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Monkeypox: ONG exigem que o produtor de vacinas partilhe o conhecimento

Face à falta de vacinas para o vírus monkeypox, três ONG apelam ao único fabricante que partilhe o conhecimento para que possam ser fabricadas em larga escala. OMS destaca colaboração entre autoridades de saúde e ativistas em Portugal.
Imagem Global Justice Now.

As ONG Global Justice Now, Just Treatment e Stop Aids escreveram em meados de agosto à empresa dinamarquesa Bavarian Nordic, o único fornecedor das vacinas para o monkeypox - também conhecido por varíola dos macacos - atualmente em distribuição na Europa e Estados Unidos. Os ativistas exigem que a empresa partilhe o conhecimento por detrás da vacina, de forma a que ela possa ser produzida noutras partes do mundo. "Não podemos gerir crises de saúde pública desta forma", queixa-se o diretor da Global Justice Now.

"A vacina contra a varíola dos macacos conhecida como Jynneos recebeu um financiamento substancial do governo dos EUA mas, tal como a maioria dos medicamentos modernos, os direitos de propriedade do medicamento pertencem a uma única empresa, que pode decidir quem pode produzir o medicamento e quem o pode comprar", apontam os ativistas, lembrando que ocorreu o mesmo com as vacinas para o covid-19, o que provocou "uma enorme desigualdade global na distribuição, uma vez que um punhado de empresas multinacionais controlou o fornecimento e vendeu a maioria das doses a países ricos".

Além do monopólio do fabrico da vacina, os ativistas apontam que a empresa dinamarquesa encerrou uma parte da sua linha de produção este ano, limitando assim a produção, enquanto a esmagadora maioria das doses produzidas tiveram como destino os Estados Unidos da América. Enquanto isso, países como o Reino Unido queixam-se da escassez de vacinas, enquanto os países africanos ainda não receberam uma única dose, acusam.

"A saúde das pessoas por todo o mundo está a ser subjugada aos lucros das companhias farmacêuticas. Embora esta doença seja diferente, neste aspeto repete-se o mesmo que se passou no covid", refere Nick Dearden.

"Se houvesse algum interesse nas vidas das pessoas do sul global, esta doença nunca se teria tornado num problema maior", prossegue o ativista, concluindo que "se a doença se tornar endémica, vão morrer pessoas e a responsabilidade caberá a este sistema das farmacêuticas".

OMS destaca colaboração entre autoridades e ativistas em Portugal

Numa nota publicada esta terça-feira, a Organização Mundial de Saúde destacou o trabalho de colaboração entre as autoridades de saúde e ativistas LGBTI+ para controlar o contágio desta doença, com a consulta aos representantes da comunidade antes dos anúncios públicos e o envolvimento de proprietários de bares e saunas na divulgação dos materiais de informação.

Também a organização do Pride e o Grupo de Ativistas em Tratamentos (GAT) foram envolvidos no trabalho de prevenção, com a criação de linhas de atendimento e campanhas direcionadas à população-alvo "sem estigmatizar ou culpabilizar, sendo fatores importantes em chamar a atenção das pessoas para as mensagens e no sucesso das campanhas", aponta a OMS, destacando também a colaboração do GAT no programa de vacinação, com um dos seus centros a ser escolhido como um dos três pontos de vacinação na Área Metropolitana de Lisboa.

ILGA quer mais vacinas e informação sem preconceitos

Em comunicado divulgado esta quarta-feira, a associação ILGA Portugal afirma que "continua a faltar comunicação e/ou informação de caráter público, livre de preconceitos e que nos auxilie a reivindicar números e ações concretas".

A associação apela às autoridades nacionais que "exerçam a diplomacia necessária junto dos organismos Europeus de modo a que fique claro que a saúde pública, o nosso país e as suas pessoas cidadãs não podem estar reféns de lógicas de mercado e de racionamentos com base em critérios geopolíticos que extravasam a preocupação central com a saúde humana". E refere que em vários países já existe vacinação em modo "casa aberta" para as pessoas que têm sido mais afetadas (pessoas com múltiplas pessoas parceiras sexuais, pessoas que tenham contraído recentemente ISTs, homens gays ou bissexuais – ou, como é por vezes referido, homens que têm sexo com homens, principalmente com múltiplos parceiros – e outras pessoas com maior risco de exposição neste momento ou em momentos futuros). "Este é o exemplo a seguir", defende a ILGA Portugal.

"Se há algo que aprendemos com a pandemia da Covid-19 é que a nossa saúde não pode estar dependente do capital e dos sistemas de privatização e monetização das técnicas e fármacos que salvam as nossas vidas", prossegue a associação, alertando para casos de discriminação nos serviços de saúde e apelando ao envio de denúncias para o seu Observatório da Discriminação.

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