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Mulheres de Abril: Testemunho de Conceição Cardeira

Se tivesse ficado em Portugal, não teria vivido esta experiência, ser operária, por exemplo. Teria tido uma vida completamente diferente: teria iniciado a minha carreira de professora, teria casado com um engenheiro, teria tido uma empregada para cuidar dos filhos e da casa, como aliás era comum nas famílias da nossa classe social. Por Conceição Cardeira.
Conceição Cardeira e Fernando Mariano Cardeira em Estocolmo, 1971.
Conceição Cardeira e Fernando Mariano Cardeira em Estocolmo, 1971. Foto de Fernando Mariano Cardeira.

Este testemunho foi recolhido no âmbito do projeto Mulheres de Abril, iniciado em 2018, e que compila relatos, na primeira pessoa, de mulheres antifascistas sobre a sua história de resistência e de luta contra a ditadura. Coordenação de Mariana Carneiro.


A minha aventura começou no dia 27 de Junho de 1970, tinha 22 anos

Tenho agora 71 anos. Nasci numa família pequeno-burguesa em Sobral de Monte Agraço, a 40 km de Lisboa. O meu pai, comerciante de calçado e materiais acessórios, a minha mãe, catequista, dona de casa, mas menina lisboeta, educada na Escola Francesa (hoje Liceu Francês), portanto, de uma condição social diferente do meu pai. Era uma pessoa muito compreensiva e protectora dos seus filhos. Tive uma educação católica e recebi todos os sacramentos à exceção do casamento, que foi civil. Fiz o meu ensino primário no Sobral e fui uma das privilegiadas que, depois da quarta classe, continuou os estudos. A maior parte das colegas não continuou os estudos, por razões económicas e também por não haver ensino secundário nessa época no Sobral. Continuar os estudos teve um preço um pouco caro para mim. Ingressei no Instituto de Odivelas, graças ao empenho do meu padrinho de baptismo, General França Borges, então Governador Militar da Madeira e depois Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, um homem do “sistema”, que conseguiu incluir-me no grupo das 5 filhas de civis, que anualmente eram aceites numa instituição reservada a filhas de militares. Aqui a mensalidade era inferior à dos outros colégios privados, tornando-se, portanto, mais compatível com o orçamento familiar. Foram os piores cinco anos da minha vida. Não pertencia àquele grupo. Nessa altura nem era por consciência política. Não sabia o que era esquerda ou direita. A única coisa que me perturbava era saber que algumas das minhas colegas tinham ficado sem pai, ou sem irmão, mortos em combate na Guerra Colonial. Era frequente estarmos numa aula e chamarem uma das alunas ao gabinete da diretora para lhe darem essa triste notícia. Eram dramas familiares, mas para mim não passavam disso.

Em termos de currículo, o Instituto de Odivelas tinha melhor ensino do que qualquer outro liceu ou colégio em Lisboa. Era uma educação muito completa. E a alimentação era óptima. Na altura, não tínhamos instrução militar. Éramos educadas para sermos boas esposas e boas mães, promovermos o sucesso dos maridos, já que a maioria se destinava a casar com militares.

Num ambiente como o do Instituto de Odivelas (IO), normalmente formam-se grupos: dos que pertencem e dos que não pertencem. Como não era filha de militar, senti-me sempre um pouco ostracizada. Convenci a minha mãe a transferir-me para o Liceu de Oeiras no 6º ano, e aí concluí o 3º ciclo. Prossegui depois para a Faculdade de Letras. Segui Germânicas – inglês e alemão.

A minha irmã, doze anos mais velha do que eu, com quem partilhava um quarto alugado em Lisboa, casou, entretanto, com um cidadão inglês. Ele era extremamente simpático e contribuiu imenso para a minha libertação familiar. Quando casaram, o meu cunhado ofereceu-me estadia em casa deles. Ou seja, casou com duas! [Risos]. Levou a mulher e a cunhada. A minha irmã sempre foi mais conservadora. O meu cunhado apoiava o Partido Liberal em Inglaterra e era uma pessoa com um espírito muito livre. Mesmo durante o período de namoro, tive mais liberdade do que qualquer outra rapariga, o que por vezes gerava alguma discordância no casal, por a minha irmã se considerar responsável por mim perante os meus pais. Já o meu irmão, catorze anos mais velho do que eu, era militar, aviador e fez várias comissões de combate na Guiné e em Angola.

