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Mike Davis: O monstro bate à nossa porta

Diante desta pandemia, os socialistas devem aproveitar todas as oportunidades para lembrar os outros da urgência da solidariedade internacional. Por Mike Davis.

O coronavírus[i] é o velho filme que temos assistido repetidas vezes desde que o livro Zona Quente, de Richard Prestonnos introduziu em 1995 ao demónio exterminador nascido numa misteriosa caverna de morcegos na África Central e conhecido como Ébola. Aquele foi apenas o primeiro de toda uma sucessão de novas doenças irrompendo no “campo virgem” (esse é o termo adequado) dos sistemas imunes inexperientes da humanidade. Depois do vírus da Ébola, logo se seguiu a gripe aviária, que os humanos contraíram em 1997, e a SARS, que surgiu no final de 2002. Em ambos os casos, a doença surgiu primeiro em Guangzhou, o polo manufatureiro mundial.

Hollywood, é claro, abraçou contudo esses surtos e produziu uma série de filmes para nos provocar e amedrontar – Contágio (2001), dirigido por Steven Soderbergh, destaca-se pela precisão científica e pela sua espantosa antecipação do caos atual) Além dos filmes e dos inúmeros romances lúgubres, centenas de livros e milhares de artigos científicos responderam a cada surto, muitos deles sublinhando o estado deplorável da prevenção e preparação emergencial global de se detetar e reagir a tais doenças novas.

Caos numérico

Assim, o coronavírus atravessa a nossa porta da frente como um monstro já familiar. Sequenciar o seu genoma (aliás muito semelhante ao da sua irmã, a amplamente estudada SARS) foi fácil. Ainda nos faltam, no entanto, os pedaços mais vitais de informação. À medida que os investigadores trabalham noite e dia para conseguir caracterizar o surto, eles enfrentam três enormes desafios. Em primeiro lugar, a continuada escassez de kits para diagnóstico da infeção viral, especialmente nos Estados Unidos e em África, tem impedido a projeção de estimativas precisas de parâmetros-chave, tais como a taxa de reprodução, o tamanho da população infetada e a quantidade de infeções de caráter benigno. O resultado tem vindo a ser um completo caos numérico.

Alguns países, contudo, dispõem de dados mais confiáveis a respeito do impacto do vírus em certos grupos. E as informações são muito assustadoras. A Itália, por exemplo, regista uma espantosa taxa de mortalidade de 23% entre as pessoas maiores de 65 anos de idade; na Inglaterra, a cifra atualmente encontra-se no patamar dos 18% para esse grupo. A “gripe corona” que Trump menospreza representa um perigo sem precedentes para populações geriátricas, com um potencial saldo de mortalidade na casa dos milhões.

Em segundo lugar, assim como as gripes sazonais, o vírus está a sofrer mutações à medida que atravessa populações dotadas de diferentes composições etárias e condições de saúde. A probabilidade que os norte-americanos têm de se contaminarem já é ligeiramente diferente daquela identificada no surto original em Wuhan. As futuras mutações do vírus podem tanto ser benignas quanto alterar a distribuição de virulência, que atualmente cresce vertiginosamente a partir dos cinquenta anos de idade. A “gripe corona” de Trump representa no mínimo um perigo mortal para um quarto dos norte-americanos que são de idade, possuem sistemas imunitários fracos ou problemas respiratórios crónicos.

Em terceiro lugar, mesmo se o vírus permanecer estável e sofrer poucas mutações, é possível que o seu impacto sobre classes etárias mais jovens seja radicalmente diferente em países pobres e entre grupos de alta pobreza. Considere a experiência global da gripe espanhola de 1918-19, que, estima-se, matou cerca de 1-2% da humanidade. Nos Estados Unidos e na Europa Ocidental, o vírus original do H1N1 teve maior índice de letalidade em jovens adultos, e a explicação que geralmente se dá para tanto é que os seus sistemas imunitários relativamente mais fortes acabavam por reagir com demasiada intensidade à infeção e atacarem células pulmonares, o que acarretava uma pneumonia viral e um choque séptico. Mais recentemente, contudo, alguns epidemiologistas levantaram a hipótese de que adultos mais velhos podem ter adquirido “memória imune” por conta de um surto anterior ocorrido na década de 1890s que teria os protegido. De qualquer forma, é sabido que o vírus original da H1N1 encontrou um nicho privilegiado em acampamentos do exército e em trincheiras de batalha, onde ceifou a vida de dezenas de milhares de jovens soldados. Esse tornou-se um fator importantíssimo na batalha entre os impérios. Chegou-se a atribuir o colapso da grande ofensiva alemã na primavera de 1918, e portanto o resultado da guerra, ao facto de os Aliados, em contraste com o seu inimigo, tinham condições de reabastecer os seus exércitos doentes com tropas norte-americanas recém-chegadas.

