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Midterms nos EUA: Democratas seguram Senado

A onda republicana acabou por ser uma gota, regozijam-se os Democratas. Já a sua esquerda obteve alguns avanços, mas também ela continua longe de chegar a ser uma onda, diz Dan La Botz.
Apoiantes de Fetterman festejam a sua vitória. Foto de JIM LO SCALZO/EPA/Lusa.
Apoiantes de Fetterman festejam a sua vitória. Foto de JIM LO SCALZO/EPA/Lusa.

Depois de uma contagem que se arrastou por vários dias, o resultado de uma das corridas decisivas para o controlo do Senado norte-americano acabou por ser conhecido: Catherine Cortez Masto, a primeira mulher hispânica a ser eleita para o órgão, foi reeleita, tornando-se a 50ª democrata a assegurar um lugar nesta legislatura e garantindo assim uma maioria do seu partido.

Esta demora deveu-se à lei eleitoral do Nevada que obriga a esperar pelos votos por correspondência que cheguem até quatro dias depois do dia de votação.

Falta ainda conhecer o resultado de um lugar na Georgia, que terá uma segunda volta no próximo mês, mas ainda que esta corrida fosse ganha pelos Republicanos apenas conseguiram um empate a 50. E, neste caso, a vice-Presidente Kamala Harris tem direito de voto de desempate.

Na Câmara dos Representantes, a câmara baixa do Congresso dos EUA, os Republicanos continuam na frente das contagens. A projeção da Associated Press dava-lhes 212 lugares contra 204 aos Democratas. O patamar da maioria é de 218.

A corrida apertada é reclamada por Biden como uma vitória e vista por muitos como uma derrota de Trump. Depois dos anúncios que viria aí uma “onda vermelha” que varreria os Democratas, o entusiasmo trumpista esmoreceu.

A confirmar-se a maioria para os Republicanos na Câmara dos Representantes, isto significa que o presidente Democrata não tem rédea livre para aplicar as suas políticas e que terá de negociar com o partido rival. Mas isto facilita nomeações políticas, nomeadamente para o sistema judicial federal, e dá a possibilidade de a câmara alta rejeitar a legislação que vier da câmara baixa.

Nancy Pelosi, a atual Presidente da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, pode ficar sem o cargo que ocupa, mas regozijou-se desde já na CNN: “quem diria há dois meses que esta onda se viria a transformar num pinguinho, se é que até se lhe pode chamar isso”. Já Biden trouxe à baila o seu “otimismo” para dizer que não ficou surpreendido com o resultado.

Por seu turno, é esperado que Trump lance a sua candidatura presidencial para 2024 na Florida esta semana, depois de ter dito que tinha um grande anúncio a fazer. Fá-lo em má altura, já que vários dos seus correligionários estão a criticá-lo pelos maus resultados de muitos dos candidatos que se empenhou pessoalmente em apoiar. Fora desse leque, está o reeleito governador da Florida, Ron DeSantis, que agora se apresenta como o seu maior rival no campo da extrema-direita para a nomeação republicana para as próximas eleições presidenciais. O sinal claro dessa intenção foi dado pela sua festa de vitória onde se gritava “mais dois anos”.

Algumas vitórias um pouco mais à esquerda

O sindicalista e investigador Dan La Botz sublinha que estas eleições se deram no quadro de um debate onde os Republicanos agitavam com a inflação, a criminalidade e o aumento da imigração e que as preocupações económicas pareciam ir a seu favor. Do outro lado, a campanha de muitos dos democratas defendeu o direito ao aborto e criticava o perigo para a democracia do trumpismo. “Para surpresa de quase todo o mundo”, escreve, estes temas “parecem ter provocado uma grande participação das mulheres e dos eleitores mais jovens” e agregado “algo como 80% do voto negro”.

Para além disso, candidaturas mais progressistas obtiveram bons resultados, sublinhando-se vitórias como as de Summer Lee na Pensilvania, de Greg Casar no Texas, de Maxwell Frost na Florida e de Rebecca Balint no Vermont. John Fetterman, que se apresentou como candidato da classe trabalhadora e que teve de enfrentar a figura televisiva Dr. Oz que era uma aposta pessoal de Trump, também venceu. O candidato tinha sofrido um derrame cerebral durante a campanha e fez questão de, no discurso de vitória, salientar que “a saúde é um direito humano fundamental, salvou-me a vida e deveria estar aí quando precisares dela”. Também o campo laboral foi vincado nessa ocasião numa campanha que se classificou como de luta “por todos os postos de trabalho que se perderam, por todas as fábricas que fecharam, por todas as pessoas que trabalham duramente mas nunca andam para a frente”.

Mas Dan La Botz termina o seu artigo salientando os impasses e dificuldades enfrentados pelas candidaturas à esquerda no interior do Partido Democrata e também pelas candidaturas feitas por outros pequenos partidos que “geralmente obtêm muito poucos votos”. A esquerda americana continua assim no impasse de um velho debate: “se se pode construir um partido socialista dentro do Partido Democrata ou se se deve apresentar candidatos socialistas independentes como no passado”.

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