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Morreu Manuela Barros (1938-2022)

Manuela Barros Ferreira, eminente filóloga, resistente antifascista e fundadora do Bloco de Esquerda, faleceu este sábado de manhã no Hospital de Serpa.

Manuela Barros Ferreira nasceu em Braga em 1938, onde recebeu o nome de Manuela Alexandra Queiroz de Barros Ferreira. Começou a falar na ilha de São Miguel, aprendeu a ler em Cabeceiras de Basto e a contar em Guimarães, leu o primeiro livro em Beja, descobriu a neve em Vila Real e a amizade em Mirandela.

No Porto andou em Arquitetura e Pintura e ali conheceu o amor, a prisão da PIDE e os ideais que se tornaram a sua estrela polar. Quando estalou a guerra colonial (1961), o marido recusou-se a ir matar. Com ele e mais cinco companheiros, fugiu, grávida, para Marrocos, onde foram ambos desenhadores de Urbanismo. O casal seguiu para a Roménia com uma filha. Durante onze anos foram, sob pseudónimo, locutores da Rádio Bucareste. Tiveram outra filha e deram apoio a estudantes chegados da África e América Latina. Depois de recuperado o verdadeiro nome, Manuela formou-se em Filologia Românica. Em 1973 regressou a Portugal, foi novamente presa, desta vez em Caxias, e libertada sob caução. Foi admitida como bolseira de investigação no Centro de Estudos Filológicos, ligado à Universidade de Lisboa. O marido, Cláudio Torres, regressou a Portugal logo após o 25 de Abril.

Doutorou-se em 1987. Durante trinta anos trabalhou em projetos de Geografia Linguística, gravando extensos testemunhos dos dialetos falados nas aldeias do continente e ilhas e sistematizando os dados para o Atlas Linguístico de Portugal, Atlas Linguístico dos Açores, Atlas Linguístico Românico e Atlas das Línguas da Europa (geográfica). Entre 1997 e 1999 coordenou do ponto de vista científico a equipa que instituiu a Convenção Ortográfica da Língua Mirandesa, o que contribuiu para o seu reconhecimento como língua oficial. Criou em 2001 o primeiro site dedicado a essa língua, com um fórum para discussão de problemas linguísticos.

Aposentou-se em 2002 . Trabalhou até 2009 como investigadora do Campo Arqueológica de Mértola, coordenando a equipa de linguistas luso-espanhola que publicou no site do CAM o recurso eletrónico “Bibliografia Língua e Cultura na Fronteira Norte-Sul” (2007).

Além de numerosos artigos de carácter linguístico, a partir de 2003 tem publicado livros de ficção: “A cor das nuvens”, “Meia Bola”, “O medronho ponto por ponto”, “A Senhora de Todas as Mortes” (editora Afrontamento) e, com Cláudio Torres, “Casa, casarão, minha casinha” (editora ALTUM). Pelo seu teor político, destaque para “Contos de querer e poder” que, apesar do seu aspecto gráfico, não fora concebido para crianças.

Vivia em Mértola com a família. Recentemente, publicou o livro “Relatório Circunstanciado de uma Vida a Dois, pelo menos”. Não aceita o chamado “Acordo Ortográfico 1990”.

Em 2019, no âmbito do projeto “Mulheres de Abril”, Manuela Barros deu o seu testemunho ao Esquerda.net sobre a sua história de resistência e de luta contra a ditadura.

O corpo de Manuela Barros estará amanhã, domingo, na Casa Mortuária de Mértola, a partir das 9h e será cremado na crematório de Faro às 16h.

O Esquerda.net e a direção do Bloco de Esquerda expressam as suas mais sentidas condolências à família e amigos de Manuela Barros.

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