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Mulheres de Abril: Testemunho de Helena Carneiro

Depois do julgamento, quando o Zé Manel [Picão] passou para Peniche, deixavam-me visitá-lo com a condição de tratar dos papéis do casamento. Casámos a 23 de janeiro de 1969 na prisão de Peniche. Por Helena Carneiro.
Helena Carneiro, 1964/65.

Este testemunho foi recolhido no âmbito do projeto Mulheres de Abril, iniciado em 2018, e que compila relatos, na primeira pessoa, de mulheres antifascistas sobre a sua história de resistência e de luta contra a ditadura. Coordenação de Mariana Carneiro.


Nasci no Porto, mais precisamente na Rua do Almada, porque nasci em casa, não no hospital. Uma parte da minha infância, até à primeira classe, foi passada em casa da minha avó, no Porto. A minha mãe foi sempre professora primária nos arredores do Porto. A minha irmã faz uma diferença muito pequena de mim, por isso eu estava muito contente com a minha avó, os dois irmãos mais novos da minha mãe, um deles a tirar arquitetura, e uma irmã que se tinha formado em Matemáticas. Lembro-me perfeitamente de estar sentada em cima de um estirador a ver desenhar. Ainda hoje olho para as plantas e percebo-as todas, não preciso que ninguém me explique uma planta de arquitetura. Com a minha avó viviam mais dois sobrinhos. A família da minha mãe é toda da Beira Alta, de Vila Franca das Naves, ao pé de Trancoso. A minha avó é que transportou sempre tudo atrás. Ela ficou viúva muito cedo, com 29 anos, e tinha cinco filhos, por isso, quando conseguiu juntá-los todos quase na mesma altura, mudou-se para Coimbra para todos poderem estudar. A minha mãe era a mais velha, portanto, teve de esperar mais tempo. Acabou por ter de escolher um curso em que pudesse começar a trabalhar o mais rapidamente possível.

Da parte da família da minha mãe, que foi quem teve mais influência sobre mim, já o meu bisavô era republicano, com as filhas a estudar (isto no fim do século XIX). Eu cresci com a minha mãe a explicar que só podemos ser sustentadas por duas pessoas: que é o pai e a mãe. E só até uma determinada altura. Caso contrário, temos de passar pela vergonha de pedir dinheiro e ter o vexame de ouvir “Para gastar onde?”.

Quando eu tinha oito anos, um cunhado da minha mãe, e primo direito, foi preso na PIDE no Porto, mas só mais tarde é que percebi o rebuliço na família. Lembro-me também de uma história familiar de um primo, médico, que tinha lutado com os liberais contra o D. Pedro e tinha estado preso no Forte do Almeida. Fui lá em várias visitas e a minha mãe explicava onde ficavam as masmorras onde ele tinha estado preso. Recordo-me também de, lá no Porto, irmos ao Soares dos Reis e de a minha mãe ter uma maneira de nos entreter. Ou, pelo menos, a mim e à minha irmã, que éramos mais velhas. Contava-nos estórias da História, relacionadas com o quadro que estávamos a ver. A minha mãe tinha, portanto, uma costela muito feminista e da independência das mulheres.

Ela tinha uma grande biblioteca. Quando a minha mãe chegava das aulas, ia ao jardim tratar das flores e depois sentava-se e pegava num livro. Ficava tão concentrada que tínhamos de a abanar, se não ela não ouvia. Já a minha avó materna tinha um feitio muito difícil, mas nós tínhamos uma relação muito forte, ao ponto de, quando me ligaram a dizer que ela tinha morrido, eu pensar: “Pronto, nunca mais sou a favorita de ninguém”.

O meu pai era totalmente diferente. Ele devia achar que a PIDE vivia na haste dos seus óculos, ou algo do género. Tinha uns medos terríveis. Era demasiado boa pessoa. Todos o podiam explorar, fazia favores a toda a gente, o que mais tarde me começou a irritar imenso.

A família do meu pai era muito pequenina. A minha avó paterna era muito mais nova que o meu avô, e o meu pai era o mais novo dos três irmãos. Quando eu nasci, o meu avô paterno tinha 80 anos. Morreu com 96. Aos catorze anos, ele ficou sozinho no mundo, porque uma grande epidemia matou os seus pais e irmãos. Nessa altura, já devia estar a aprender a ser alfaiate, que foi o que ele fez durante a maior parte da sua vida: trabalhou como alfaiate e também no jornal Comércio do Porto. A minha avó paterna era de uma terra ao pé de Lamego e tinha duas irmãs e um irmão no Porto, mas não tínhamos grande convívio. O meu pai trabalhou sempre no Porto mas ia e vinha todos os dias. Eram só 15 quilómetros da Vergada, era relativamente perto. Havia carreiras de manhã e à noite. E todos os dias ia almoçar com a sua mãe, ao pé da Igreja da Lapa.

A minha mãe vociferava contra os donos das fábricas que exploravam os trabalhadores

Fiz a instrução primária numa aldeia, com fábricas de rolhas de cortiça. A minha mãe foi sempre professora dos rapazes, diretora da parte masculina da escola. Toda a vida me lembro de, à hora do almoço, irem com a minha mãe, pelo menos, uns quatro ou cinco miúdos, almoçar em minha casa. Era a refeição que comiam durante o dia. Muitas vezes, porque parte da semanada dos pais era gasta no álcool. Mas eram famílias muito pobres. Quando foi a altura da alfabetização, eu tinha cerca de oito anos, a minha mãe propôs-se logo para dar aulas à noite aos adultos, sobretudo aos homens, que trabalhavam nas fábricas. Nenhumas das fábricas disponibilizou um espaço para estas aulas. Ela acabou por conseguir que um agricultor lhe emprestasse um cabanal para dar as aulas. Arranjou um quadro, que ficou lá ao fundo, em frente aos fardos de palha, conseguiu ainda carteiras e cadeiras emprestadas e era ali, no meio de todo aquele frio, que dava as aulas. Acabou por apanhar uma bronquite para a vida. Eu acompanhava-a sempre.

