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Mohammad al-Kurd: "Como poderiam Jerusalém e as suas realidades não afetar a minha escrita?"

Mohammad al-Kurd começou a escrever quando tinha apenas 7 anos de idade. "Eu cresci numa casa cheia de poesia", conta o jovem de 19 anos ao Mondoweiss.
Mohammad al-Kurd. Fotografia cedida pelo próprio ao mundoweiss.net.
Mohammad al-Kurd. Fotografia cedida pelo próprio ao mundoweiss.net.

"Aliás, uma das minhas primeiras memórias é a de acordar com a voz da minha mãe a recitar poesia para o meu pai e pedir a opinião dele antes de enviar para publicação no jornal Al-Quds."

No mês passado, o jovem poeta em ascensão lançou sua primeira publicação, Radical Blankets.

Kurd, morador em Sheikh Jarrah, bairro ocupado em Jerusalém Oriental, assumiu um papel proeminente durante a colonização israelita do seu bairro em 2009. Com apenas 12 anos de idade, tornou-se a estrela de um documentário chamado “Meu bairro”, que explorou os despejos israelitas motivados pela colonização em Sheikh Jarrah.

Nessa altura, os colonos israelitas ocuparam uma parte da casa da família Kurd. A família continua a viver lado a lado com os colonos, quase uma década depois.

No entanto, Kurd diz ter-se tornado muito mais crítico acerca das complexidades do activismo de solidariedade na Palestina desde o documentário. “Há conversas sérias que precisamos de ter sobre o futuro da Palestina e dos refugiados palestinianos, e de qual é o significado e as expectativas de solidariedade”, disse.

Kurd está atualmente no segundo ano do Savannah College of Art and Design, em Atlanta, Georgia, onde se está a formar em Escrita.

A sua mais recente publicação, que descreveu como uma “revista de poesia e multimédia”, inclui amostras dos seus poemas, ilustrações e arte, destinadas a “tornar a poesia mais acessível”, disse.

A revista serve também para promover a sua próxima colecção de poesia, “RIFQA” - o nome da falecida avó do jovem, que influenciou muito do seu trabalho, e que será lançada ainda este ano.

O livro será publicado pela Smoke Signals, um estúdio colaborativo de música e produtora desenvolvido pela poeta americana Aja Monet e por Umi Selah, co-fundador do grupo activista Dream Defenders.

A Mondoweiss falou com Kurd sobre a sua nova publicação e como a sua escrita foi influenciada pela vida em Jerusalém ocupada.

 

Mondoweiss: O que é que te levou a começar a escrever tão jovem?

Kurd: Eu escrevo porque me dá o privilégio de ter uma voz e, como tal, um pouco de poder e influência. Crescer palestiniano significa crescer com muitas portas fechadas, muitas histórias de fracasso e muitas formas de opressão. Acredito que sou literalmente privilegiado por poder usar a minha escrita para falar, especialmente crescendo sem poder, desarmado, sem voz e sem liberdade.

 

Mondoweiss: Como é que as tuas experiências em Jerusalém influenciaram a tua escrita e os temas que abordas?

Kurd: Não sei como responder a essa pergunta sem soar desagradável ou pretensioso. Como poderiam Jerusalém e as suas realidades não afetar a minha escrita? Muitas vezes sou descrito como “político” e, embora o rótulo tenha alguma precisão, o que é importante mencionar é: ser político em Jerusalém é uma questão sem escolhas.

Ser “apolítico” é um privilégio. Os jantares na Palestina consistiam em política servida e apresentada antes sequer da comida. Braços expressivos, opinativos e teimosos, persuadiam e desafiavam qualquer pessoa que tivesse uma voz oposta. Era uma alegria debater com o meu pai, apesar do facto de que a política não era uma conversa de escolha, mas uma obrigação que éramos obrigados a respirar todas as manhãs, com a normalidade de respirar e dos galos anunciando o nascer do sol.

Na América, no entanto, não é assim. A política é uma espécie de tabu e colocar uma questão acerca de política é visto como uma violação da privacidade. As pessoas dizem “é desconfortável falar acerca disso” ou “não queremos ferir susceptibilidades” quando confrontadas com questões políticas. Essa não era a minha realidade. Ou a de nenhum palestiniano.

O oxigénio que respiramos é político, os solos em que estamos são grandemente afetados pelas decisões políticas e as vidas e a subsistência dos palestinianos são constantemente devastadas pelas mãos de políticos não-palestinianos. Então, naturalmente, a arte, uma resposta e uma imitação da vida, serão políticas.

 

Mondoweiss: Achas que há uma diferença na tua escrita desde que foste para a universidade nos EUA?

Kurd: Acho que tudo o que escrevo na América nunca é tão bom quanto o que escrevo na Palestina. Eu também ainda estou a passar por uma fase desafiante para entender o meu próprio privilégio enquanto pessoa que está a receber educação superior e a viver no estrangeiro, e como isso muda as coisas para mim.

