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Movimento dos Sem Terra do Brasil aposta em campanha contra a fome

“Natal sem fome” é uma campanha que teve início no Dia Internacional dos Direitos Humanos, 10 de dezembro, e se estende até janeiro de 2022. Está a levar alimentos agro-ecológicos a muitos lares brasileiros. Solange Engelmann entrevistou dois dirigentes do movimento.
Campanha de doação de alimentos. Foto: Ana Olivia Godoy/Carta Maior.
Campanha de doação de alimentos. Foto: Ana Olivia Godoy/Carta Maior.

Num cenário de crises e aumento da fome no Brasil, e dando continuidade às ações de solidariedade que somente durante a pandemia da Covid-19, desde o ano passado, já doaram mais de cinco mil toneladas de alimentos e um milhão de marmitas em periferias urbanas e rurais do Brasil, o Movimento dos Sem Terra lança a campanha “Natal Sem Fome, Movimento Sem Terra Cultivando Solidariedade”, que se estende por todo país entre o final do ano e início de 2022.

A campanha pretende distribuir alimentos para a ceia de milhares de famílias vulneráveis em todas as grandes regiões do Brasil. A ação é parte de uma frente nacional contra a fome, que conta com a participação do MST e de diversos movimentos, organizações e entidades que enfrentam a fome e a insegurança alimentar.

Os alimentos que farão parte das cestas são produzidos por trabalhadores Sem Terra em assentamentos e acampamentos da Reforma Agrária Popular de todo país. A campanha também recebe doações em dinheiro de pessoas que querem contribuir com qualquer valor para a doação de alimentos e a realização de ceias populares.

Para entender melhor como funciona a campanha e como as famílias Sem Terra se prepararam para mais este conjunto de ações solidariedade a partir dos territórios da Reforma Agrária do MST, leia a entrevista com o militante do Setor de Formação do MST e da direção estadual do MST no Ceará, José Ricardo, e com Ceres Hadich, assentada no Paraná e da Direção Nacional do MST.


Qual é o objetivo do MST com a campanha “Natal Sem Fome, Movimento Sem Terra Cultivando Solidariedade”?

José Ricardo: É a continuidade de um processo mais amplo de solidariedade, que resultou na doação de quase cinco mil toneladas de alimentos saudáveis e agro-ecológicos, mais de um milhão de marmitas e na formação de centenas de agentes populares nas frentes de atuação nas periferias de todo do Brasil, construída a partir da estratégia de classe para resistir, enfrentar e combater o vírus da Covid-19, mas também da violência, da bala, da fome e do governo genocida.

A fome é um problema estrutural do Brasil, expressão da opção do Estado brasileiro pela hegemonia do agro-negócio, baseado na concentração da terra e do rendimento, na produção de commodities para exportação, destruição ambiental, privatização dos bens naturais, exploração da mão-de-obra e do uso intensivo de agro-tóxicos, um modelo de produção que não produz alimentos, e é ameaça constante à soberania alimentar. Este modelo é ainda mais perverso quando expropria, violenta, criminaliza e assassina indígenas, camponeses, quilombolas, Sem Terra, povos das águas e das florestas, militantes e dirigentes de organizações populares.

Para milhares de brasileiros está a ser negado o acesso e o direito de se alimentar e retirados direitos, principalmente às políticas de transferência de rendimento e de armazenamento de alimentos, com a subida do preço dos combustíveis, do gás de cozinha e da cesta básica.

Quando levamos a nossa produção de alimentos saudáveis e agro-ecológicos, estamos também a denunciar o projeto genocida do governo e do capital no campo, que lucra com o negócio da comida. Queremos também avançar na solidariedade de classe, dialogando e disputando o problema da fome, anunciando a importância da Reforma Agrária Popular e da soberania alimentar.

Ceres Hadich: A ação do Natal Sem Fome insere-se nas ações de solidariedade que o Movimento sempre praticou permanentemente. E nesse período da pandemia transformou-se numa prática bastante intensiva e continua com essa determinação de realizar um Natal acolhedor, que promova justiça social, que traga também um pouco de acalento àquelas famílias que hoje passam fome no país.