Chamavam a minha mãe para tudo. Recordo-me que a minha mãe um dia mandou um recado à família de um miúdo que estava a faltar, era um daqueles de famílias miseráveis, com dez filhos, que costumava almoçar connosco. A mãe dele apareceu com o miúdo pelo braço à noite. O rapaz tinha folhas de jarro na perna e um trapo embrulhado. Ainda hoje me lembro do cheiro que senti quando a minha mãe tirou aquilo tudo. Ele tinha-se queimado com água a ferver. Durante um mês e tal, a minha mãe fez o curativo todos os dias.

Ela estava sempre a vociferar contra os donos das fábricas que exploravam os trabalhadores. Num meio assim, era fácil perceber as desigualdades. E cresci com as histórias dos campos de concentração, de quando se juntavam todos a ouvir a BBC em segredo por causa da PIDE.

No primeiro ano de Letras, andava com o grupo do liceu

Eu andei sempre no Liceu Rainha Santa Isabel mas depois passei, no último ano, para o Colégio da Nossa Senhora da Esperança, onde conheci a minha grande amiga Milice Ribeiro dos Santos, que tinha acabado de chegar de Londres. Meses depois de as aulas começarem, chegou uma colega nova que dava bastante nas vistas. Vestia-se de uma maneira completamente diferente: tinha uns óculos lilases compridos, com hastes douradas e um duffle coat que não existia cá. No primeiro intervalo veio direita a mim e disse: “Ouve lá, afinal só nós as duas é que temos este emblema!”. Era o emblema do dia do estudante.

Vim para Lisboa em 63/64, um ano antes do que a Milice, que ficou a fazer umas cadeiras atrasadas. Entrei para a Faculdade de Letras, que ainda não existia no Porto. Até ela chegar, vivi em casa da mãe do Menéres Pimentel, que era avó de uma amiga minha do Porto. A casa era na Rua Filipe Folque. Gostei imenso da senhora. A criada, que era tão velha como ela, também vivia lá em casa. Tratavam-me muito bem. Só faziam as coisas que eu gostava e, quando saía à noite, já sabia que, quando voltasse, tinha à minha espera um copo de leite e um pão em cima da secretária.

No primeiro ano em que estive em Lisboa, os meus amigos eram quase todos os do último ano do liceu. Passados quinze dias após a minha chegada, entregaram-me um papelinho a anunciar uma reunião na sala de alunos de medicina. Lá fui. Não conhecia absolutamente ninguém. Estava sentada numa fila e, atrás de mim, estava um casal: o Palhinhas, que mais tarde esteve preso no Aljube, e a São Jordão. Passado um bocado, tocaram-me no ombro perguntaram-me se estava em alguma secção de Letras. Respondi-lhes que tinha chegado há pouco tempo do Porto. Convidaram-me para ir para a secção Social. Foram as primeiras pessoas que conheci na Faculdade de Letras. Entrei, portanto, logo para a pró-associação, que não tinha instalações. Tínhamos de andar sempre a circular pelas outras faculdades. Cada vez que tínhamos atividades ou era no Técnico, ou era em Ciências, ou era em Económicas, onde andava a malta dos liceus. De repente, o meu grupo era o grupo do liceu. Com uma grande vantagem. Aos fins-de-semana, ou aos jantares durante a semana, passava o tempo com as várias famílias. De repente, arranjei várias famílias em Lisboa. Mas as saudades do Porto eram enormes. De quinze em quinze dias ia lá.

No que respeita a atividades associativas, em Letras o que mais fazíamos era distribuir comunicados. Não tínhamos muito para fazer. Mas ajudávamos na preparação das iniciativas nas outras Faculdades. Tínhamos trabalho braçal, nomeadamente nos copiadores enormes, a dar à manivela. Lembro-me de fazer uma distribuição na Almirante Reis que foi um horror. Eram onze da noite e andávamos, muito carregados, a meter papéis nas caixas de correio. O meu companheiro tinha a mania das perseguições, estava sempre a olhar para trás. Eu achava que, fazendo aquilo com um ar natural, era melhor, ele não.

Também ajudava a distribuir embrulhos. Combinava ali na Namure, aquela pastelaria na Defensor de Chaves, com o Jorge Almeida Fernandes. Depois lá saía eu, com o embrulho atado com cordel. Mas não haviam pseudónimos. Não era nenhuma organização. Nunca pertenci a um partido. Acabava sempre por ter umas discussões bizantinas sobre os costumes. Sempre tive uma teoria: se fosse para ser tudo muito puritano, então arranjava um orientador espiritual e ia para a igreja. Lembro-me que, logo a seguir ao 25 de Abril, eu e o meu marido fomos convidados para ir a uma reunião da UDP. Nunca mais nos convidaram. Comecei logo a fazer um discurso sobre minorias sexuais.

A casa da Travessa Henrique Cardoso
 

Quando a Milice chegou a Lisboa, alugámos, juntamente com a Margarida Garrido, uma casa na Travessa Henrique Cardoso. Àquela casa foi tudo. Primeiro, apareceu a Judiciária da parte dos Costumes. Naquela altura, eu tinha 19 anos/20 anos e parecia que tinha 15 ou 16. Não havia nenhum cinema para mais de 18 anos onde não me pedissem o bilhete de identidade.