Enquanto vivi com a minha irmã e cunhado, no Areeiro, tinha cama e mesa garantidas, e trabalhava para fazer face aos meus gastos. Secretariava o Cineclube Universitário de Lisboa, dava explicações, vendia tupperwares, empresa em que a minha irmã trabalhava como secretária de direção. Era assim que suportava as minhas despesas pessoais.

Foi na Faculdade que, efectivamente, comecei a ganhar consciência política

Plenário na Cantina da Cidade Universitária, 1968. Foto de Fernando Mariano Cardeira.

Na Faculdade de Letras comecei a perceber o lado da oposição à Guerra Colonial. Entrei na Associação de Estudantes e passei a participar em manifestações. No meio disto tudo, como tinha aptidão para as línguas, quis também aprender italiano. Inscrevi-me no Instituto Italiano, onde conheci o meu marido [Fernando Mariano Cardeira]. Nem eu, nem o meu marido estávamos ligados a qualquer partido político, mas participávamos muito nas iniciativas de rua.

Conceição Cardeira a participar no protesto nas escadas da Cantina da Cidade Universitária, 1968. Foto de Fernando Mariano Cardeira.

Na altura, ele estava na Academia Militar, de onde pretendia sair. Tínhamos uma situação idêntica, ele fora contrariado para a Academia Militar, porque os pais, com 5 filhos, não tinham condições para lhe pagar a Faculdade. Foi a maneira de ele prosseguir os estudos, como aliás muitos rapazes nessa época iam para o seminário estudar, mesmo sem vocação sacerdotal. Aconteceu-lhe o mesmo que a mim em Odivelas: nunca “encaixou” naquele meio. Foi sempre rebelde, estava sempre de castigo, tal como eu. Ele já estava muito mais politizado do que eu e recusou totalmente a Guerra Colonial. Quando nos conhecemos já estava a planear sair da Academia. Mas a saída tinha custos. Eles faziam os três primeiros anos de Engenharia na Academia e depois iam para o Técnico. Apesar de poderem sair, tinham de reembolsar o Estado de parte do dinheiro que tinha sido investido na sua formação académica. À época, em 1969, teve de devolver quase 36 contos. Era bastante. Por represália, mandaram-no fazer o serviço militar obrigatório. Apesar de ser de engenharia foi reclassificado em Atirador de Infantaria, tendo ficado como instrutor, porque já tinha a instrução toda. Durante um ano e meio ele e mais umas dezenas de ex-alunos da Academia Militar fizeram o périplo de vários quartéis do país, aguardando a mobilização para a guerra a que não poderiam escapar. Nas Caldas da Rainha em Janeiro de 1970 uma dezena destes tenentes começou a planear a sua deserção. Procuraram ajuda para a deserção, mas verificaram que a ideia do PCP era ir para a guerra e fazer o trabalho político no seio do Exército. Um dos membros do grupo era natural do Gerês e tinha um amigo que era passador de emigrantes, pelo que eles acabaram por sair do país por lá. Ele falou comigo e disse-me que, se quisesse continuar a nossa relação, também teria de sair do país. Concordei e resolvemos casar.

Cantina da Cidade Universitária, 1968. Foto de Fernando Mariano Cardeira.

