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Moscovo: Meca dos movimentos reacionários europeus

Moscovo aparece hoje como a nova Meca dos movimentos reacionários. Financiando Marine Le Pen, o Kremlin aposta numa das forças mais perigosas da Europa de amanhã. Por Frédéric Koller.
Marine Le Pen com o vice-primeiro-ministro russo Dmitri Rogozin, Moscovo, janeiro de 2014

Aonde ir quando se é um partido de extrema direita com alguns problemas de tesouraria e grandes ambições nacionais? A Moscovo, claramente. Foi o que fez a Frente Nacional (França) de Marine Le Pen que apresenta como objetivo a presidência francesa, em 2017. Fala-se de um empréstimo de 9 milhões ou de 40 milhões, como informa do site Mediapart. Pouco importa. O facto é que o Kremlin está disposto a dar sérias ajudas às personalidades políticas europeias que mostrem um perfil pró-Putin. Há-as em muitos partidos, mas essas vozes concentram-se na esquerda da esquerda e, ainda mais, na direita da direita.

A Frente Nacional não é, efetivamente, um caso isolado. A imprensa alemã revelava, na segunda-feira, que os serviços de informação russos financiariam o partido eurocético AfD (Alternativa pela Alemanha). Na Áustria, são os socialistas que acusam o FPÖ (Partido da Liberdade do defunto Jörg Haider) de desfrutar do dinheiro russo. As autoridades húngaras e letãs, por sua vez, abriram investigações sobre os partidos pró-russos de Jobbi, [acrónimo de Jobboldali Ifjúsági Közösség, que significa “o melhor”] e Latvijas Krievu Savieeniba [União russa da Letónia] suspeitos de serem apoiados pelo Kremlin. Nigel Farage, o dirigente eurofóbico do UKIP britânico (UK Independence Party - Partido pela independência do Reino Unido), admira Vladimir Putin mais do que qualquer outro chefe de estado. E proclama-o alto e bom som. Um fascínio partilhado pelos líderes da Liga Norte italiana e por muitas outras figuras populistas.

A que se deve o facto do chefe de estado russo se ter convertido no herói dos ultraconservadores europeus? Porque é que o ex-agente da KGB, que denuncia os “fascistas” no poder na Ucrânia, causa tanto entusiasmo entre os nostálgicos da antiga ordem?

Vladimir Putin não é um ideólogo. Mas rodeou-se de personagens que se encarregaram de formular um discurso que forma um sistema de pensamento ancorado numa certa tradição russa, mas não só nela. Pouco a pouco, o chefe do Kremlin ganhou um novo estatuto, bastante maior além das suas fronteiras. Ninguém encarna melhor do que ele o desencanto face às ideias que dominam a atual ordem mundial1. É a voz dos humilhados e humilhadas, ou melhor, de quem se sente como tal perante as elites mundiais cada vez mais distanciadas dos povos.

O putinismo é um nacionalismo que exalta uma identidade crispada e o regresso à potência perdida. É a defesa da cristandade, a afirmação da família, da virilidade, da soberania. É um estado paternalista, clientelista e protecionista. É um imperialismo contrariado que se define melhor perante aquele a que se opõe: o antiamericanismo, o antiatlantismo, o antimulticulturalismo, a antiglobalização, o antiislamismo, a “antitolerância” quanto aos direitos humanos, a homofobia, a recusa das elites e do capitalismo liberal. Os valores universais, corpo qualificado de “ocidental”, devem ser substituídos por uma cultura de essência nacional.

O putinismo é o primo do nacional-comunismo chinês e não deixa de ter afinidades com o Tea Party americano. Mas é com o populismo europeu que ele está em maior sintonia. As sanções da União Europeia contra o Kremlin aceleraram esta aproximação. A suposta submissão dos europeus a um plano americano de desestabilização da Rússia conjuga-se com a ideia de que as elites tecnocráticas do continente estão desligadas das aspirações populares. Há um complot!

Mas atenção: de um lado está Putin e o putinismo, do outro a Rússia e os russos. Não é o mesmo. Ainda que uma maioria de russos se reconheça atualmente na sua política. De igual modo, as diversas vozes na Europa que estão a favor da Rússia na questão ucraniana ou denunciam as sanções europeias, não são forçosamente pró-Putin.

É necessário questionar a atitude dos diversos atores da crise ucraniana. É saudável questionar-se sobre as estruturas do poder num mundo cada vez mais interligado. Pode-se simpatizar com os russos, cujas tradições são muito mais ricas do que a caricatura que Putin oferece delas. Mas não se pode negar que Moscovo aparece hoje como a nova Meca dos movimentos reacionários. Financiando Marine Le Pen, o Kremlin aposta numa das forças mais perigosas da Europa de amanhã.

Artigo publicado no diário suíço Le Temps, pág. 2, sábado-domingo 29-30 de novembro de 2014 e disponível em alencontre.org . Tradução de António José André para esquerda.net.


1 Stéphane Jourdan e Anya Stroganova, a 15 de setembro de 2013, escreviam no Slate.fr: “Em geral, os intelectuais da direita radical estão a ser cada vez mais cortejados pelos russos. O ensaísta Alain de Benoist foi convidado pela Universidade Herzen de São Petersburgo, em abril de 2012. Esta conferência sobre a mundialização era coorganizada pela presidente do comité literário franco-russo, Irina Rekchan. De Benoist recebia, em maio de 2013, numa sumptuosa sala parisiense, o politólogo Alexandre Duguin que apresenta a constituição duma nova Eurásia, espécie de bloco euro-russo suscetível de se contrapor ao imperialismo americano...

Esta aproximação entre Moscovo e as diversas componentes da extrema direita hexagonal opera-se evidentemente em nome de valores comuns: a mesma recusa da “nova ordem mundial” imposta pela América e pelos seus aliados, o mesmo gosto pela autoridade, o mesmo conservadorismo no plano dos costumes.

A extrema direita francesa tenta ganhar credibilidade mostrando-se ao lado do “grande irmão” russo. Por seu lado, o Kremlin prossegue também os objetivos pragmáticos. A FN é o “único aliado ideológico com o qual o Kremlin pode contar, em França”, sublinhava Alexis Prokopiev, presidente da associação Rússia-Liberdades. “Esta aproximação é para uso político interno”, sublinhava o especialista da extrema direita, Jean-Yves Camus. “Em temas como os direitos dos homossexuais, dos opositores políticos, trata-se de mostrar aos russos que o seu poder não está isolado, que é apoiado por partidos da primeira línha na Europa ocidental. A extrema direita francesa, para além da FN, opõe-se à Femen, às Pussy Riot, ao casamento para todos/as. Os católicos integristas que visitam Moscovo partilham o nacional clericalismo frequente na Rússia. Isto basta-lhes para serem acolhidos ” [redação de A l´encontre].

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