A nossa casa tinha duas divisões, era de renda limitada. Eu dividia o quarto com a Milice e a Margarida Garrido e o namorado, o Manuel, tinham o outro quarto. Vivíamos no primeiro andar e eles os dois adoravam meter-se com o casal que vivia do outro lado da rua. Punham-se os dois na marmelada com as cortinas abertas. Um dia estava eu sozinha em casa, para aí às quatro da tarde, e tocam à campainha. Fui atender e eram três senhores que queriam falar com a dona da casa. Respondi-lhes que era eu, mas eles insistiram que queriam falar com uma pessoa mais velha. Expliquei-lhes que tínhamos todas mais ou menos a mesma idade. Nisto, vinha a Milice a subir as escadas e eu disse-lhes que a outra dona estava a chegar. Os homens ficaram um bocado alapardados com as duas donas da casa e perguntaram novamente se não existia ninguém mais velho. Aquela casa era-nos subalugada por dois estudantes da Associação de Económicas, conhecidos da Margarida Garrido. Telefonámos-lhes a contar o que tinha sucedido. Dois ou três dias depois, eles ligaram a explicar que quem lá tinha estado foi a polícia de Costumes, que tinha a indicação que era uma casa de passe. Eu disse: “Ó Guida, vê lá se te portas bem, se não os vizinhos da frente têm um colapso com as coisas que vocês fazem só para os chatearem”.

Passado um mês, eram cerca de seis da manhã quando tocaram à campainha. Fui atender. Eram novamente uns senhores. A Milice apareceu em camisa de dormir a refilar por nos terem acordado àquela hora. Identificaram-se como sendo da PIDE, e nós a tratá-los como se fossem da polícia de costumes... [Risos] Ficámos um pouco mais assustadas. Um amigo nosso tinha sido preso e eles andavam à procura das malas dele, que não tínhamos connosco. Mexeram em tudo e levaram a coleção de emblemas da Milice, alguns livros,... Na verdade, eles tinham um bocadinho de razão, porque o nosso amigo, que estava ligado a quem foi preso, tinha dito que tinha umas coisas para guardarmos. Mas ainda não tinham chegado. No ano seguinte, eu e a Milice alugámos uma casa na Avenida do Brasil, onde vivi cinco ou seis anos.

O grupo do Vá-Vá foi um grupo muito especial

1965 foi o ano dos processos disciplinares, na sequência das greves e da ocupação da cantina. Eu e a Milice fomos suspensas por dois meses. Para a malta de Letras, as suspensões não eram preocupantes, porque não existiam faltas, não faziam a chamada. Mas, em Direito e em Medicina, faziam a chamada e marcavam faltas. Quando os processos foram para consulta, para que os advogados, que eram todos pro-bono, pudessem preparar a defesa, o João Bernardo aliciou uma colega e os dois roubaram dois volumes de processos. Foi um enorme sururu.

Eu costumava estar com o Hélder Costa e o Fernando Vilhena na cantina da Faculdade e depois juntávamo-nos cá em baixo no Nova Iorque. Entretanto, disseram-nos que a esplanada do Vá-Vá é que era boa e passámos para lá. Costumávamos jantar todos na cantina e vínhamos num grande grupo, comandado pelo Hélder Costa, em direção ao Vá-Vá. Cantávamos os Santos Anjos e Arcanjos em ritmo de cha-cha-chá e os hinos da Mocidade Portuguesa.

O grupo do Vá-Vá foi um grupo muito especial. Era organizado um jogo de futebol dos cineastas contra os associativos. Há uma célebre fotografia que costuma ser publicada no dia 26 de março. Foi o último e célebre jogo fotografado pelo Cabrita. Agora faz  impressão olhar para essa foto. Todos os anos desaparece um ou dois.

 Jogo de futebol fotografado por Augusto Cabrita em 26 de março de 1966.

Ao grupo dos cineastas juntava-se também um tipo do jazz do Hot Club, outros mais velhos que já trabalhavam... Estávamos sempre todos juntos no Vá-Vá: o César Monteiro, o Alberto Seixas Santos, o Fernando Lopes, o António-Pedro Vasconcelos, o João Rodrigues, com o seu humor cáustico, Medeiros Ferreira, o José Luís Nunes, o António Dias... Íamos todos em conjunto ver as estreias ao cinema. A primeira grande descoberta com os cineastas foi o Monumental à noite, à meia-noite. Depois do cinema, ir ao Monumental. Eu podia ir a qualquer lado. Não fazia despesa nenhuma, no máximo consumia uma garrafinha de água. Depois houve a fase da Galeria 48. O Paulo de Carvalho tocava jazz. E o Gambrinos à noite. E depois vínhamos a pé. Foi uma fase muito engraçada.

O meu marido chegou no final de 1965: “Lá vem o Picão, o jogador de rugby!”. Conheci-o no Vá-Vá, no mesmo grupo. Ele e mais dois, o Fausto e o Sajara, alugaram uma casa no Pote d'Água.