A minha mãe e a minha sogra ajudaram-me a chegar à Suécia

A minha aventura começou no dia 27 de Junho de 1970, na Conservatória do Registo Civil da Guerra Junqueiro, onde se realizou a cerimónia do casamento civil. Não sabia o que me ia acontecer. Em Portugal teria um futuro promissor à partida, porque, naquela altura, qualquer licenciado tinha emprego. Até queria ser hospedeira de bordo. Mas optei pelo “incerto”. Concordara com a decisão que o Fernando, ainda namorado, tomara e também porque, tendo adquirido alguma consciência política através da Associação de Estudantes da Faculdade de Letras, muito activa e interventiva nessa época, considerava que as colónias portuguesas lutavam por uma independência que há muito lhes era devida. O Fernando comunicou à mãe que íamos casar apenas uns dias antes do casamento. Não tivemos sequer festa, fizemos um almoço em casa da minha irmã. Ninguém sabia que ele ia desertar. A versão oficial era que eu iria com ele para a Guiné. Todos me diziam que era um disparate, que iria ficar viúva, devido à sua especialidade de atirador de infantaria.

Casamento de Conceição Cardeira e de Fernando Mariano Cardeira, 1970. Foto de Fernando Mariano Cardeira.

No dia 23 de Agosto de 1970, o grupo de oficiais em que o Fernando estava incluído pôs-se a caminho de Espanha, a partir do Gerês. Só contei á minha sogra e á minha família que eles tinham desertado depois de ter tido a certeza de que tinham chegado a Paris. O meu marido telefonou dois dias depois a dizer que estava tudo bem, e então já pude divulgar a notícia. A minha irmã e o meu cunhado compreenderam a minha situação. Já o meu pai não. Ele era muito salazarista. O meu avô materno, (a quem a família diz que eu saí, mas que não cheguei a conhecer), foi o único revolucionário da família. O meu pai, ao ter conhecimento que o meu marido desertara, entrou em conflito com a minha mãe, porque convenceu-se de que existia um conluio entre nós e que ela sabia de tudo, o que não era verdade. Foi um processo muito duro. Para o meu irmão, que chegou a general da Força Aérea, o meu marido era um traidor. O meu padrinho, França Borges, nunca me fez nenhuma crítica, nunca teceu nenhum comentário. Entre os todos os fascistas pertencentes ao “sistema” creio que era dos mais liberais e que compreendeu a minha situação. Até porque, quando regressei a Portugal, recebeu-me muito bem. Quanto ao meu pai, o padre lá de Sobral foi falar com ele e a situação melhorou. De tal maneira que o meu pai foi o primeiro a ir visitar-me na Suécia, 2 anos mais tarde.

Fernando Mariano Cardeira e os restantes membros do grupo a caminho de Espanha, a partir do Gerês, 1970. Foto de Fernando Mariano Cardeira.

Assim que o Fernando chegou a Paris, refugiei-me em casa da minha sogra, em Fanhais. Recebia algumas cartas dele, mas muitas não chegavam. Os telefonemas eram complicados. Na terra da minha sogra só havia um telefone público. O Fernando telefonava e pedia para eu lá estar meia hora depois. Os planos dele eram ficar em Paris a fazer o trabalho que aparecesse, lavar pratos ou a trabalhar na construção civil, que era o que se fazia por ali. Tudo mudou quando encontrou no Quartier Latin um colega do Técnico, que conhecia um amigo que vivia na Suécia e tinha ligações ao PAIGC. O Fernando Baginha, que já faleceu, explicou que na Suécia teriam bolsa de estudo e estatuto de refugiado político. No princípio de Setembro, recebo uma carta de Paris a dizer que iriam para a Suécia, cidade de Uppsala, a norte de Estocolmo.

A minha mãe, que era uma mulher espertíssima, aconselhou-me imediatamente a “pôr-me logo a andar”: “Vai ter com ele antes que ele se enamore de alguma sueca!”. [Risos]. Ela e a minha sogra arranjaram forma de eu lá chegar. A minha mãe, economicamente dependente do marido, empenhou as suas joias no Montepio para me pagar a viagem. E a minha sogra deu-me os três contos que tinha guardados no guarda-fatos. O Fernando não sabia de nada!

