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A “meritocracia” de um sistema educativo desigual

Não é aceitável deixar de lado aqueles e aquelas que, infelizmente, não tiveram um conjunto de circunstâncias tão propícias ao sucesso escolar que as bolsas de mérito vêm congratular. Por António Figueira.
O verdadeiro sucesso da escola pública está na sua reestruturação, modernização e inclusão de todo o corpo estudantil
O verdadeiro sucesso da escola pública está na sua reestruturação, modernização e inclusão de todo o corpo estudantil

O município de Castro Verde, em conivência com uma agenda política nacional que tem vindo a prolongar este tipo de práticas, resigna-se a ignorar quem precisa e a dar uma palmadinha nas costas de quem tudo teve à mão de semear: chamam-lhe meritocracia.

Aquilo que a quarentena nos veio mostrar, numa perspetiva de pandemia mundial, veio apenas sublinhar traços que já se desenhavam – indiferentemente – nos bastidores de um sistema profundamente assente nas desigualdades e na robotização das e dos estudantes. Felizmente para uns e infelizmente para outros, nos últimos dias, o foco foi dado às famílias que, confrontadas com a impossibilidade de oferecer dignidade material e educativa aos seus filhos e filhas, sufocavam frente a frente com barreiras financeiras, sociais e culturais.

Por outro lado, o que parece não ter sido tão claro aos olhos das autarquias foi, como sempre, a realidade vivida por essas mesmas famílias – com ou sem Covid-19. Desta vez, foram postas de lado as necessidades que, outrora, tanto serviram como bordão que estampavam em letras gordas nos meios de comunicação social e, claro, foram sobrepostos os famosos valores de meritocracia nos quais se sentam, confortavelmente, a partir de um privilégio desconhecido por muitos.

Não é aceitável deixar de lado aqueles e aquelas que, infelizmente, não tiveram um conjunto de circunstâncias tão propícias ao sucesso escolar que as bolsas de mérito vêm congratular. Desconhece-se por completo a realidade com a qual muitas e muitos estudantes convivem diariamente e, como sempre, vêm-se apresentar propostas que premeiam aqueles que semearam “mérito” no excelente seio familiar de uma boa casa, de um bom ambiente quotidiano, e de bons auxiliares de apoio ao estudo.

Não é aceitável que, hoje, ou mesmo nos anos que se seguem, a prioridade da autarquia seja felicitar quem conseguiu ficar no topo das pautas, graças a uma série de condições sociais e financeiras que assim o permitiram e, consequentemente, voltar a cair no erro de acentuar as desigualdades que já existiam e que, agora, se voltam a cavar.

O verdadeiro sucesso da escola pública está na sua reestruturação, modernização e inclusão de todo o corpo estudantil, sem que assim se façam dividir os alunos e alunas numa competição que não é saudável e que vem arrasar todos os princípios de cooperação, entreajuda e inserção que, em pleno século XXI, deveriam ser as prioridades de órgãos de poder que se dizem verdadeiramente democráticos e em prol da igualdade.

Texto de António Figueira, estudante

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