Outra questão é que agora estou muito consciente (e inspirado, talvez) acerca da intersecionalidade e as familiaridades entre a luta palestiniana e as lutas afro-americanas e nativas americanas, e tenho tido muitas conversas sobre isso.

 

Mondoweiss: Na tua nova publicação, qual é o teu poema preferido? Podes explicar por que é que é significativo?

Kurd: De momento, o meu poema favorito é “This Is Why We Dance” (É por isto que dançamos), do qual incluí um trecho. O poema é importante para mim porque é uma espécie de autobiografia, presta homenagem ao papel das mulheres na resistência, o que eu testemunhei das mulheres palestinianas e como isso, para além do trauma, me tornou na pessoa que sou hoje.

As descrições vívidas no poema são muito íntimas e próximas da minha vida pessoal e do meu lar, e o poema surgiu como o resultado de conversas com muitos amigos meus que me inspiram e muitas pessoas que questionam ou desconsideram as minhas experiências.

 

Mondoweiss: Há também muitas obras de arte na tua publicação. Podes descrever o que isso significa e por que decidiste incorporar um elemento visual no teu trabalho?

Kurd: Eu decidi fazer da revista uma revista “multimédia” para tornar a poesia mais acessível. As pessoas já não lêem, especialmente poesia - então, criar a revista repleta de arte, para além da poesia, definitivamente torna-a mais legível.

O esquema de cores da revista é vívido e o amarelo é a cor dominante. Amarelo é a minha cor e da minha “marca”. É a cor da cautela; é o que eu faço e quem sou: chamo a atenção para casos e histórias que são frequentemente esquecidos ou descartados.

A coroa de pernas, "Colonialism In Flesh” (Colonialismo em Carne e Osso), é uma metáfora de como o colonialismo (e ocupação militar) afeta as pessoas, especialmente as mulheres. As pernas são uma metáfora para a feminilidade. O sangue é para homicídio e fertilidade. O arame farpado é uma alusão à coroa de espinhos com que Jesus Cristo é frequentemente retratado e à Muralha do Apartheid de Israel. Os diamantes e pérolas atrás das pernas são os recursos pelos quais os países são frequentemente invadidos.

 

Mondoweiss: A tua avó Rifqa é frequentemente mencionada nos teus poemas e nas ilustrações desta revista. Podes explicar como é que a tua avó te influenciou?

Kurd: A minha avó Rifqa está literalmente em todos os poemas (e eu faço menção disso no meu poema “É por isso que dançamos”). Ela é uma enorme fonte de inspiração para mim e não consigo resumir isso. Também é apenas uma mulher palestiniana entre muitas mulheres palestinianas que vêm de diferentes narrativas e traumas e escolhas e preferências e complexidades.

A minha personalidade foi moldada, em parte, por ela, e também o meu vernáculo, por isso faz sentido que ela seja minha “musa”, embora seja perigoso e possivelmente um clichê para os escritores escreverem sobre suas avós.

 

Mondoweiss: Como é que as tuas experiências enquanto palestiniano continuam a influenciar seu trabalho nos EUA?

Kurd: Acho que sou privilegiado no sentido de poder obter educação no estrangeiro e usar minha voz. Acredito no meu papel de usar minha voz para chamar a atenção (não digo que todos os palestinianos o devem fazer), então incluo a minha narrativa palestiniana e outras narrativas palestinianas em cada tarefa, projeto ou apresentação que tenho.

Recentemente criei uma instalação, onde recriei roupas de massacres palestinianos e actos de injustiça famosos, como os de Mohammad Abu Khdeir, Deir Yassin, Enas Dar Khalil, etc. e pus todos num armário, para destacar os eventos muitas vezes negligenciados e excluídos do “género global do trauma”.

Estou aqui para receber uma educação, mas também estou aqui para educar. Tenho a sorte de poder fazer isso de forma artística.

 

Mondoweiss: Podes falar um pouco sobre o teu próximo livro RIFQAe em que tópicos se concentram os teus poemas?

Kurd: “RIFQA” é a minha colecção de poesia de estreia completa, na qual todos os trechos incluídos em “Radical Blankets” serão incluídos na totalidade. O livro é o meu testemunho de como minha personalidade e vernáculo foi moldada pelas mulheres palestinianas revolucionárias na minha família e fora dela, as minhas experiências através delas e dentro delas, e as invenções radicais que elas abrigaram durante décadas.

Este livro, no entanto, não conta as suas histórias nem se apropria de suas vozes, é sobre a enorme influência que elas tiveram em mim e na minha voz, porque acredito que as mulheres palestinianas raramente são representadas ou creditadas.

 

Originalmente publicado em mundoweiss.net

Traduzido por Susana Sofia Pereira Marques de Oliveira.

Termos relacionados Massacre na Palestina, Internacional
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