Já a gripe espanhola em países mais pobres teve um perfil diferente. Raramente se leva em conta que 60% da mortalidade global (e isso representa pelo menos 20 milhões de mortes) ocorreu em Punjabi, Pompeia, e em outras partes da Índia Ocidental onde exportações de grão para a Inglaterra e práticas brutais de requisição coincidiram com uma seca generalizada. As escassezes alimentares que resultaram disso levaram milhões de pobres à beira da fome. Essas populações tornaram-se vítimas de uma sinistra sinergia entre subnutrição, que suprimia a sua resposta imune à infeção, e surtos desenfreados de pneumonias virais e bacterianas. Noutro caso semelhante, o Irão sob ocupação inglesa, tendo passado por muitos anos de seca, cólera e escassez alimentar, além de um surto generalizado de malária, precondicionou a morte de, estima-se, um quinto da população.

Essa história – especialmente as consequências desconhecidas das interações com subnutrição e infeções existentes – deveria alertar-nos que o COVID-19 pode tomar um caminho diferente e mais letal nas favelas densas e insalubres da África e do Sul Asiático. Com casos agora a ser reportados em Lagos, Kigali, Addis Ababa e Kinshasa, ninguém sabe (e nem saberá por um bom tempo devido à ausência de testes para diagnóstico) de que forma ele pode entrar em sinergia com as condições locais de saúde e as doenças da região. O perigo desse fenómeno para as populações pobres de todo o mundo tem vindo a ser quase completamente ignorado por jornalistas e governos ocidentais. O único artigo publicado que li nesse sentido argumenta que devido ao facto de a população urbana da África ser a mais jovem do mundo, a pandemia deve produzir lá apenas um impacto ameno. À luz da experiência de 1918, essa não passa de uma extrapolação tola. Assim como a suposição de que a pandemia, assim como a gripe sazonal, irá recuar diante de climas mais quentes. (Tom Hanks acabou de pegar o vírus na Austrália, onde ainda é verão.)

Um Katrina médico

É possível que daqui a um ano vejamos com admiração o sucesso da China em conter a pandemia, e que fiquemos horrorizados com o fracasso dos EUA. (Estou aqui a fazer a suposição heroica de que a declaração da China de que a taxa de transmissão está a diminuir rapidamente é mais ou menos precisa.) A incapacidade das nossas instituições de manter fechada a Caixa de Pandora, é claro, não é surpresa para ninguém. Desde 2000, temos repetidamente visto colapsos na linha de frente do atendimento de saúde.

Tanto a temporada de gripe de 2009 quanto a de 2018, por exemplo, sobrecarregaram hospitais em todo o país, expondo a chocante escassez de camas hospitalares depois de vinte anos de cortes na capacidade de internamento movidos pela maximização dos lucros (a versão do setor hospitalar para a gestão de inventário just-in-time). A crise remonta à ofensiva corporativa que levou Reagan ao poder e converteu lideranças do Partido Democrata nos seus porta-vozes neoliberais. De acordo com A Associação Hospitalar Norte-Americana, o número de camas hospitalares sofreu um espantoso declínio de 39% entre 1981 e 1999. O objetivo era elevar os lucros através de um aumento no “censo” (calculado a partir do número de camas ocupadas). Mas o objetivo da gestão de uma taxa de ocupação de 90% significava que os hospitais não tinham mais capacidade de absorver um influxo de pacientes em situações de epidemia e de emergência médica.

Hospitais privados e de caridade a fechar as portas e carências de enfermagem, igualmente provocados pela lógica de mercado, devastaram os serviços de saúde em comunidades mais pobres e em áreas rurais, transferindo o fardo para hospitais públicos subfinanciados e instalações médicas do Departamento de Assuntos de Veteranos dos EUA. Se as condições do atendimento emergencial em tais instituições já são incapazes de dar conta de infeções sazonais, como esperar que elas deem conta de uma iminente sobrecarga de casos críticos?

No novo século, a medicina emergencial continuou a sofrer reduções no setor privado face ao imperativo de se preservar o “valor dos acionistas”, procurando o aumento de dividendos e lucros de curto prazo, e no setor público por meio de austeridade fiscal e reduções nos orçamentos estaduais e federais de prevenção e preparação emergencial. O resultado disso é que há apenas 45.000 camas de UTI disponíveis para lidar com a avalanche projetada de casos graves e críticos de coronavírus. (Em comparação, os sul coreanos dispõem de três vezes mais camas por milhar do que os norte-americanos) De acordo com uma investigação feita pela USA Today, “apenas oito estados teriam camas hospitalares suficientes para tratar o milhão de americanos de sessenta ou mais anos de idade que podem adoecer de COVID-19”.

