anos 67 e 68 são desenvolvidas várias acções pelos corpos gerentes e sócios próximos da Cooperativa, para que, além da actividade que já desenvolvia, de imprimir e editar teses e outras brochuras para os estudantes, deixasse de ser um espaço que até aí não tinha stock (só eram encomendados os livros requisitados pelos sócios), para passar a  ser uma livraria com stock permanente.

A campanha das lagartinhas

O ano de 1967 foi uma época de renovação para a  Livrelco. No final do ano surgiu a primeira campanha para angariar novos sócios e a criação de um corpo de colaboradores. Inicia-se uma grande campanha, elaborada sobretudo por alunos de arquitectura, a que chamámos a campanha das lagartinhas. Distribuímos 5000 lagartas em papel com o logo da cooperativa, 10.000 desdobráveis e propostas de sócios. Os slogans utilizados eram incisivos, provocadores e cheios de cores:  «Não vá à bruxa, vá à Livrelco», «Contra os ultra do lucro», «Contra a anti-cultura com violência».

Esta campanha foi um momento de tomada de consciência política e de grande importância na vida de algumas empregadas e empregados da Livrelco. O facto de termos percorrido as ruas de Lisboa, nos tractores postos à nossa disposição pelo Instituto Superior de Agronomia, com a propaganda que distribuímos na cidade universitária, no I.S. de Agronomia e noutros sítios da cidade, deu-nos uma grande força. Lisboa cheia de Sol e um tractor a percorrê-la carregado de lagartinhas e de jovens que sonhavam com um Portugal melhor. Era fabuloso e de grande mobilização para nós.


Irene Rodrigues e Cândida Ferreira, Livrelco, 1971.

O objectivo da campanha era o de atingirmos os 1000 sócios, mas ultrapassámos os objectivos pretendidos, angariámos muitos mais e, em Maio de 68, éramos uma cooperativa de 2600 associados/as. Os descontos de 15% e 20% nos livros eram muito atraentes para os/as estudantes consumidores/as de livros.

A entrada de novos sócios/as obriga a mudanças na organização, recrutamento de mais empregadas/os e novas instalações, dado que o aumento do stock de livros se concretizava, dando lugar a uma livraria que necessitava de um espaço maior. A Livrelco muda de instalações para dois andares na Rua José Carlos dos Santos/Entrecampos.

Foram tempos em que a cooperativa ampliou bastante a livraria. Fizeram-se viagens ao exterior, a França e Inglaterra para fazer contactos com algumas editoras, afim de consolidar o nosso stock de livros estrangeiros. François Maspero e La Joie de Lire eram interlocutoras privilegiadas, dado as obras que editavam e que eram necessárias para divulgar ideias e práticas sociais e politicas, europeias e internacionais.

Livrelco lugar de formação política

Os corredores da Livrelco fervilham de palavras e murmúrios que falavam de forma muito viva do que se passava em França. O entusiasmo atravessava os corredores da cooperativa e chegava aos nossos ouvidos. O «Maio 68» era comentado, sonhado na cooperativa, ainda que não compreendêssemos muito bem os «jogos políticos» deste acontecimento, o que se dizia era demasiado excitante para despertar a nossa atenção. Foi assim que fomos tomando conhecimento do que estava a acontecer com a revolta estudantil e a luta dos operários, naquela cidade distante, notícias essas que a censura com o seu lápis azul pouco deixava que a comunicação social informasse, ou deixava, mas segundo os interesses dos censores da ditadura.

As muitas actividades desenvolvidas deram azo a encontros literários e culturais cujo valor e influência foram importantíssimos, (tertúlias literárias, debates apaixonantes sobre obras, movimentos culturais, etc.,) que abriam caminho para uma sociedade mais justa livre e democrática. Recordamos a participação da Natália Correia e do Ary dos Santos que animaram alguns desses encontros.

As primeiras eleições consideradas como «livres» foram uma espécie de «mise en scéne» para enganar o país e o estrangeiro que a hora era de «abertura». A repressão que se abateu contra aqueles que se implicaram na campanha mostrou bem a finalidade das ditas eleições livres. A Livrelco como lugar de encontro e de cruzamento de ideias sociais e políticas exercia um fascínio e um poder reais sobre a juventude que encontrava aí um lugar onde era possível ler, analisar e discutir a situação política, ouvir música de Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Luís Cilia, etc., e sonhar com um futuro democrático.

