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Morreu José Ruy, nome histórico da banda desenhada nacional

Foi autor de cerca de 40 álbuns e desenhou até morrer, aos 92 anos. Publicou nas mais conhecidas revistas nacionais de banda desenhada e ilustrou inúmeros outros projetos.
José Ruy. Foto da Câmara Municipal da Amadora.
José Ruy. Foto da Câmara Municipal da Amadora.

José Ruy Matias Pinto faleceu esta quinta-feira aos 92 anos. Foi autor de Banda Desenhada, ilustrador, pintor, técnico de artes gráficas e decorador. Nascido na Amadora a 9 de maio de 1930, cedo orientou a sua vida para o desenho. Tirou o curso de Desenhador Litográfico na Escola António Arroio, onde conheceu várias figuras que se tornaram marcantes na Banda Desenhada portuguesa como Eduardo Teixeira Coelho e José Garcês. Logo aos 14 anos publicou o seu primeiro trabalho nesta área na revista “O Papagaio” com a qual passou a colaborar regularmente fazendo também ilustrações e escrevendo contos.

Fá-lo-á em seguida em todas as grandes revistas do género em Portugal, mantendo contudo ligação àquela publicação. Em 1952, estreia-se a desenhar na revista “O Mosquito”, aquela que tinha sido a sua grande influência desde criança. Antes disso, já aí trabalhava a fazer legendagem e preparação de cores. E nesse mesmo ano participa na organização da Exposição de Literatura Infantil e expõe aí o seu trabalho. Na segunda série de “O Mosquito”, em 1960, passa a ser diretor artístico da publicação.

"Cavaleiro Andante", "Camarada", "Spirou", "Tintin", “Seleções BD”, “Pisca-Pisca” e "Mundo de Aventuras" são as outras conhecidas revistas infanto-juvenis onde o seu trabalho será publicado. Isto para além de ser responsável gráfico em vários projetos de revistas mas também nas Publicações Europa-América, a Livraria Bertrand e na Editorial Íbis. Será ainda ilustrador de livros e e revistas como o Mundo Feminino, Almanaque Alentejano, Almanaque do Algarve, Seleções de Mecânica Popular e o Diário de Notícias. Dedicar-se-á ainda a desenhar as histórias de várias localidades: Amadora, Sintra, Porto e Caldas da Rainha.

No “Cavaleiro Andante” publicou histórias como a Peregrinação de Fernão Mendes Pinto, Ubirajara com argumento de José de Alencar e O Bobo, uma adaptação da obra de Alexandre Herculano.

Aliás, as adaptações de obras de literatura, os temas de história e as biografias vão marcar toda a sua obra, como por exemplo a adaptação de “Os Lusíadas”. Também conta a expansão marítima portuguesa através de “As Aventuras de Porto Bomvento” numa série que começa a publicar em 1987 e termina em 1992. Entre as figuras cuja vida desenhou contam-se Aristides de Sousa Mendes, Humberto Delgado, Chaplin e Beatriz Ângelo.

A série “Os Lusitansos”, de 1972, publicada no jornal “A Capital” é vista como uma crítica acérrima à ideologia salazarista. Depois do 25 de Abril, é publicada com o título “As Aventuras de 4 Lusitanos e 1 Porca”.

José Ruy também desenhou um livro sobre a história da língua e do povo mirandês, com a coordenação científica de Amadeu Ferreira, que o traduziu para mirandês a par de outros álbuns do autor como "Os Lusíadas" e "João de Deus: A Magia das Letras".

José Ruy produziu cerca de 40 álbuns e continuou a trabalhar até ao fim da vida. Em 2020, tinha publicado mais um trabalho de cunho histórico, “O Heroísmo de uma Vitória”, sobre a guerra civil entre liberais e absolutistas nos Açores. Tinha pronto para publicação já o primeiro volume das “Lendas japonesas”, de Wenceslau de Moraes, que não chegou a ser publicado.

Faleceu na sua cidade natal, à qual sempre esteve ligado. Escreveu sobre ela uma Banda Desenhada, na sua primeira edição, em 1990, recebeu Troféu de Honra do Festival Internacional de BD da Amadora e foi galardoado com a Medalha de Ouro de Mérito e Dedicação deste concelho. O seu espólio de originais, esboços e pranchas de Banda Desenhada foi doado ao Centro Nacional de Banda Desenhada e Imagem, na Amadora.

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