Ceres Hadich, da Direção Nacional do MST. Foto: Arquivo pessoal

Em que período a campanha ocorre e como são realizadas as doações?

José Ricardo: A campanha já tem estado a ser cultivada e organizada nos nossos assentamentos e acampamentos há alguns meses, quando semeámos algumas centenas de hectares de terra através do mutirão e em cooperação nos roçados solidários. O objetivo era que as colheitas se realizassem entre os dias 10 de dezembro e 06 de janeiro, período que serão intensificadas as doações em todo o país.

As doações serão principalmente de alimentos agro-ecológicos frescos, diversos, de qualidade e em quantidade, organizados nas cestas, retirados nos bancos de alimentos ou nas cozinhas comunitárias.

A campanha amplia-se quando nos juntamos a outros parceiros em luta, realizando recolha de alimentos e armazenamento de recursos com entidades, comércios, doações voluntárias e nas organizações. Também estamos a receber e pretendemos doar livros, roupas, mudas de frutas, plantas nativas e medicinais, mascaras e álcool em gel e remédios caseiros.

Que tipos de alimentos estão a ser produzidos e como as famílias Sem Terra se organizam para as doações?

Ceres: Uma das características das nossas ações de solidariedade é priorizar alimentos que produzimos nos nossos territórios: acampamentos, assentamentos, cooperativas. Dialogam com a realidade local, com a sazonalidade, dependem dos produtos que estão a ser produzidos em determinado período do ano.

Mas, sempre prezando pela diversidade, a fartura e a qualidade desses produtos. Em diferentes regiões do Brasil hoje, vamos poder contar com uma diversidade de legumes, uma diversidade de hortaliças. Frutas, que agora no verão começam a existir com bastante abundância nos nossos territórios e também os nossos produtos processados, como por exemplo, o leite o arroz, o feijão, fruto do trabalho das nossas cooperativas.

As campanhas de solidariedade dialogam com a realidade dos locais. Da organicidade das famílias, das possibilidades de contribuição, então, nunca nos organizamos para doar aquilo que sobra, organizamo-nos para distribuir aquilo que temos.

José Ricardo, militante do setor de formação do MST e da direção estadual do MST no Ceará. Foto: Arquivo pessoal

Em que locais os alimentos da campanha serão distribuídos e a que público se pretende chegar?

José Ricardo: Faremos doações prioritariamente nas favelas, nas ocupações, nos abrigos, para a população que hoje vivem em condição de rua, em comunidades das periferias e no meio rural, atendendo principalmente quem está com fome, sem renda, emprego e teto.

O mapeamento desses locais é resultado de um trabalho que já existe através de várias organizações parceiras e do resultado do trabalho organizado durante a pandemia pela campanha Periferia Viva. Pelo MST pretendemos organizar ações nos mais de 1.200 municípios em que estamos organizados no país.

Qual a importância da campanha no combate à fome e à extrema pobreza no país?

José Ricardo: Sabemos que o problema não será resolvido com esta ação mas para quem não tem nada e está em total desproteção e sem assistência do Estado, será uma boa ajuda. A campanha é um gesto de humanidade, uma atitude de tomada de posição na luta de classe, estamos a colocar o que temos de mais importante para servir o outro, levando comida saudável, farta, diversa e acessível.

Também estamos denunciar o modelo do capital onde a fome é condição essencial, um projeto de sociedade que tem como resultado a desigualdade, miséria e barbárie. A fome não é um castigo, destino, fatalidade ou desejo de Deus, é uma produção social que numa política de um governo genocida se transforma numa forma intencional e política de governo para se livrar de uma parte do povo.

O nosso mutirão de doação para o Natal Sem Fome iniciou-se no Dia Internacional dos Direitos Humanos, 10 de dezembro, com uma forma concreta de mobilização e ação política, denúncia do modelo do capital no campo e de destruição do bens naturais comuns e de todas as injustiças, violações, negação de direitos e dos crimes do capital, governo e do Estado.

Como a campanha mostra a importância da solidariedade e a necessidade da Reforma Agrária Popular, defendida pelo MST?