Era o tempo de uma certa proximidade com a revista  «O Tempo e o Modo», era o tempo da difusão dos «Cadernos da Prática» de Mao Tse Tung, era um tempo onde se via aparecer na cooperativa cartazes como: «A pequena burguesia é um tigre de papel»; «Abaixo a guerra colonial»; «Guerra do povo à guerra colonial» e outros do mesmo género.

A censura e as «visitas surpresa» da PIDE/DGS

A Livrelco teve um papel muito importante na aquisição e divulgação de livros proibidos pelo regime salazarista/marcelista, tanto nacionais como estrangeiros. A lista era extensa e englobava livros desde o ensaio ao romance, da teoria política, de economia marxista, de denúncia da guerra colonial. Tudo o que tivesse a palavra África no título entrava na lista, já que a versão oficial da guerra não podia ser contrariada.

A Livrelco conseguia fazer entrar no nosso país muitas dessas edições estrangeiras. Fazê-las passar pela fronteira era sempre motivo de grandes preocupações. Dentro dos pacotes com os livros autorizados vinham os «camuflados», os outros que estavam na lista dos censurados. Quando o despachante da alfândega não dava por «eles» lá chegavam à cooperativa para serem divulgadas obras de: Lenine, Marx, Engels, Mao-Tse-Tung; Che Guevara, Staline, Fidel de Castro, Rosa Luxemburgo, Trotsky, Sartre, Simone de Beauvoir, Simone Weill, Bakunine, Franz Fanon, Wilhem Reich, Gorki, Bataille, etc., etc., etc..

Mas quanto dava, era um problema e era tudo apreendido.

Das edições em língua portuguesa lembramo-nos de autores como: Soeiro Pereira Gomes, Alves Redol, Aquilino Ribeiro, Manuel Alegre, Jorge Amado, Cardoso Pires, Luis Stau Monteiro, José Régio, Orlando Costa, Luandino Vieira, etc., etc.. Mas os temas-tabu eram muitos: tudo o que tivesse a ver com sexo, fosse ele de poesia, científicos, ou outros, era censurado. Foram proibidas e retiradas do mercado obras como: a Antologia da Poesia Erótica e Satírica, de Natália Correia, Novas Cartas Portuguesas, de Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa (tendo estas autoras sido sujeitas a processo judicial), O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir, e tantas e tantas outras… Até os posters do Che Guevara, que tínhamos nas nossas salas de trabalho, eram sempre retirados e levados. Voltámos a pedir mais ao estrangeiro e quando chegavam eram colocados precisamente nos mesmos sítios.

Quando vinham os agentes do regime traziam sempre uma longa lista com a indicação dos títulos considerados perigosos, subversivos e contra a moral e os bons costumes. Chegavam, punham-se a mirar os livros expostos nas mesas e a farejar nas prateleiras e em tudo o que considerassem suspeito. Mas havia sempre uns esconderijos (falsas estantes, debaixo das cadeiras de trabalho, armários secretos, etc..) onde rapidamente conseguíamos esconder alguns dos títulos procurados. Tínhamos sempre vários esconderijos que nunca foram descobertos pelos pides.

Alguns dos pides que iam à Livrelco eram muito ignorantes. Citamos um desses momentos, em que apareceram por lá, foram direitos à secção técnica e tiraram todos os exemplares do livro intitulado Manual do Betão Armado, das edições Mir de Moscovo, indicado nos cursos de engenharia. Não constava da lista, mas com as palavras «Armado e Moscovo», era perigoso e tinham medo de que aqueles esquerdistas os utilizassem em acções de guerrilha, ou qualquer coisa assim!!! E lá foram os livros técnicos levados para a António Maria Cardoso e deixados os autos de apreensão.

Também um dia estiveram perante uma obra de Lenine, que a editora tinha colocado como autor o nome de Vladimir Illitch Ulianov. Como este nome não lhes dizia nada, e ainda bem, o livro foi deixado no mesmo sítio.