Aceitei a proposta da mãe e sogra. Já tinha estado com 18 anos em Londres a lavar pratos num hospital no Verão e pensei que, se me tinha “desenrascado” nessa altura, então não ia ficar à espera que o Fernando arranjasse casa e tivesse tudo prontinho para eu ir. Ainda tinha passaporte de solteira, no qual não constava o apelido do marido, o que me facilitava a vida perante a PIDE/DGS. No Técnico existia uma agência de viagens para estudantes com preços especiais, onde comprei um bilhete para Londres. Fui para casa de uns amigos do meu cunhado para ludibriar a PIDE e não levantar suspeitas. Permaneci lá uns dias. Não tive problemas nenhuns na viagem. Em Londres fui à mesma agência de viagens para estudantes e comprei um bilhete para Estocolmo. Liguei ao Fernando e disse-lhe que estava em Londres e que no dia seguinte iria ter com ele a Estocolmo.

Na Suécia fomos muito bem recebidos, quase como heróis

Fui a primeira mulher do grupo de desertores a chegar, no final de Setembro. Precisamente um mês depois de eles terem partido. Fiz o curso de sueco que tinha sido criado propositadamente para os seis com uma professora que falava espanhol. Como sabia alemão, e a base do sueco é muito parecida, não foi difícil. Fomos muito bem recebidos, quase como heróis. Os estudantes suecos, que não tinham problemas políticos no país - estávamos na época do Olof Palme - dedicavam a sua energia e o seu activismo à luta contra a Guerra no Vietname e a Guerra Colonial. Trabalhavam com o PAIGC e com o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA). O Onésimo Silveira, que era o representante do PAIGC na Suécia, vivia também em Uppsala.

Conceição Cardeira e Fernando Mariano Cardeira em Uppsala, 1970. Foto de Fernando Mariano Cardeira.

Inicialmente, alguns estudantes suecos cederam o seu quarto para dormirmos, enquanto não tínhamos casa própria. Ao fim de dois meses, os suecos atribuíram-nos um apartamento de estudantes. Recebíamos ainda uma bolsa de estudo. Nos primeiros seis meses, frequentávamos seis horas de aulas de sueco por dia. No fim desse período inscrevi-me na Faculdade. Era difícil conseguir equivalências. Os engenheiros, que já eram finalistas em Portugal conseguiram equivalência do 1º ano e ingressaram no segundo. Eu tive que iniciar os estudos no 1º ano de Inglês e, terminada esta fase, iniciaria o Alemão, ou outra disciplina que me interessasse. (Na Suécia não se agrupavam as disciplinas como aqui em Portugal, germânicas, românicas. A associação fazia-se consoante o interesse do aluno e as saídas profissionais). Uma sueca que sabia português, a Kajsa, que é nossa amiga até hoje, e o seu marido traduziram não só o certificado de habilitações, como também os índices dos livros de engenharia do IST, o que facilitou a obtenção das equivalências. No meu caso, apesar de ter o quarto ano da faculdade completo aqui em Portugal, não me deram qualquer equivalência. Depois compreendi porquê. Enquanto o curso em Portugal era muito teórico, à base de Literatura e de História do passado, e a língua era muito negligenciada, na Suécia não, o curso trabalhava essencialmente as competências linguísticas e os autores modernos, com uns excertos das obras de Shakespeare.


Conceição Cardeira, Uppsala, 1970. Foto de Fernando Mariano Cardeira.

Fiz o primeiro semestre ainda em Uppsala. Como não havia Faculdade de Engenharia lá, o Fernando e os colegas tiveram que concorrer para outras localidades: dois ficaram em Estocolmo e os outros, entre os quais o Fernando, em Lund, no Sul da Suécia. No período de férias trabalhávamos como qualquer estudante sueco, e fizemo-lo em vários sítios, eu a tomar conta de uma criança e como operária numa fábrica de molho de tomate e mostarda a fechar frascos; também num restaurante a cozinhar; a lavar pratos em vários sítios. O Fernando trabalhou a apanhar morangos, a plantar pinheiros, a lavar pratos e na estiva. Se tivesse ficado em Portugal, não teria tido essa experiência, não saberia o que era a vida de uma operária e chegar a casa completamente estafada para dormir até ao dia seguinte. Senti-me o Charlie Chaplin nos “Tempos Modernos”.