O grupo do Vá-Vá almoçava sempre na cantina universitária e eu e a Milice éramos contra os golpes na fila da cantina. Já o Hélder Costa era um profissional da coisa. Chegava e dava-nos beijos para ver se conseguia ficar no lugar. Aliás, esta malta do Vá-Vá, que andava sempre junta, quando se encontrava, cumprimentava-se sempre com beijos. Chamavam-nos o grupo “Mexe, mexe”. Eram uns reacionários! E ainda por cima era uma injustiça, nós não mexíamos nada! O senhor do Vá-Vá passava a vida a refilar porque nós passávamos tardes inteiras a jogar à batalha naval. Dois a dois em cada mesa. E esperávamos que chegasse o senhor do Diário Popular para fazermos as palavras cruzadas. O senhor Petrónio dizia-nos: “Um dia destes acho que vou mandar vir camas”. Nós recebíamos as mesadas por vale telegráfico, não existiam cheques. Não íamos aos correios, entregávamos o vale ao senhor Petrónio e ele dava-nos o dinheiro. Lembro-me de que, no dia a seguir aos das inundações, quando cheguei ao Vá-Vá a seguir ao almoço, o senhor Petrónio disse-me: “Menina Lena, o seu pai telefonou, já sabe que está tudo bem!”. Anos mais tarde, conhecemos uma das filhas do senhor Petrónio, que nos disse que lá em casa sabiam o nome de todos nós. Mas, no início, custou a habituar-se.

Na véspera dos meus anos fomos surpreendidos pela PIDE

No dia 14 de dezembro de 1966, à noite, véspera dos meus anos, eu e o Nuno Brederode, que tinha a mesma idade que eu e fazia anos a 14, combinámos encontrar-nos no Gambrinos para festejar ambos os aniversários. Eu tinha ido com o meu marido a casa dele, à Rua Reinaldo Ferreira, e, pouco antes da meia-noite, quando abrimos a porta, somos surpreendidos pela PIDE. Eles entraram e revistaram tudo, sem encontrarem o que queriam. Passámos lá a noite e o dia seguinte. O Jorge Galamba, que já estava meio escondido em casa da avó, já tinha sido levado pela PIDE. Entretanto, levaram-nos. O inspetor Sachetti deu ordens para me levarem, e à namorada do Ângelo Sajara, a casa. O Sajara saiu dois dias depois, sem cabelo, que era a primeira coisa que eles faziam aos presos. O Picão ficou mais dois anos por roubo de armas e passagem de militares para fora do país. As armas foram encontradas numa casa que a família do Fernando Brederode tinha em Oeiras. Nesse processo foram presos: o José Manuel Picão, o Fernando Brederode, o Alexandre Oliveira, o Jorge Galamba, o António Almeida e o Carlos Furtado. Foram estes seis. O único que era casado era o António Almeida, com a Manuela. Tinham uma filha pequenina. Apreenderam-lhes logo o carro. O Tó Almeida era o que fazia os passaportes.

Eu sabia da atividade do meu marido, era tudo mais ou menos combinado ali na esplanada do Vá-Vá. Não sabia exatamente o que é que ele ia fazer, mas quando ele andava à procura de alguém com carro e que conduzisse… Dava para imaginar o que se passava.

O Hélder já não estava cá. A 15 de agosto de 66, o Zé Manel foi levar o Hélder à fronteira. A família do meu marido tinha uma propriedade no rio Xévora, e de lá passavam a nado para o outro lado. Levavam uma gaveta de um móvel que tenho aqui a servir de barco para levar a roupa e o resto dos pertences. O Zé Manel também fez passar o José Teles, entre outros. Uns fugiam da tropa, outros da PIDE. Os militares faziam o pagamento em armas, que eram guardadas. E era isso que a PIDE procurava. A organização deles era uma organização meio política, meio anarca, meio tudo… Acho que o mais sério de todos devia ser o Alexandre Oliveira, que levava esta organização mais a sério.

O Fanan [Fernando Brederode] tinha uns sapatos de pele de crocodilo, um luxo asiático. Um dia decidiu levar esses sapatos quando foram ajudar a passar alguém pela fronteira. Ficou danado porque ficou com os sapatos cheios de lama. [Risos]

Passei a ir quase todos os dias a Caxias com a Diana Andringa e a Manuela Almeida

Quando o Zé Manel foi preso, avisei logo o seu irmão, António Luís, que era oficial de carreira, e que estava no quartel em Santarém. Costumávamos encontrar-nos na Baixa, na Suíça, e ele dava-me notícias do Zé Manel. Um dia disse-me que ele estava muito gordo. Expliquei-lhe que ele estava inchado de passar pela tortura da estátua e do sono. Mais tarde, o Zé Manel disse-me que teve de rasgar as calças de alto a baixo, para as pernas lá caberem. Não lhe bateram porque já sabiam que um jogador de rugby estava habituado a aguentar pancadas.

Todas as semanas, ia à PIDE entregar uma carta a pedir autorização para visitar o Zé Manel. Um dia, responderam-me que podia ir. Tinham passado cerca de três meses da sua prisão, foi depois de ele sair do isolamento. Vi-o numa sala da António Maria Cardoso, sempre com um PIDE a assistir. Depois, quando foi transferido para Caxias, pedimos autorização para as visitas lá. O meu pai ia tendo uma coisa má. Eles permitiam-me ir às visitas, como noiva, mas o meu pai tinha de escrever uma carta a dizer que as minhas intenções eram as mais sérias. Para o meu pai, que era um bocado conservador, isto era o mundo ao contrário. E eu ainda o picava mais. Liguei-lhe a dizer que tinha de escrever uma carta a dizer que as minhas intenções eram as melhores e que eu não o ia deixar com uma criança nos braços [Risos]. O meu pai lá escreveu a carta, sem esta última parte.

Passei a ir quase todos os dias a Caxias com a Diana Andringa e a Manuela Almeida. A Graça Furtado não podia ir tantas vezes, porque já estava empregada nos laboratórios da Lever. Íamos de boleia com a mãe do Fernando Brederode, a senhora dona Júlia, que tinha uma Diane. Aí eles já estavam numa sala, com alguns membros da LUAR, presos na sequência do assalto da Figueira da Foz: o Aníbal Queiroga, do jornal Democracia do Sul, de Évora, o Bento Vintém, de Santarém… Durante as visitas estava lá o João Pulido Valente e a mãe.