As visitas da PIDE foram múltiplas ao longo da vida da Livrelco. Os corpos gerentes estavam habituados a isso e as trabalhadoras também. Mas os momentos das «visitas» eram sempre vividos com uma certa tensão e muita revolta por mais uma «visita indesejável». Os corpos gerentes eram frequentemente chamados à António Maria Cardoso para serem interrogados sobre as práticas da cooperativa e a politica de escolha dos livros….etc., etc..

Viviam-se tempos de grande agitação política estudantil e de grande denúncia da ditadura fascista, da repressão policial, da guerra colonial, etc.. A Livrelco era uma cooperativa de estudantes de grande importância politica nesta época marcelista. Recordamos os impressos de denúncia da guerra colonial que passávamos ao stencil na Associação de Estudantes da Faculdade de Medicina e depois distribuíamos «às escondidas» pelas caixas de correio.

A mobilização contra o Decreto 520/71

A Livrelco era uma cooperativa de âmbito cultural que, como outras associações, teve um papel muito importante na divulgação e agitação política nessa altura. Por isso, o governo de Marcelo Caetano e a PIDE estavam dispostos a acabar com as cooperativas culturais sem fins lucrativos. Assim sendo, o governo publicou o Decreto 520/71, que constituiu um ataque frontal para tentarem eliminar as cooperativas que exerciam actividade que não fosse exclusivamente económica, e que eram uma arma de luta cultural contra o regime vigente. Este Decreto determinava que todas as cooperativas tinham de submeter os seus estatutos, no prazo estipulado, à aprovação da autoridade competente. No caso de os estatutos não serem aprovados, as cooperativas seriam encerradas. Criou-se um grande movimento de luta e mobilização que durou meses. Havia cooperativas que hesitavam entre entregar, ou não, os estatutos, sendo que a Livrelco liderou desde o início esta contestação e a não entrega dos estatutos.

A direcção da Livrelco de 70/71 enfrentou como outras momentos difíceis, mas desta vez o governo de Marcelo Caetano estava disposto a acabar com as cooperativas culturais… Houve uma mobilização enorme, de norte a sul do país, mobilização de corpos gerentes e empregadas/os, viagens às cooperativas do Porto (UNICOOPE), viagens a cooperativas de Alverca, cooperativas da margem sul (Barreiro, Seixal, etc..) LIVROP, DEVIR, CED; ÁRVORE, etc.. Reuniões na Faculdade de Medicina, reuniões no I.S. Técnico, com um grande apoio do Dr. Mariano Roque Laia, que nos acompanhava na maior parte destas viagens. Um momento histórico de combate às leis opressivas de Marcelo Caetano. A luta permitiu-nos afirmar a nossa vontade de combater e lutar para que as cooperativas continuassem a existir.

Ao «serviço da cultura» acessível a todos/as

A Cooperativa Livrelco, corpos gerentes, e empregadas/os desempenharam um papel muito importante na difusão de obras nacionais e estrangeiras proibidas pelo Estado fascista. Assim, formaram-se e divulgaram ideias contidas em livros de uma importância capital para a juventude de então não esquecer, evidentemente, as quase 3300 obras proibidas pela CENSURA durante os regimes de Salazar e Caetano. Foi um país sujeito a leis que proibiam a liberdade de expressão.

Aprendemos através das diferentes instâncias, corpos gerentes, assembleias gerais, conselhos de administração, conselho de empregadas/os, o caminho da democracia e a necessidade de continuarmos ao «serviço da cultura» acessível a todos/as.

O encerramento definitivo da cooperativa em Fevereiro de 1972

Aquando do seu fim, a Livrelco tinha para mais de 6.000 sócios/as. Foi a sua última luta e de outras cooperativas culturais em Portugal, contra a violência feita ao movimento cooperativista português. Em Fevereiro de 1972, a Livrelco é encerrada definitivamente pela PIDE/DGS. O nosso trabalho estava selado, em nome do dito decreto. Tinha sido silenciada a Livrelco. Também em 1972, Ribeiro dos Santos, amigo e sócio da Livrelco, morre assassinado pela PIDE, na Faculdade de Economia.

Foi na Livrelco que iniciámos a nossa formação política, foi aí que adquirimos uma maior abertura e reforçámos a nossa consciência da necessidade de existir uma sociedade mais justa.


Irene Rodrigues e Cândida Ferreira, 25 de Abril de 2017.