Em 1971 passei a ter um processo na PIDE como refugiada política

No verão de 1971, como tinha o passaporte a caducar, decidi vir a Portugal e visitar a família. O meu ano escolar em Lund começava em finais de Agosto, pelo que vim em Junho. Tive imenso cuidado e não contactei ninguém a avisar da minha chegada, para não levantar suspeitas e não criar problemas á minha família e amigos. Vim num dos voos de estudantes para Barcelona, apanhei o comboio para Madrid e o Lusitânia para Lisboa. Entrei por Marvão. Tirei o passaporte numa agência e, um mês depois, preparei-me para regressar à Suécia pelo mesmo trajecto. Ia numa daquelas carruagens que tem um compartimento e um corredor lateral. Havia um compartimento onde a PIDE verificava os passaportes, por eles recolhidos e devolvidos posteriormente. Porém, quando chegámos a Marvão, antes da meia-noite, a PIDE veio ao meu compartimento e deu-me ordens para abandonar o comboio. Não me autorizavam a continuar a viagem.

Ordem de serviço da PIDE - 1 de março de 1971
CLICAR PARA AUMENTAR.

Fui para uma casinha da Guarda Fiscal. Os guardas eram pessoas simples, da aldeia. Perguntaram se o problema era não ter autorização do marido, ao que lhes expliquei que essa obrigação não existia desde o ano anterior. Informei-os que o meu marido era desertor e pedi-lhes para fazer um telefonema para a Suécia. Avisei o Fernando que não me deixavam sair do país. Entretanto, perguntei aos guardas o que tinha de fazer. Disseram que deveria ir à Rua António Maria Cardoso, à PIDE, apresentar um requerimento para ser informada do motivo da minha detenção. E assim foi. Instalei-me em casa da minha irmã, no Areeiro, e todos os dias apanhava o autocarro 35 para ir à PIDE perguntar se tinham resposta. Eles iam empatando. Como o meu irmão estava em Angola, falei com o meu padrinho, França Borges, que conseguiu que fosse recebida pelo inspector Albuquerque. Gozou comigo: “Pois é, estes jovens metem-se em sarilhos, depois cá estamos nós para resolver os problemas...”. Perguntei qual era a acusação que tinham contra mim, mas não havia nada. Não passava de uma represália contra o meu marido, estavam a vingar-se em mim. Até porque o Fernando, tal como os outros desertores do grupo, tinha enviado centenas de postais a muitos militares e amigos a incitá-los à deserção. A PIDE tinha-se sentido provocada, e eu fui o bode expiatório. Disse ao inspector que ele sabia como é que o meu marido tinha saído do país, e que eu tinha um curso a começar em Agosto, não ia perdê-lo. Comecei à procura de soluções e planeava sair também pelo Gerês.

Ordem de serviço da PIDE - 6 de agosto de 1971
CLICAR PARA AUMENTAR.

Entretanto, uns amigos falaram-me de uma feira em Badajoz e sugeriram que tentasse sair por lá. Não avisei a família, meti a mala no carro deles e lá fomos. A brincar, disse-lhes que, se passássemos, pagava um jantar a todos em Badajoz. Na fronteira existia uma fila enorme de pessoas que iam para a feira. Quem ia a conduzir o carro, que tinha licença militar, recolheu os nossos passaportes e foi entregá-los. Quando voltou, disse-me que não tinham levantado problemas e que tinha obtido o carinho no meu passaporte. Não existiam computadores na altura, senão talvez não tivesse passado. Temi que eles fossem comunicar com a polícia espanhola. Mas também passei sem problemas essa fronteira, e lá paguei o jantar a todos, com muito gosto. Passámos a noite em Badajoz e, no dia seguinte, logo pela manhã, foram deixar-me na estação de comboio. Pedi-lhes para avisarem a minha irmã assim que chegassem a Lisboa. Quando cheguei a Madrid, apanhei um táxi para o aeroporto e logo o primeiro avião que saísse para a Europa. Tive a sorte de ter um avião a sair dentro de meia hora para Copenhaga, na Dinamarca. Estava assustada porque já tinham passado 24 horas e a polícia espanhola ainda podia impedir-me de embarcar. Tal não aconteceu. Quando cheguei a Copenhaga, liguei ao Fernando a avisar que ia apanhar a ligação para Estocolmo. Só voltei a Portugal depois do 25 de Abril. Foi a partir daí que passei a ter um processo na PIDE, não como mulher do Fernando, mas como refugiada política. Há uns anos, o Fernando encontrou no nosso processo, na Torre do Tombo, a publicação na Ordem de Serviço da Pide da interdição de saída do país aplicada às mulheres dos desertores do grupo. Curiosamente, ou não, essa interdição foi levantada depois de eu ter saído de Portugal. Tratou-se nitidamente de uma vingança.

