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Milhares de perfis falsos criados para apoiar o golpe na Bolívia

A máquina de guerra que fez o golpe contra Evo Morales foi constituída pelo exército, pela polícia, por alguma comunicação social e vários setores empresariais e da direita, como a extrema-direita dos “comités cívicos”, mas também por milhares de contas falsas no Twitter que fizeram circular internacionalmente propaganda.
Índigena boliviano manifesta-se contra o golpe que depôs Evo Morales com a Wiphala, símbolo dos povos nativos que Morales promoveu a bandeira nacional em conjunto com a anterior bandeira oficial.
Índigena boliviano manifesta-se contra o golpe que depôs Evo Morales com a Wiphala, símbolo dos povos nativos que Morales promoveu a bandeira nacional em conjunto com a anterior bandeira oficial.

Só no Twitter foram, pelo menos, 68 mil as contas falsas criadas para apoiar o golpe na Bolívia. Os cálculos são de Julián Macías Tovar, responsável pelas redes sociais do Unidas Podemos, e confirmam várias outras análises de jornalistas do jornal argentino Página 12, do espanhol El Diário, assim como vários outros investigadores.

Segundo Tovar, um dos epicentros do fenómeno é a conta de Luis Fernando Camacho, o dirigente do “Comité Cívico de Santa Cruz” que passou em poucos dias de dois mil a 150 mil seguidores, mais de 50 mil dos quais foram criados neste mês de novembro tendo zero ou apenas um seguidor cada uma delas.

Também Jeanine Áñez, que se proclamou presidente da Bolívia depois da saída forçada de Morales, passou de oito mil para cerca de 150 mil seguidores, 40 mil dos quais já identificados como contas falsas.

Grande parte destas contas surgiram ainda antes dos militares terem provocado a queda do presidente boliviano. E Tovar crê que elas não podem ter surgido do nada “sem a intervenção das agências dos Estados Unidos e a cumplicidade da plataforma de redes sociais” uma vez que uma ação tão coordenada não pode ter deixado de ser detetada e que até ferramentas simples o permitem fazer.

Estas contas dedicaram-se a promover catorze hashtags como #EvoAsesino, #EvoDictador #EvoEsFraude o #NoHayGolpedeEstadoenBolivia, #NoFueGolpeFueFraude e mentiras como a de que Morales teria sido exposto como narcotraficante num documentário do jornalista espanhol David Beriain, o que este desmentiu em declarações ao jornal El Diário. A publicação original que lançou este boato nasceu de um perfil identificado como Eduardo Baeza, estudante boliviano a viver em Barcelona e conta com 13500 retwitts, uma conta criada em 2014 mas que apenas regista atividade a partir de 11 de novembro.

Outra dimensão dos perfis falsos de apoio ao golpe de Estado na Bolívia criados no Twitter são os ataque concertados de bots (contas que funcionam de forma automática) e cyborgs (contas operadas manualmente por alguém que utiliza simultaneamente várias contas) a twitts sobre o tema. Benjamin Norton, do site de jornalismo de investigação Grayzone Project, identificou milhares de contas dedicadas a este trabalho.

A avalanche de contas falsas continuou após a tomada de poder. O jornal espanhol El Diário para além de confirmar os dados de Tovar, e de os cruzar com o trabalho de outros investigadores como o professor universitário Rodrigo Quiroga do Conselho Nacional de Investigações Científicas e Técnicas da Argentina, estima que 23900 contas foram criadas apenas nos dias 11 e 12 de novembro, o período já após o golpe.

De acordo com Quiroga não há “quase nenhuma conta nova criada em novembro que apoie Evo e/ou o MAS”. O investigador sublinha ainda que estas contas não tiveram como objetivo forçar a demissão de Evo mas centraram-se mais em justificar a posteriori externamente que não havia um golpe de Estado. Até porque, na Bolívia, o uso do Twitter não é massivo, o que foi outra das razões a levantar suspeitas sobre a existência recente de tantas contas.

 

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