Quando Salazar caiu da cadeira, eu estava de boleia entre Paris e Lille

Em agosto de 1968, quando o Salazar caiu da cadeira, eu estava de boleia entre Paris e Lille. Fui ter com a minha irmã que estava em Londres, a trabalhar num hotel ao pé da King’s Road. Também tinha um grande amigo, o José Laranjo, que estava lá a estudar desde os 19 anos. À época, a minha amiga Milice vivia em Paris com o Quico Castro Neves, que tinha fugido à tropa. Lá consegui esmifrar ao meu pai uma viagem através da agência do Técnico, que era muito mais barata. Saímos por volta das 23h de Lisboa, num avião que devia ser daqueles militares. Tremia por todos os lados. Parou em Madrid, onde entraram mais estudantes, e chegámos às 6 da manhã a Paris. O meu pai queria que eu ficasse por ali, em casa da Milice, mas eu queria continuar até Londres. Éramos um grupo de cinco. Eu já tinha 23 anos e o mais novo tinha 17 ou 18 anos. Ele era de Viana do Castelo e ia para Dublin, na Irlanda, ter com uma família amiga dos pais. Quando chegámos a Paris, fomos para o Boulevard Saint-Michel, onde arranjámos uma camarata numa pensão para dormirmos os cinco durante o dia. Comecei a desencaminhar o rapaz para ele passar por Londres antes de ir para a Irlanda. Como ele tinha o bilhete Paris-Dublin, convenci-o a trocar por um bilhete Londres-Dublin e a ir comigo à boleia até Londres. Fomos os dois para a estrada. Um rapazinho novo e muito simpático deu-nos boleia e contou-nos que, naquele dia, o Salazar tinha caído da cadeira e estava hospitalizado. Começámos os dois aos saltos dentro do carro. Quando chegámos a Calais, ao final do dia, o rapaz que nos deu boleia indicou-nos uma pensão muito barata onde dormimos. No dia seguinte, apanhámos o barco. Como chegámos a um domingo, não era muito viável apanhar boleia, pelo que comprámos um bilhete de comboio e fomos para Londres. À hora do almoço, aparecemos no hotel da minha irmã, que não fazia ideia de que íamos chegar. A diretora do hotel arranjou um quarto para o rapaz de borla e eu passei a viver no quarto da minha irmã. Fiquei à espera que a Milice, que estava para o sul de França em férias, chegasse a Paris. Um amigo do Zé Laranjo perguntou-me se não me importava de levar uma turma de meninos que ia para Barcelona. Deu-me os bilhetes de comboio e de metro e disse-me que a única coisa que eu tinha de fazer era mudá-los de comboio na Gare du Nord. Assim foi. Depois de os mudar de comboio, fui para o Boulevard Saint-Michel, para o café dos portugueses, para ver se a Milice já tinha chegado a casa. Ainda estive com ela cerca de dez dias, depois regressei a Lisboa de comboio. Esta viagem foi ótima.

Não foi a primeira vez que estive em Paris. Quando acabei o sétimo ano, fui um mês para Paris, para a Alliance Française, a minha mãe esteve comigo uma semana. Levei logo uma lista dos filmes que queria ver, como o Couraçado Potemkin. Eu tinha uma correspondente francesa há muito tempo. A família dela, que era da Córsega, “adotou-me”. Aos fins-de-semana mudava-me para casa dela. Era daquelas famílias típicas francesas, como se vê nos filmes. Ela e o irmão, o pai e a mãe, as mesas sempre postas ao pormenor.

Quando voltei em 68, vim carregada de prendas para o presidiário, como uns jeans Levis de veludo fininho, que não existiam cá. Passados quinze dias, já estavam cheios de pintas de lixívia, de ele andar a lavar o chão.

Casámos na prisão de Peniche em 69

Quando o Zé Manel ainda estava em Caxias, a aguardar julgamento, deixei de estudar. As últimas cadeiras que fiz foi com o Lindley Cintra. Gostava imenso dele como professor. Primeiro, fui para uma empresa que fazia filmes, a Panorâmica 35, na Avenida Defensores de Chaves. Depois, arranjei emprego numa agência de publicidade por cima do Vá-Vá, a Forma, onde trabalhou a Maria Emília Brederode. Quando me casei, já estava a trabalhar na Forma. Devo ser a única que tem cartão de noiva.

Depois do julgamento, quando o Zé Manel passou para Peniche, deixavam-me visitá-lo com a condição de tratar dos papéis do casamento. Casámos a 23 de janeiro de 1969 na prisão de Peniche, numa sala que agora faz parte do Museu. Devemos ser as únicas pessoas que casaram com uma conservadora de pantufas. Ao casamento assistiram o meu pai e a minha mãe, que vieram do Porto, o meu irmão e a minha irmã. Do lado do Zé Manel, esteve presente a mãe, a irmã, o cunhado e uma cunhada. Os outros dois irmãos não estavam cá, um estava em Angola e o outro já estava em Moçambique. Os meus padrinhos foram o Alexandre Alves Costa, que veio do Porto, e o Ângelo Sajara. Era para ser o Palhinhas, mas ele estava na tropa em Angola e não chegava a tempo. Os padrinhos do Zé Manel foram o Carlos Gil, fotógrafo, e o Henrique Azevedo, que além de já serem seus amigos, tinham estado com ele na tropa em Timor. Aliás, foi em Timor que o Carlos Gil passou a ser fotógrafo e o meu marido convenceu-o a comprar uma máquina fotográfica e a dedicar-se à fotografia.

Convidados do casamento à porta da prisão de Peniche, 23 de janeiro de 1969.