A actividade política na Suécia

A Suécia para mim foi um deslumbramento. Liberdade a todos os níveis e uma sociedade muito mais evoluída. Mandávamos fotos para Portugal das manifestações em que participávamos contra a Guerra do Vietname e das colónias portuguesas, em que as mães levavam as crianças, e a polícia ia à frente com os seus carros, enquanto em Portugal continuavam a prender os manifestantes.

No Verão de 1971 os nossos maridos criaram o Comité de Desertores na Suécia, que se alargou a outras cidades como Uppsala. A nossa casa tornou-se o “porto de abrigo” para os desertores e refractários que à chegada precisavam de alojamento e apoio junto das entidades suecas. Recordo o que se passou em nossa casa quando do assassinato de Amílcar Cabral no Inverno de 1973. O Comité de Desertores organizou e preparou manifestações de protesto em Malmo e em Lund. Como não existiam bandeiras dos Movimentos de Libertação das colónias, foi na nossa casa que foram costuradas essas bandeiras. Elas são visíveis nas fotos da manifestação realizada em Lund.

A nossa filha nasceu na Suécia em Dezembro de 1972

Nesse mesmo Verão mudámo-nos para Lund no sul da Suécia. Aí ainda fiz dois semestres na Faculdade, um ano lectivo completo. Fui-me apercebendo ao longo deste tempo que se quisesse ir para o ensino, teria ainda de fazer um ano na Faculdade de Pedagogia em Estocolmo. E o exame de acesso era em sueco e muito rigoroso. Não teria condições de competir com suecos na sua língua materna. A bolsa que recebíamos até então era uma forma de empréstimo, que teríamos de ir reembolsando quando começássemos a trabalhar e a ganhar acima de determinado patamar. Achei que não fazia sentido continuar a estudar para depois ter de devolver o dinheiro, sem sequer conseguir trabalho na área que pretendia. Desisti e fui pedir um curso ao Instituto do Emprego. Aí já não era com bolsa, era paga para estudar. Tinha um leque de opções enorme e concorri a assistente de cirurgia. Não consegui. Depois, escolhi assistente de radiologia. Também não tive vaga. A minha terceira escolha foi enfermagem, onde acabei por ser aceite. Tive uma entrevista inicial durante a qual me perguntaram se tencionava ficar na Suécia toda a vida. Respondi afirmativamente, dado que não tinha alternativa. No ano seguinte deu-se o 25 de Abril. Comecei o curso de enfermagem com colegas que tinham acabado de fazer a escolaridade obrigatória. Fiz o curso com muita facilidade. Na Suécia, a enfermagem funcionava da seguinte forma: primeiro, havia uma parte teórica e, depois, ia-se para o hospital, para a parte prática. A junção das duas notas é que dava acesso ao segundo grau. Tive um bom desempenho em ambas as etapas. Gostei imenso de trabalhar na enfermagem. Entravámos às 7 horas da manhã e reuníamos todos, médicos e enfermeiros de todos os escalões, para fazer o relatório do que tinha acontecido durante a noite com cada um dos doentes. Tínhamos dois momentos de pausa para café, a meio da manhã e a meio da tarde, durante os quais reuníamo-nos todos na mesma sala. Normalmente, o café era acompanhado de um bolo, que os doentes, ao obterem alta, deixavam ficar como agradecimento e falávamos sobre os casos mais problemáticos. Estive em urologia, cirurgia, doenças infecto-contagiosas e também num lar de cuidados continuados e idosos.