Ao mesmo tempo, os Republicanos têm vindo a recusar todos os esforços de reconstruir as redes de segurança destruídas pelos cortes orçamentários da recessão de 2008. Os departamentos municipais e estaduais de saúde – a primeira (e vital) linha de defesa – dispõem hoje de equipas que foram reduzidas em 25% comparativamente ao período da crise financeira, há doze anos atrás. Além disso, ao longo da última década, o orçamento dos Centros de Controlo e Prevenção de Doenças caiu 10% em termos reais. Desde a coroação de Trump, as insuficiências fiscais só se exacerbaram. O New York Times recentemente noticiou que “21% dos departamentos municipais de saúde registaram reduções nos seus orçamentos para o ano fiscal referente a 2017.” Trump também fechou o escritório de pandemia da Casa Branca, uma diretoria instituída pelo Obama depois do surto de Ébola em 2014 para garantir uma resposta nacional rápida e bem-coordenada para novas epidemias.

Estamos nas fases iniciais de um Katrina médico. Ao desinvestirmos em prevenção e preparação emergencial médica no exato momento em que todas as avaliações de peritos recomendam uma expansão generalizada dessas capacidades, encontramo-nos numa situação em que nos faltam tanto materiais elementares quanto funcionários públicos de saúde e camas emergenciais. As reservas nacionais e regionais de mantimentos hospitalares têm vindo a ser armazenadas em condições muito inferiores às orientações epidemiológicas. Por isso, a rutura de kits para testes de diagnóstico coincidiu com uma escassez crítica de equipamentos protetores básicos para trabalhadores de saúde.

As enfermeiras militantes, a nossa reserva nacional de consciência social, estão a garantir que todos nós compreendamos os graves perigos provocados pelo armazenamento inadequado de mantimentos protetores essenciais tais como máscaras faciais N95. Elas também nos lembram de que os hospitais tornaram-se ambientes ideais para micro-organismos super-resistentes a antibióticos, tais como o C. Difficile, que podem tornar-se seríssimos agentes mortais secundários em alas hospitalares superlotadas. Ainda mais vulneráveis porque invisíveis são as centenas de milhares de trabalhadoras de lares e as equipas de enfermagem domiciliar, operando em condições de sub-remuneração e sobrecarga de trabalho.

A divisão de classes

O surto expôs instantaneamente a marcada divisão de classes no atendimento de saúde, que a Nossa Revolução colocou na agenda nacional. Em suma: quem dispõe de um bom plano de saúde e também tem condições de trabalhar ou lecionar de casa está confortavelmente isolado, desde que siga com prudência as diretrizes de segurança. Funcionários públicos e outros grupos de trabalhadores sindicalizados que gozam de uma cobertura decente terão de fazer escolhas difíceis, optando entre rendimento e proteção. Enquanto isso, milhões de trabalhadores de baixo rendimento do setor de serviços, trabalhadores agrícolas, desempregados e sem teto estão a ser atirados aos lobos.

Mesmo se Washington eventualmente conseguir resolver o fiasco dos testes e fornecer um número adequado de kits para diagnóstico, aqueles que não dispõem de plano de saúde ainda terão de pagar médicos ou hospitais para que estes apliquem os testes. As contas médicas familiares gerais vão disparar, ao mesmo tempo em que milhões de trabalhadores estão a perder os seus empregos e os planos de saúde fornecidos pelos empregadores. Poderia haver defesa mais forte e mais urgente da proposta de se estender o Medicare para todos?

Mas, como todos sabemos, cobertura universal em qualquer sentido minimamente eficaz requer a garantia universal de ausências remuneradas por motivo de saúde. Quarenta e cinco por cento da força de trabalho atualmente tem esse direito negado: essas pessoas são portanto virtualmente compelidos a transmitirem a infeção ou a abrirem mão do rendimento mensal. Da mesma forma, catorze estados governados pelo Partido Republicano recusaram-se a implementar a Affordable Care Act3, que expande o Medicaid aos trabalhadores pobres. É por isso que um em cada quatro texanos, por exemplo, não dispõe de cobertura e só pode contar com as urgências do hospital municipal se precisar se tratar.