Livraria Opinião

Em 1973, retomo a minha actividade livreira e começo a trabalhar na livraria Opinião, que abriu em finais de 1972, composta por alguns elementos vindos da livraria Divulgação.

Foi uma livraria original, situada na Rua Nova da Trindade, em frente ao jornal República, num prédio de quatro andares onde funcionava a livraria, a venda de discos e galeria de arte, e um pequeno bar.

Até 1974 foi ponto de encontro de jornalistas, escritores, gentes das artes, cantores de intervenção, etc.. Nessa época, a maior parte dos jornais (Diário Lisboa, Diário Popular, A Capital, O Século, A Bola, O Record, etc.,) tinham as suas instalações no Bairro Alto, perto da Opinião. O Conservatório também estava próximo. Era também um espaço onde se podiam encontrar as publicações proibidas, desde livros nacionais e estrangeiros; de jornais e revistas a discos. Ao fim da tarde, a Opinião era ponto de encontro onde se discutiam ideias culturais, políticas, e não só.


Irene Rodrigues, Opinião, anos 70.

A livraria Opinião também «sofreu» com a censura da polícia política existente até ao 25 de Abril de 74. Várias foram as visitas indesejáveis da odiosa PIDE, portadora da longa lista, com a indicação dos títulos considerados subversivos e imorais, para levarem os livros e discos proibidos. Mas não nos intimidavam. Continuávamos a encomendar e a divulgar muitas das publicações proibidas pelo estado fascista. Daí o existir na Opinião o disco «Cantigas do Maio», de José Afonso, que, no dia 24 de Abril de 1974, foi levado pelo Carlos Albino, na altura jornalista do  jornal República, e que nessa madrugada passaria na Rádio Renascença como senha para a saída das tropas revoltosas que fizeram o 25 de Abril.


Irene Rodrigues, 25 anos do 25 de abril, 1999. Foto de Maria Olívia Mendes (recortada).

Esse dia memorável que libertou Portugal da ditadura e deu lugar à Revolução dos Cravos, em que o povo saiu à rua e gritou bem alto «fascismo nunca mais» e «morte à pide e a quem a apoiar».

O 25 de Abril libertou-nos duma ditadura de 48 anos. A censura tinha finalmente sido abolida.


Catarina Paiva, Irene Rodrigues, Gisela, Catarina Moreira e Joana Sales, UMAR, 2010.

A liberdade de expressão é uma das conquistas do 25 de Abril

Depois de 74, a Livraria Opinião passou a ser ponto de encontro de muitos refugiados/as políticos, vindos/as dos seus países de acolhimento, que queriam saber mais sobre a revolução dos cravos e desejavam permanecer entre nós. Eram sobretudo pessoas que tinham «fugido» da América Latina (Chile, Argentina, Brasil; Uruguai, Bolívia etc.), onde existiam terríveis ditaduras militares.


Teresa Sales, Maria Viegas e Irene Rodrigues, 25 de Abril 2016.

Foram tempos de grande intensidade e enriquecimento político.

A Opinião teve também um papel muito importante na venda de livros, revistas, discos, filmes, proibidos em Espanha, junto do público deste Estado.

Organizámos vários ciclos de cinema, em zonas fronteiriças do norte, centro e sul. Além da projecção e debate dos filmes tínhamos também exposição e venda de livros, revistas, discos. Foram encontros sempre muito participados por pessoas espanholas, que assim tinham oportunidade de ver os filmes e adquirir os livros e discos, proibidos no seu país, ainda sob o regime do ditador Franco.


Manifestação pela Escola Pública - Catarina Moreira, Olímpia, Guiomar, Alice, Irene Rodrigues, Manuela Tavares e Joana Sales, 18 de Junho de 2016.

Na livraria Opinião tive como companheiros/as de trabalho, de luta e de grande camaradagem o Hipólito Clemente, a Teresa Porto, o Madeira Luís, a Cândida Ferreira e a Fernanda Birrento.

Todas estas vivências foram a minha escola política e constituíram também um espaço para a minha emancipação como mulher.


* Irene Rodrigues - Livreira de profissão e de amores, feminista e activista da UMAR - União de Mulheres Alternativa e Resposta, que tem estado e continuará a estar presente na luta e nas questões fundamentais em defesa dos direitos das mulheres.

Termos relacionados Mulheres de Abril, Sociedade
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