Conceição Cardeira e a filha, 1973. Foto de Fernando Mariano Cardeira.

No primeiro trimestre de 1972, engravidei. No verão desse ano, fomos viajar para Itália de carro, com outro casal. O meu pai e a minha sogra vieram visitar-nos em Setembro. A relação dele com o meu marido foi muito boa e ele integrou-se perfeitamente. Até parece que rejuvenesceu com as visitas a lojas de pornografia. [Risos]. Na altura teria perto de 70 anos, de maneira que para ele era tudo uma novidade. A visita correu, de facto, muito bem.

A nossa filha nasceu no dia 13 de Dezembro, dia de Santa Luzia, padroeira da Suécia. Nessa altura foi lá a minha mãe. Ficou três meses connosco. Foi difícil para ela porque era Inverno e às três da tarde já era noite. Mas lá se aguentou. No Inverno de 1973, a nossa filha, com 3 meses, esteve internada no hospital com uma bronquiolite e no Verão, com o acordo dos médicos, mandámo-la para Portugal, para junto da minha mãe, fazer 2 meses de praia. Veio de avião acompanhada por uma hospedeira. Como ainda era muito pequena, não sentiu muito a diferença, e não sofreu com a ausência dos pais. A proximidade da praia fez-lhe muito bem, nunca mais voltou a ter problemas respiratórios. Nós aproveitámos a fazer férias pela Europa.

Regressámos a Portugal em Junho de 1974

Entretanto deixámos o apartamento mobilado de estudantes em Lund e mudámo-nos para um apartamento alugado em Malmo, a 15 km de Lund. Em Malmo havia uma Associação de Emigrantes Portugueses, alguns analfabetos, que não sendo refugiados políticos, ali trabalhavam por razões económicas. Com eles sentíamo-nos mais perto do nosso país. Festejávamos o Natal juntos, fazíamos teatro, montámos uma biblioteca e os licenciados eram pagos pelo governo sueco para alfabetizar os que não tinham frequentado a escola. Alguns adquiriram alguma consciência política connosco e acabaram por regressar a Portugal depois da revolução.

Quando se deu o 25 de Abril estava a tratar de um doente numa enfermaria das doenças infecto-contagiosas. Um deles disse-me que ouvira na rádio que estava em andamento uma revolução no meu país. Fiquei a ouvir as notícias e pude confirmar que era verdade. Na pausa para café liguei para casa. O Fernando achava que era difícil de acreditar e que tínhamos que aguardar mais notícias. Começaram a chegar mais pormenores e planeámos o nosso regresso. A minha irmã pediu-nos para termos calma. Era a época do Spínola e não existiam garantias de que os desertores fossem amnistiados. O Fernando podia chegar a Portugal e ser preso. O Spínola lá autorizou a amnistia aos desertores, com a condição de voltarem para a tropa. Até nos deu jeito, porque o Fernando teria o ordenado de tenente, e nós iríamos voltar sem nada.


Conceição Cardeira, 2017. Foto de Fernando Mariano Cardeira.

Só viemos no início de Junho. Ainda tive de dar um tempo para sair do hospital e era preciso desmontar a casa. Tínhamos mobilado tudo havia um mês com móveis do Ikea. A sorte é que os móveis se desmontavam com facilidade. [Risos]. Alugámos em grupo um vagão de caminho- de -ferro para enviar todo o recheio das casas das famílias dos desertores. Trouxemos tudo, desde as vassouras, às bicicletas. O vagão só chegou a Portugal em Setembro.