Para visitar o Zé Manel a Peniche aos fins-de-semana, ia com a Graça, a Diana e a Manuela ou de autocarro ou pedia o carro emprestado a uma amiga, a Graça Lucena, da TAP, que tinha uma Diane. Como a Manuela tinha carta, quando a Graça estava a trabalhar fora ela emprestava-nos o carro. Ficávamos na Pensão Nina, em Peniche. Numa das portas da sala dos serões estava um papagaio. Costumávamos partilhar o espaço com as famílias que vinham do Porto ver os presos, e que eram do Partido Comunista (PC). A Diana entretinha-se a tentar ensinar o papagaio a dizer “Abaixo o revisionismo”. Era um escândalo para as outras mulheres. Nos serões aquilo estava dividido: a malta da Frente de Ação Patriótica (FAP) e os PC’s. Não havia grandes misturas durante os serões.

Éramos um bocadinho mal vistas devido às nossas saídas intempestivas

Eu, a Manuela e a Diana éramos um bocadinho alvoroçadas. Num dos fins-de-semana em que tivemos o carro da Graça, estávamos entediadas na pensão Nina, a um sábado, e lembrámo-nos de ir tomar café ao Mandarim, a Coimbra. Lá fomos. No Mandarim já não estava nenhuma das pessoas que queríamos encontrar. Então fomos para o bar do Atenas. O José Manuel Pinto dos Santos teve a ideia de irmos todos para a Figueira “abanar o capacete”. Lá fomos nós. Por volta das cinco ou seis da manhã, pusemo-nos a caminho de Peniche. A visita era às onze. Eu e a Manuela fomos à frente e a Diana na parte de trás do carro. A Diana anunciou logo que ia dormir. Perto do pinhal de Leiria, disse à Manuela que já estava a ver uns pinheiros a invadirem a estrada. Ela respondeu-me que era melhor pararmos porque ela até já tinha deixado de ver os que estavam de lado. [Risos] Encostámos o carro e lá ficámos a dormir. Quando chegámos, às três da tarde, fomos olhadas de lado. Ficámos um bocadinho mal vistas. As “galdérias” tinham acabado de chegar [Risos]. Só a mãe do Saúl, que era uma senhora com 60 anos, é que achou o máximo termos ido “arejar a pluma”. Mas era a única que tinha esta opinião sobre as nossas saídas intempestivas. Um dia, o Fernando Cardoso apareceu na pensão Nina, no sábado, para nos levar a tomar café a Lisboa. Lá fomos nós outra vez. Se tínhamos carro, quando saímos da visita íamos passear para as Caldas da Rainha. Saímos um bocadinho da norma que ali existia. Passava-se o mesmo com os livros. Eu levava qualquer tipo de livro, não fazia censura prévia. O pior que podia acontecer era não deixarem entrar aquela obra e devolverem-na no final da visita. Foi o que aconteceu logo com o Fantoche Lusitano. Mas as outras achavam tudo muito estranho. Também tínhamos alguns “golpes”. O Quarteto de Alexandria, com quatro volumes, era atado com cordel e contava só como um livro.

Helena Carneiro com "os amigos de sempre", em 1969.

Enquanto o Zé Manel esteve preso, entretinha-me muito com o cinema, e dava apoio sempre que era necessário estabelecer qualquer ligação. Dentro da cadeia, recebia várias coisas escritas pelo Xico Rodrigues. Sempre ajudei os presos políticos a passarem materiais.  

Em dezembro de 1970 fomos para Luanda

O Zé Manel saiu em setembro de 69 e foi trabalhar para a mesma agência onde trabalhava quando foi preso: a agência Êxito, que tinha várias pessoas ligadas ao Partido Comunista. Um dos funcionários da contabilidade era o José Casanova, e o Xico Louro era o diretor financeiro. Nos três primeiros meses em que o Zé Manel esteve preso, pagaram-lhe o ordenado por completo. Foi esse dinheiro que permitiu que eu fosse carregada com compras para a prisão, que eram sempre divididas por todos. Por imposição do PC, mesmo os que não fumavam ficavam com cigarros [Risos]. Depois do 25 de Abril, para tratar da reforma, o meu marido descobriu também que a Êxito tinha pago todos os descontos para a Segurança Social durante todo o período da prisão.

Em junho de 1970, passámos para a casa onde vivemos agora. Aqui chegou a ficar um angolano que foi chamado para os comandos, para Lamego. Ele veio através da Diana, mas eu já o conhecia do café que frequentava em frente à Casa dos Estudantes do Império. Viveu clandestino connosco até conseguir fugir. Um amigo meu tinha-me dito que se o Zé Manel um dia precisasse de documentos ele conseguia arranjar. Pedi ao Zé Manel para falar com esse amigo e ele lá arranjou os documentos para o angolano poder fugir. Durante o dia era tranquilo ele estar lá, e à noite bastava-nos fechar as persianas. Para a senhora que fazia limpezas cá em casa não era estranho, tínhamos sempre por cá amigos a dormir.

Em dezembro de 1970, recebi um telefonema do Jorge Ricardo, que tinha estado comigo na Forma, sobre um emprego em Luanda, numa agência de publicidade, por dois anos. Pagavam a ida. Mas era necessário responder no mesmo dia. Fui ter com o Zé Manel à Êxito, onde costumava ir almoçar. Estávamos convencidos que a proposta era só para um, de qualquer forma, voltei a falar com o Jorge Ricardo a seguir ao almoço. Ele lá me disse que podíamos ir os dois, mas que tínhamos de partir já em dezembro.