As contradições mortais dos planos privados de saúde numa era de pestes são talvez mais visíveis no setor de enfermagem domiciliar e cuidado assistido, que administra 2,5 milhões de norte-americanos de idade – muitos deles dependentes de Medicare. A situação há muito constitui um escândalo nacional. Trata-se de um setor altamente competitivo, capitalizado em salários baixos, falta de pessoal e cortes ilegais de custos. De acordo com o New York Times, 380.000 pacientes de casas de repouso morrem a cada ano por conta da negligência dessas instalações diante de procedimentos básicos de controlo de infeções. Muitas dessas casas de repouso – particularmente em estados do Sul do país – calculam ser mais barato arcar com as multas por violações sanitárias do que contratar funcionários adicionais e formá-los adequadamente.

Não é de surpreender que o primeiro epicentro de transmissão comunitária foi o Life Care Center, uma casa de repouso em Kirkland, situada nos subúrbios de Seattle. Conversei com Jim Straub, um velho amigo que é líder sindical nas casas de repouso da região de Seattle e está atualmente a escrever um artigo a respeito do tema para o The Nation. Ele caracterizou a instalação como “sendo uma das piores equipadas de quadro de funcionários em todo o Estado” e descreveu a totalidade do sistema de casas de repouso de Washington como “o mais subfinanciado do país – um oásis absurdo de sofrimento de austeridade num mar de dinheiro da indústria de tecnologia de ponta”.

Além disso, ele assinalou ainda que os oficiais de saúde pública estavam a ignorar o fator crucial que explica a rápida taxa de transmissão da doença do Life Care Center para dez outras casas de repouso nas proximidades: “trabalhadores de casas de repouso situadas no mercado imobiliário mais caro dos Estados Unidos geralmente trabalham em mais de um emprego, geralmente atendendo em múltiplas casas de repouso”. Ele diz que as autoridades foram incapazes de descobrir os nomes e as localizações desses segundos empregos e assim perderam todo e qualquer controlo sobre a disseminação do COVID-19. E até agora ninguém está a propor compensar a remuneração de trabalhadores expostos para que eles permaneçam em casa.

Agora, como nos alerta o exemplo de Seattle, mais dezenas, talvez centenas, de casas de repouso em todo o país deverão tornar-se pontos de foco do coronavírus e os seus funcionários, muitos deles a receber o salário mínimo, optarão racionalmente por permanecer em casa a fim de protegerem as suas famílias. Numa situação dessas, o sistema poderia entrar em colapso – e ninguém há-de esperar que a Guarda Nacional venha cuidar da reposição dos coletores de urina.

Solidariedade internacional

A cada passo do seu avanço mortal, a pandemia promove a defesa de uma política de cobertura universal e a ausência remunerada no trabalho. Enquanto Biden concentra-se em arranhar a popularidade de Trump, os progressistas precisam de se unir, como propõe Bernie, para vencer a convenção com a sua pauta de Medicare para Todos. Juntos, os delegados de Bernie Sanders e Elizabeth Warren têm um papel a desempenhar no Fiserv Forum em Milwaukee em meados de julho[ii], mas o resto de nós possui uma tarefa igualmente importante nas ruas, começando agora com lutas contra despejos, demissões e empregadores que se recusam a compensar trabalhadores ausentes (Está com medo de contágio? Permaneça a dois metros de distância do próximo manifestante e você ainda garante uma imagem mais poderosa para a TV. Mas precisamos reivindicar as ruas.)

Como sabemos, a cobertura universal é apenas um primeiro passo. É desanimador, para dizer o mínimo, que nos debates das primárias do Partido Democrata nem Sanders nem Warren chamaram atenção para como as grandes empresas farmacêuticas [Big Pharma] desistiram de investir em investigação e desenvolvimento de novos antibióticos e antivirais. Das dezoito maiores empresas farmacêuticas, quinze abandonaram totalmente o campo. Medicamentos cardíacos, tranquilizadores viciantes e tratamentos para impotência masculina são alguns dos produtos mais lucrativos do setor, e não a defesa contra infeções hospitalares, doenças emergentes e doenças letais tradicionais dos trópicos, como a malária. A vacina universal para a gripe – isto é, uma vacina voltada para as partes imutáveis das proteínas de superfície do vírus – já é uma possibilidade há décadas, mas não é lucrativa o suficiente para ser considerada prioridade.

