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Moção de censura ao anti-democrata Boris Johnson

O Labour tem de voltar a dar prioridade ao derrube de Boris Johnson através de uma moção de censura e recuperar a ligação com o movimento nas ruas. Por David McAllister/Counterfire.
Boris Johnson. Foto: Number 10/Flickr.
Boris Johnson. Foto: Number 10/Flickr.

Boris Johnson subiu imensamente a parada. Não só para o Parlamento, como para todos os que temos sofrido com a brutalidade do governo conservador ilegítimo. Já houve protestos por todo o país, e mais se seguirão. Tem de haver uma resposta em grande dos sindicatos, dos movimentos sociais e das estruturas locais dos trabalhistas ao golpe. Corbyn e o Labour poderiam dar-lhe um enorme impulso apresentando uma moção de censura ao governo.

O problema é que no início desta semana se abandonou justamente essa abordagem, numa reunião convocada por Corbyn com Jo Swinson (líder dos liberal-democratas), Anna Soubry (ex-deputada conservadores) e outros representantes da linha de continuidade remain. Trata-se de pessoas que já mostraram que a sua determinação em parar o Brexit é ultrapassada apenas pela determinação em impedir que Corbyn se aproxime o mínimo que seja do número 10 de Downing Street.

O golpe de Johnson tem de desfazer quaisquer ilusões. Deverá fazer acordar quem na esquerda se deixou enredar pelas manobras parlamentares e falsa "oposição" dos LibDems e outros, que sempre foram concebidas sobretudo como forma de neutralizar qualquer possibilidade de uma verdadeira oposição radical, representada pelo projeto Corbyn, reduzindo-a a uma operação de lobby passivo e tirando do terreno qualquer desafio decisivo ao domínio conservador.

Um Brexit sem acordo conservador forma claramente a premissa para acelerar a austeridade. Essa ameaça só se pode enfrentar com um movimento insurgente em todos os locais, que envolva todos os que sofrem sob o governo conservador com a sua guerra à democracia, ponha a nu o verdadeiro impacto do neoliberalismo e da austeridade, e exija novas eleições. A última coisa que o Labour deve fazer é deixar-se encurralar no apoio a um establishment desacreditado.

Não se trata aqui de ser leave ou remain. Trata-se de querer um governo conservador ou um governo Corbyn. Essa é uma batalha que só se pode resolver nas ruas.

O excerto seguinte resume bem o desafio que enfrentamos:

"Chegou a hora dos deputados derrubarem o governo com uma moção de censura, abrindo caminho a uma eleição onde o povo possa exprimir a sua vontade... A história mostra que os charlatães, demagogos e aspirantes a ditadores têm pouca paciência para o governo representativo. Procuram formas de contornar o parlamento, antes de concluírem que este é um inconveniente. Boris Johnson pode não ser um tirano, mas criou um precedente perigoso. Ele e o grupo em seu redor, ao escolherem esta via revolucionária, devem ter cuidado com o que desejam."

Não foi uma publicação da esquerda quem escreveu esta linhas. Foi o Financial Times. Quando o grande jornal da classe capitalista vem a terreiro com uma retórica deste tipo, a liderança trabalhista tem no mínimo de igualá-la. E de seguida ir mais longe.

Para além de uma moção de censura, Corbyn e os seus apoiantes por todo o país devem trabalhar para ter uma presença decisiva nas manifestações que vêm aí, e de caminho revitalizar o espírito inssurecto de que o Corbynismo sempre dependeu. Dessa forma, pode-se mudar decisivamente o curso dos acontecimentos, do beco sem saída do parlamentarismo convencional para um movimento dinâmico de massas que lute pela transformação social.


Artigo publicado a 29/8/2019 em Counterfire. Traduzido por José Reis para o esquerda.net.

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