Nós tínhamos uma paixão por África que se devia, em muito, às descrições da Julieta Gandra, de que quem era muito amiga, que nos falava imenso de Luanda. O irmão mais novo da minha mãe, o meu tio arquiteto, estava lá e a Julieta contava-nos que ele não tinha sido apanhado aquando da vaga de prisões mas que estava envolvido.  

Aceitámos a proposta. O Zé Manel, que estava em liberdade condicional, teve de pedir autorização à PIDE e deram indicações de que devia apresentar-se à chegada. No dia 18 de dezembro estávamos de malas aviadas: uma roupa de verão que conseguimos arranjar, duas malas cheias de discos e livros. As amigas da TAP fizeram passar por cima as malas sem serem pesadas e lá seguimos viagem. Aterrámos em Luanda com um calor de morrer.

O dilema do pide a quem o Zé Manel teve de se apresentar era como é que nos tínhamos conhecido, se eu era do Porto e andava em Letras e ele de Elvas e andava em Direito. Mas lá lhe explicou que ali era diferente. Não estávamos em campos diferentes: Em Luanda a separação era entre “os brancos e os pretos”. Alertou-o que, se ele se enganasse na cor do grupo, existiram consequências.

Estava há uma semana em Luanda quando fui confrontada de forma explícita com a segregação racial. Fui a uma farmácia comprar uma aspirina. Quando entrei, estavam umas cinco ou seis pessoas ao pé do balcão. Fiquei cá atrás. O empregado perguntou “A menina, o que é que quer?”, ao que eu respondi que tinha pessoas à minha frente. “Se não quer ser atendida pode ir embora”, retorquiu. Como é óbvio, à minha frente só estavam negros.

Quando nós chegámos já lá estava, como médico anestesista, o Alfredo, irmão mais velho da Milice, com a Maria Eduarda, a mulher, e o filho mais velho. No dia em que aterrámos em Luanda fomos comprar logo um colchão e ficámos lá em casa. O Pedro, que tinha uns três anos, passou para o quarto deles, e nós tivemos direito a um quarto com um colchão no chão. Dormimos assim três meses. O meu tio arranjou-nos um andar com vista para a baía, alugámo-lo, mas íamos adiando consecutivamente a mudança.

Em casa deles trabalhava a senhora Esperança, que já tinha sido herdada de vários médicos anteriores. Quando acabou a comissão do Alfredo, cerca de seis meses depois, a senhora Esperança passou a tomar conta de nós. E quando digo tomar conta era porque era mesmo assim. Eu entregava-lhe o dinheiro no início do mês e ela geria a casa. Nós só tínhamos de nos preocupar com o jantar se não ficasse nada feito. E ela adotou os amigos todos que iam chegando. Fazia-lhes a comida que eles gostavam e tudo. Mas uma coisa era certa: todas as fardas que já não eram precisas ela ficava com elas, iam direitinhas para o MPLA.

Um dia a senhora Esperança disse-nos que um conhecido dela tinha um recado nos dar e perguntou-nos se ele podia passar lá por casa. Ele lá nos foi visitar com o recado vindo de Lusaka. Era do tal amigo angolano que tinha estado clandestino em nossa casa, em Lisboa, e que nos queria dizer que correu tudo bem.

O ponto de encontro em Luanda era a livraria Lello

Ficámos a trabalhar na empresa de publicidade Estúdios Norte, do Sebastião Coelho. Na publicidade éramos só quatro ou cinco, porque a atividade principal era o programa de rádio: O Café da Noite. Era bastante bem feito. Quando o António Macedo chegou nós já lá estávamos.

A Julieta tinha-nos dito para irmos à Lello em Luanda conhecer o Felisberto Lemos, e que ele nos colocaria logo no grupo certo. Eram todos da idade dos meus pais e da Julieta. Todos os dias saíamos dos Estúdios Norte e o ponto de encontro era a livraria Lello. Quem era da nossa idade era o Lopo do Nascimento, que ia lá todos os dias, juntamente com a mulher, e a mulher do Luandino. Esse era o nosso grupo, mais os militares que iam aparecendo. A Lello ficava numa pracinha no centro de Luanda, em frente de um café onde se concentravam os militares que acabavam de chegar ou vinham do mato. Tínhamos amigos que estavam por ali: o Zé Labaredas, que estava muito perto de Luanda, o António Dias que estava em Sá da Bandeira e o Zé Quitério mesmo em Luanda, todos na ttropa.

A chave de nossa casa ficava sempre atrás do contador. Chegassem quando chegassem, podiam sempre abancar por ali. Cada vez que vinha algum dos nossos amigos de férias fazíamos grandes almoçaradas e o Felisberto arranjava umas edições muito velhas que tinha na Lello e trazia como presentes.

Com a senhora Esperança íamos a um baile de rebita. O grupo de rebita chamava-se “Morte Carmona, viva Craveiro Lopes”. Eram da família Van Dunem. Lá só se podia dançar de fato e gravata. Era uma dança francesa comandada. Também frequentávamos a noite com os filhos da senhora Esperança. Passávamos grades de cerveja por cima dos muros para não pagar despesa.

A promessa à Nossa Senhora da Muxima e o nascimento da Joana

Quando fiquei grávida, a senhora Esperança fez uma promessa à Nossa Senhora da Muxima. Um dos nossos amigos, o Isac, estava colocado no local onde se encontra a igreja da Nossa Senhora da Muxima, que é numa das margens do Rio Kwanza, lá para dentro. Combinámos ir lá um fim-de-semana. Fui eu, que já estava bem grávida, o Zé Manel, a minha amiga Elsa, a senhora Esperança e o seu filho Luís. Fomos os cinco no nosso dois cavalos vermelho. O carro ficou debaixo de um embondeiro, porque o Isac veio-nos buscar de barco pelo rio. Eu tive de ir de cócoras, comecei logo a enjoar. Dormimos no quartel. Ao lado eram as festas da Nossa Senhora da Muxima. Nesse dia, concentravam-se lá mulheres de Angola inteira. Era um espetáculo entrar na igreja e aproximarmo-nos do altar onde estava a santa. Cada mulher falava no seu dialeto. Umas agradeciam à santa, outras insultavam-na por não conseguirem engravidar.