À medida que a revolução dos antibióticos retrocede, velhas doenças deverão reaparecer ao lado de novas infeções e os hospitais converter-se-ão em ossuários. Até mesmo alguém como Trump pode esbravejar oportunisticamente contra os custos absurdos dos medicamentos de prescrição. O que precisamos, no entanto, é de uma visão mais audaciosa voltada para quebrar os monopólios farmacêuticos e fornecer ao público uma produção de medicamentos vitais. (As coisas já foram assim um dia: durante a Segunda Guerra Mundial, o exército convocou Jonas Salk e outros investigadores para desenvolverem a primeira vacina de gripe.) Como escrevi quinze anos atrás no meu livro O monstro bate à nossa porta: a ameaça global da gripe aviária:

“O acesso a medicamentos vitais, incluindo vacinas, antibióticos e antivirais, deveria ser um direito humano, universalmente disponível a preço zero. Se os mercados não tiverem condições de fornecer incentivos para produzir tais drogas de maneira barata, então os governos e as organizações sem fins lucrativos deveriam assumir a responsabilidade pela sua manufatura e distribuição. A sobrevivência dos pobres deve sempre ser prioridade sobre os lucros do grande complexo farmacêutico [Big Pharma].”[iii]

A atual pandemia expande o argumento: a organização capitalista agora parece estar biologicamente insustentável na ausência de uma infraestrutura verdadeiramente internacional de saúde pública. Mas tal infraestrutura jamais existirá enquanto movimentos de pessoas não quebrarem o poder das grandes empresas farmacêuticas e de um sistema de atendimento à saúde organizado em função do lucro.

Isso exige um projeto socialista independente para a sobrevivência humana, que vai além de um Segundo New Deal. Desde a época do movimento Occupy, os progressistas têm vindo a colocar a luta contra a desigualdade económica e de rendimento na ordem do dia, um grande feito. Mas agora os socialistas precisam de dar o próximo passo e, tendo as indústrias farmacêutica e de saúde como alvos imediatos, lutarem pela propriedade social e a democratização do poder económico.

Mas precisamos de ter uma avaliação honesta das nossas fraquezas políticas e morais. Por mais que veja com entusiasmo a evolução à esquerda de uma nova geração e o regresso da palavra “socialismo” ao discurso político, há um elemento perturbador de solipsismo nacional no movimento progressista que é simétrico ao novo nacionalismo de direita. Tendemos a falar apenas da classe trabalhadora norte-americana e da história radical dos Estados Unidos (talvez nos esquecendo que Eugene V. Debs era um internacionalista até o último fio de cabelo). Às vezes isso passa perto de uma versão de esquerda do lema “América em Primeiro Lugar”.

Diante desta pandemia, os socialistas devem aproveitar todas as oportunidades para lembrar os outros da urgência da solidariedade internacional. Concretamente, precisamos mobilizar os nossos amigos progressistas e os seus ídolos políticos a fim de reivindicar um aumento massivo na produção de kits para diagnóstico, equipamentos de segurança e medicamentos vitais para serem distribuídos gratuitamente a países pobres. Cabe-nos garantir que o Medicare para Todos se torne tanto uma política externa quanto uma política doméstica nos EUA.

* Texto enviado pelo autor diretamente para o Blog da Boitempo. A tradução é de Artur Renzo.
Adaptação para português de Portugal de Mariana Carneiro.

Mike Davis nasceu na cidade de Fontana, Califórnia, em 1946. Abandonou os estudos precocemente, aos dezasseis anos, devido a uma grave doença do pai. Trabalhou como talhante, motorista de camião e militou no Partido Comunista da Califórnia meridional antes de regressar à sala de aula. Aos 28 anos, ingressou na Universidade da Califórnia de Los Angeles (Ucla) para estudar economia e história. Atualmente, mora em San Diego, é um reconhecido professor no departamento de Creative Writing na Universidade da Califórnia, em Riverside, e integra o conselho editorial da New Left Review. Autor de vários livros, entre eles Planeta favelaApologia dos bárbaros e Cidade de quartzo. O autor também colabora com o livro de intervenção Cidades rebeldes: passe livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil.

 

 

[i] Tem havido muita confusão a respeito da terminologia científica: o Comité Internacional de Taxonomia de Vírus denominou o vírus de SARS-CoV-2. COVID-19 refere-se ao surto. (Nota do autor).

[ii] O autor refere-se aqui à Convenção Nacional Democrata de 2020, que definirá o candidato que o Partido escolherá para enfrentar Donald Trump nas eleições presidenciais deste ano. A disputa, como se sabe, atualmente entre Joe Biden e Bernie Sanders, e o apoio da base da candidata progressista Elizabeth Warren é um fator crucial para a vitória do Sanders. (Nota da tradução.)

[iii] Edição brasileira: O monstro bate à nossa porta: a ameaça global da gripe aviária (São Paulo, Record, 2006). (N. T.)

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