José Ricardo: É uma forma de retribuir e reconhecer todo o apoio que a nossa luta no campo sempre tem recebido da sociedade e das suas organizações da classe trabalhadora no meio urbano.

Apresentamos a nossa identidade camponesa e o nosso movimento, a importância da luta pela terra, da cooperação, da organicidade, da agro-ecologia, a Educação do Campo, entre outros. A solidariedade ativa é uma atitude, princípio, que torna expressão concreta da vida no seu acto de partilha, ajuda mútua, camaradagem e reciprocidade.

A Reforma Agrária Popular é uma possibilidade concreta de solucionar alguns dos problemas do povo, rompendo as cercas do latifúndio e dando uma função social à terra, sendo guardiões dos bens comuns e fazendo da agro-ecologia um modo de produção que gera vida saudável e constrói as condições de autonomia para a soberania alimentar e as bases para um projeto popular para o país.

Como tem sido a receção às doações do MST nas ações de solidariedade durante a pandemia?

Ceres: Quando chegamos às comunidades é sempre um momento de grande emoção e de tristeza, por sabermos que infelizmente há muita gente hoje desalentada, desamparada, a passar fome. São homens, mulheres, crianças, idosos, pessoas, famílias inteiras que não têm o que colocar na mesa na próxima refeição. Então, esta é uma emoção muito forte, que nos coloca numa condição de responsabilidade, saber que aquilo que estamos a fazer é importante para garantir o mínimo de dignidade, pelo menos naquele período àquelas famílias, que nos relacionamos durante a doação.

Mas é também um sentimento de fraternidade, afetividade, um reconhecimento do trabalho do MST em manter o esforço de garantir a permanência das ações e um reconhecimento por parte das famílias, das lideranças das comunidades e há um sentimento mútuo de gratidão. Temos conseguido estabelecer canais de diálogo, de construção, de outras ações de cooperação e de trabalho com essas comunidades, a partir das nossas ações de solidariedade.

Qual é a expectativa do MST em relação à receção da população que necessita desses alimentos e o impacto da campanha na sociedade?

Ceres: A expectativa é que a gente possa garantir, mais uma vez, cestas diversificadas, com qualidade e bastante fartura para a maioria das famílias. Esperamos continuar a fazer a nossa parte, contribuindo para enfrentar este momento tão duro pelo qual passamos, em que para além de uma pandemia temos uma crise estrutural profunda do sistema capitalista, com consequências em todas as dimensões da nossa vida. E no Brasil ainda vivenciamos as mazelas deste governo genocida, neofascista e antipopular que é o Governo Bolsonaro.

Continuar com as ações de solidariedade é continuar com a resistência, apostando que é possível ter esperança, que é possível acreditar num mundo melhor. E nada melhor do que um momento de fim do ano, do Natal, para refletir sobre isso. Continuar com as ações de solidariedade indica-nos que é possível continuar a acreditar, que a Reforma Agrária Popular é o caminho para produzir alimentos saudáveis, é o caminho para construir pontes com a classe trabalhadora do campo e da cidade e é o caminho construirmos um mundo melhor.

José Ricardo: Para as nossas famílias acampadas e assentadas está a ser uma missão honrosa, um ato gratificante, de formação de consciência, místico e de intensa cooperação e solidariedade. O MST já é conhecido em muitos lugares onde pretendemos fazer as doações e a receção é sempre muito afetuosa, carregada de emoções, respeito e troca de saberes.

Mais do que levar uma cesta, uma marmita ou outra lembrança, queremos trocar experiências, dialogar, esperançar, anunciar a Reforma Agrária Popular, levar motivação para organizar e apontar a luta como o caminho para resolver os nossos problemas. Esperamos ampliar laços, organizar o trabalho de base e ampliar alianças com a classe trabalhadora e as suas organizações. Em alguns locais organizámos ceias com comunidades e povo em situação de rua no dia de Natal, queremos nessa ação de classe, levar alimentos para o corpo, a mente, o espírito e o coração.


Artigo publicado originalmente na Carta Maior. Editado para português de Portugal por Esquerda.net.

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