A 28 de março de 1973 nasceu a Joana às 13h30! Foi numa clínica da única parteira, em Luanda, que fazia a ginástica para o parto sem dor. A parteira deixou-me deitada na marquesa com uma esponja para ir molhando os lábios. De repente, foi buscar um divã, colocou-o ao lado da marquesa, pegou-me na mão e disse-me para tentar dormir. Ficou a noite toda de mão dada comigo. Para mim, isso foi inesquecível. Numa terra onde estava sozinha, eu só queria a minha mãe. E não há palavras para descrever a importância que teve aquela mão. Quando a parteira disse que a criança ia nascer, o meu marido foi logo lá para fora. A minha amiga Elsa preocupou-se em verificar se o bebé tinha os dedos todos. Quando a Joana já estava no colo da senhora Esperança, eu só ouvia: “Mas como é que uma neta tão branca pode ter uma avó tão preta?”. Na altura, tínhamos de ir aos correios pedir uma chamada para Portugal, e só depois nos avisavam a que horas a chamada iria ser feita. O telefonema acabou por acontecer já perto das 11h da noite.

A senhora Esperança transportava a Joana de um lado para o outro, sempre a falar em kimbundo e ao som da música. Arranjou uma rapariga para lavar a roupa da Joana. Um dia ouço um burburinho. A senhora Esperança estava indignada porque ela estava a misturar uma peúga de adulto com a roupa da Joana. Ao fim de semana, quando nós queríamos ir à praia, levávamos a Joana para casa da Senhora Esperança e com a vizinha, que era costureira e também tinha sido mãe há pouco tempo.  O bébé da costureira também ficava lá: ela branquinha, branquinha e ele negro, negro.

O regresso a Portugal e o 25 de Abril

Eu regressei a Portugal primeiro, quando a Joana tinha um mês e meio. Ou seja, em maio de 1973. À senhora Esperança disse que vinha de férias, não tive coragem de dizer que me vinha embora de vez. Em setembro, comecei logo a trabalhar no Expresso, na parte da publicidade, onde acabei por ficar perto de 30 anos. Naquela altura, o Expresso era um sítio muito simpático para se trabalhar, muito animado.

45 anos depois, José Manuel Picão e Helena Carneiro visitaram Peniche com os netos.

O Zé Manel chegou em janeiro de 1974.
Na noite de 25 de Abril, o telefone tocou às quatro da manhã. Era o Jorge Galamba, a dizer que tinha passado com a namorada no Terreiro do Paço e que estava tudo cheio de tanques. “Acorda o Zé Manel para que ele prepare um saco, para o caso de ser preciso fugir, porque não fazemos ideia do que trata”, disse-me. O Zé Manel, como era de esperar, respondeu que, quando se soubesse alguma coisa, então aí faria o saco. Já eram sete da manhã quando ligou o nosso amigo Duarte Silva a dizer-me para ligar a rádio e ouvir as canções. Fui logo para o Expresso e o Zé Manel foi para a Baixa. A minha irmã, que estava a viver connosco, ficou de plantão aqui em casa com a Joana. No Expresso foi uma animação, um entra e sai. A Dona Mercedes Balsemão chegou a meio da manhã a dizer: “Francisco, vá esconder o Porsche que eles andam na rua!”. [Risos]


Helena Carneiro.

No 1º de Maio deixámos a Joana na casa dos sogros do meu cunhado. Andámos, com o Duarte Silva e o Fernando Brederode em todas as manifestações, da UDP ao MR, menos na unitária, do PC e do PS. Só me lembro de não haver um sítio para comprar uma água. Não havia absolutamente nada aberto. Sempre que estávamos em casa e ouvíamos na rádio que estava a decorrer uma manifestação qualquer, lá íamos nós. Chegámos também a ir com o Duarte Silva aos comícios do MR.
A Joana também foi a várias manifestações, mas já foi um pouco mais tarde.

Depois do 25 de Abril, nunca aderi a nenhum partido. Com o PCP, a divergência inultrapassável tinha a ver com o papel da mulher, remetida a fazer crochet, a ver se vinha a PIDE e a tratar da casa. Com o PS tinha diversas divergências. Quando o Francisco Balsemão me tentava “catequizar” eu dizia-lhe: “Dr. Balsemão, entre nós existe um abismo ideológico!”.


Helena Carneiro nasceu a 15 de dezembro de 1944 no Porto. 
Frequentou a escola primária numa aldeia perto do Porto, a Vergada.
Estudou no liceu Rainha Santa e um ano no Colégio Nossa Senhora da Esperança, no Porto.
No ano letivo de 63/64 ingressou no curso de Românicas na Faculdade de Letras em Lisboa.
Trabalhou na Agência de Publicidade Forma, em 1969.
Casou, em 23 de janeiro de 1969, com Zé Manel Picão de Abreu na prisão de Peniche.
Em setembro de 1969, Zé Manel Picão de Abreu foi libertado.
Em dezembro de 1970, o casal foi para Luanda para uma agência de publicidade - Estúdios Norte
Helena Carneiro regressou em maio de 1973 a Lisboa com a sua filha Joana, então com três meses.
Trabalhou no jornal Expresso de setembro de 1973 até 2003.
Em setembro de 1976 nasceu a sua segunda filha.

 

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