Como a experiência do ano anterior tinha corrido muito bem, decidimos mandar a Joana antes de nós de avião para Portugal, para podermos tratar da mudança e não a sujeitar a uma viagem tão longa num Volkswagen velho, em pleno verão. O médico dela também achava que era essa a melhor opção. Mas a Joana sofreu muito com isso. A minha irmã e o meu cunhado foram buscá-la ao aeroporto e contaram-nos que ela vinha com um ar tristíssimo. A minha filha só queria a minha irmã, provavelmente por a achar parecida comigo. Nunca imaginei que fosse assim. Quando chegámos a Portugal teve uma reação muito negativa, virou-nos a cara e não quis ir para o nosso colo o dia todo. Foi muito complicado. À noite, fui deitá-la. Lá me aceitou. Ela, que era uma criança que costumava adormecer muito bem sozinha, durante muito tempo só adormecia de mão dada connosco. Estava sempre desconfiada que fossemos embora. Teve mesmo um trauma. Depois de ela própria ter sido mãe, questionou-me como é que eu tinha tido coragem de a mandar sozinha. Expliquei que fiz o que pensei ser melhor para ela e pedi-lhe desculpa [Risos].

O Fernando apresentou-se no quartel e, enquanto aguardou que lhe dessem uma função para desempenhar, esteve a receber o ordenado mensal de seis contos, o que não era nada mau. Fui inscrever-me na Faculdade, para acabar o curso. As minhas colegas já estavam todas colocadas. Não quis continuar na enfermagem. Na Suécia, o serviço nos hospitais era excepcional, com condições que não existiam em Portugal. Aqui tudo funcionava ao contrário do que tinha aprendido, nomeadamente em termos de higiene. Estivemos ainda um ano em casa da minha mãe. Algumas pessoas do Sobral que só tinham a quarta classe quiseram voltar a estudar, pelo que a minha mãe arranjou um grupo para formarmos um curso de adultos à noite, na garagem lá de casa. Eu leccionava a parte de Letras e o Fernando a de Ciências. Vivemos esse ano assim. Ele tinha o ordenado de tenente, eu vinha às aulas à Faculdade, e à noite ensinávamos os adultos.

Quando acabei o curso, concorri para um colégio privado em Santa Iria da Azoia. O Fernando foi, a pedido dos militares de Abril, para a televisão a seguir ao golpe do 11 de Março, antes do início do Verão quente de 1975, e aí esteve um ano como diretor de programas e director de informação. Nesse Verão houve noites em que nem conseguia vir dormir a casa devido a manifestações e barricadas nas estradas. Saiu da televisão em Abril de 1976 e foi para os Serviços de Apoio do Conselho da Revolução. Em Julho desse ano, nasceu o nosso segundo filho, que aqui em Portugal teve uma infância bem mais calma do que a irmã. O Fernando só acabou o curso no Técnico em 1977. Regressar a Portugal significou o início de uma nova vida. Não tínhamos trabalho e os cursos universitários estavam incompletos. Assim como os diplomas que leváramos em 1970 não nos tinham dado qualquer equivalência na Suécia, o mesmo aconteceu com os certificados suecos nas universidades portuguesas. Retomámos os cursos no ponto em que os tínhamos deixado. Mas a experiência que adquiri na Suécia a nível académico e laboral contribuiu muito para a minha formação pessoal e profissional e tem sido muito útil ao longo da minha vida como professora, mãe e até avó.


NOTAS BIOGRÁFICAS:

Experiência política:
- Simpatizante dos partidos FEC-ML e depois da UDP.
- Representante dos GDUPs na Assembleia Municipal de Vial Franca de Xira entre 1976 e 1980.
- Actualmente simpatizante do Bloco de Esquerda
- Membro da Direcção da Associação de Residentes de Telheiras entre 2014 e 2016. Actualmente participante nas actividades promovidas pela Associação.

Actividade Profissional:
- Professora do 2.º e 3.º Ciclo durante 34 anos.
- Orientadora pedagógica dos estágios da profissionalização em exercício.
- Participante em projectos no âmbito do programa da EU Comenius.
- Participação na gestão democrática das Escolas de 1979 a 1983 na Póvoa de Santa Iria e de 1988 a 1994 na Escola da Brandoa.

 

Termos relacionados Mulheres de Abril, Sociedade
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