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Monsanto usou Partido Republicano para pressionar investigadores

Documentos revelados recentemente demonstram que a gigante Monsanto esteve por trás do ataque político do Partido Republicano à agência internacional que qualificou o glifosato como "potencial cancerígeno".
Monsanto usou Partido Republicano para pressionar investigadores
Foto de Mike Mozart/Flickr.

Classificado desde 2015 pela IARC como um “provável carcinógeno”, o glifosato, ingrediente ativo do herbicida Roundup, é alvo de debate desde então. No Congresso dos EUA os eleitos do Partido Republicano têm feito pressão para retirarem os fundos deste grupo da Organização Mundial de Saúde, utilizando o apoio aos agricultores americanos como argumento na defesa do herbicida mais utilizado no mundo. Porém, sabe-se agora que este ataque político à IARC foi orquestrado pela Monsanto, empresa produtora do Roundup. 

Há já vários anos que um número cada vez maior de pessoas acusa a Monsanto de falhar em alertar os consumidores sobre o perigo deste popular herbicida (responsável por lucros de milhares de milhões de dólares). A Monsanto rejeita quaisquer acusações, afirma que o spray é inofensivo para seres humanos, ao mesmo tempo que internamente recomenda aos seus trabalhadores o uso de luvas e equipamento de proteção quando em contacto com o mesmo. 

Em 2018, Dewayne Johnson fez história ao ser a primeira pessoa a vencer a Monsanto em tribunal num processo relacionado com o Roundup. Um tribunal de São Francisco condenou o gigante agroquímico a pagar 289 milhões de dólares por não ter informado o público sobre a perigosidade do herbicida Roundup, na origem de um cancro de Dewayne Johnson, um jardineiro com linfoma não-Hodgkin. Posteriormente, um juiz reduziu o valor a 78 milhões. Em tribunal tinha ficado provado, através da apresentação de emails internos da empresa, que a Monsanto tinha ignorado repetidamente os avisos de especialistas em relação à perigosidade da substância. 

Sabe-se agora que os advogados e lobistas da Monsanto orientaram legisladores republicados e coordenaram esforços para pôr em causa a credibilidade da IARC e da Organização Mundial de Saúde e reduzir o apoio do país a este órgão internacional, noticiou o Intercept

Entre os documentos divulgados pelo escritório de advogados Baum Hedlund constam emails e transcrições de depoimentos. Neles, sugere-se também que a Monsanto usou da sua influência para influenciar “funcionários-chave da EPA, USTR, USDA e do Departamento de Estado, bem como membros do Congresso” de modo a pôr em causa o processo científico da IARC, mais concretamente sobre a sua posição face ao glifosato e o seu potencial cancerígeno, criando dúvidas sobre o impacto da decisão na agricultura e comércio internacional. 

Além disso, divulga o Intercept, lobistas da Monsanto tiveram reuniões com um funcionário do Departamento de Saúde e Serviços Humanos e foram feitos planos para publicar anúncios em forma de cartas assinadas por terceiros em jornais da capital do país, “bem como preparação para usar um Comité de Agricultura do Senado como um local para que a EPA reafirme o seu apoio ao glifosato”.

O jornal revela também que Todd Rands, ex-advogado da Monsanto que trabalhava com o FTI, “enviou por e-mail um rascunho de uma carta ostensivamente escrita pelo deputado Rob Aderholt, republicano do Comité de Apropriações da Câmara, dirigido ao Dr. Francis Collins, diretor do National Institutes for Health”, órgão que detém a responsabilidade da maior parte das investigações federais na área da saúde pública e o maior financiado da IARC. Nessa carta lia-se que o glifosato “não causa cancro” e acusa-se a IARC de fazer “ciência falsa”, terminando com a ameaça de reavaliar o orçamento do NIH de modo a garantir que a agência esteja “comprometida em financiar apenas organizações que produzem informações e conclusões baseadas em ciência sólida, processos robustos e metodologia confiável.”

Quando confrontado com esta carta, Todd Rands desvalorizou a situação, afirmando que este tipo de ghostwriting era “prática comum em Washington”.

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