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“A memória da revolução é um repertório de luta para empurrar as fronteiras do possível”

Na cerimónia de comemoração do 25 de abril, José Soeiro lembrou quem ganha baixos salários e “faz o país funcionar”, invocou as Novas Cartas Portuguesas que confrontaram machismo e colonialismo, e essa revolução em que “a democracia não ficou à espera que viesse o documento autenticado”. Leia aqui a sua intervenção completa.
José Soeiro na Cerimónia Comemorativa do 25 de Abril na Assembleia da República. Pormenor de uma foto de MANUEL DE ALMEIDA/Lusa.
José Soeiro na Cerimónia Comemorativa do 25 de Abril na Assembleia da República. Pormenor de uma foto de MANUEL DE ALMEIDA/Lusa.

O deputado bloquista José Soeiro, na cerimónia de comemoração do 25 de Abril na Assembleia da República, lembrou o que falta cumprir na revolução dos cravos, nomeadamente em termos de justiça social para quem ganha baixos salários, invocou as “Novas Cartas Portuguesas”, livro publicado há 50 anos, apreendido pela ditadura salazarista porque confrontava o machismo e o colonialismo, e a memória de uma revolução que “não ficou à espera”.

Deixamos aqui a sua intervenção completa:

Às 4 da manhã, muito antes da primeira claridade do dia, já um punhado de mulheres saíam da cama para vir trabalhar. Apanharam o transporte às 5 menos um quarto. Chegaram às 6 à Assembleia.

Quando o dia nasceu, muito antes de os nossos despertadores tocarem, já elas tinham lavado a escadaria principal, puxado o lustro com as rotativas às madeiras enceradas dos Passos Perdidos, esfregado as casas de banho. Já elas tinham aspirado de novo as carpetes vermelhas, desinfetado as bancadas desta sala, conferido se os cravos estavam bem espetados nas esponjas verdes que não vemos.

Depois de sairmos, são elas quem recolherá os papéis abandonados nas mesas, quem voltará a lavar as sanitas e a passar a esfregona no chão para as visitas da tarde. O seu trabalho só costuma ser notado quando não está feito.

Quem talhou estas madeiras? Quem ligou os cabos e segura as câmaras? Quem nos transportou até cá? Quem lavou as meias que calçamos? Quem as pôs no estendal e quem as levantou do estendal?

Quem passou as camisas e as blusas e os fatos? Quem fez o pequeno-almoço?

Quem ficou hoje com as crianças e com os mais velhos? Se foi trabalho remunerado, quanto ganham?

Para que esta sessão aconteça, para que a sala esteja pronta para a solenidade, há centenas de pessoas nos bastidores da democracia. Vemo-las mesmo?

Que atenção temos dado, enquanto sociedade, a todas estas pessoas sem as quais o mundo não funciona? Nos supermercados e nas cantinas, nos transportes e nas escolas, nos call centers e nas empresas, nos serviços e na indústria. Nas casas.

Na pandemia, identificámos “profissões essenciais”, “trabalhadores da linha da frente”, chamámos-lhes “heróis e heroínas do quotidiano”. Mas muitas das atividades das quais dependemos continuam a ser as mais desvalorizadas, as mais precárias, as mais externalizadas.

Que atenção tem merecido quem produz aquilo de que precisamos? Que consideração tem merecido quem cuida e mantém a vida?

700€ e poucos euros de salário - eis o que ganha quem limpa o mundo - e o Parlamento.

Se tiver um contrato só de umas horas - também os há aqui - são 300 e poucos euros. Mais 1 euro e 39 para o pequeno-almoço. Subtraia-se o transporte e a renda de casa - o que sobra? Subtraia-se a inflação que galopa - quanto fica para viver?

E não é só delas, as que limpam, a aflição. É de toda a gente que recebe o salário mínimo ou pouco mais, é da maioria.

A quem faz o país funcionar, a democracia não deve apenas gratidão. Deve reconhecimento e justiça.

No nosso país de salários baixos, a elite dos gestores das 15 maiores empresas (onde se inclui a EDP e o Pingo Doce, a Galp e a Mota Engil), aumentou em 90% o seu rendimento no ano passado. Um gestor chega a ganhar 880 mil euros por mês.

Uma caixa de supermercado teria de trabalhar mais de 1.250 anos para ganhar o mesmo que o administrador da sua empresa no ano que passou. Quão democráticas são estas desigualdades? Não, não está tudo bem.

É tempo de ouvir todas as pessoas que não estão no retrato emoldurado dos notáveis, que não têm nem terão medalhas nem ruas com o seu nome. Que estão no avesso dos lugares, mas sem os quais não existiriam lugares.

Outras histórias…

*…“ou de como Maina Mendes pôs ambas as mãos sobre o corpo e deu um pontapé no cu dos outros legítimos superiores”

A frase é a epígrafe das Novas Cartas Portuguesas.

Foi em abril de 1972, faz agora 50 anos, que esse livro - gerado durante nove meses pelas Três Marias - fazia explodir as convenções, o amor subserviente, as sombras do castigo, o desejo reprimido, o “não fales dessas coisas”, “a minha mãe diz que é pecado”, o “dá um beijinho à senhora que é tão boazinha para a gente”, o “olha que o respeitinho é muito lindo”.

Que fazia explodir, também, as fronteiras entre géneros literários, os limites da linguagem, os interditos temáticos.

No país da guerra colonial e da pobreza, do “deus, pátria e família”, em que uma mulher tinha de pedir autorização ao marido para ir ao estrangeiro e uma professora primária tinha de pedir autorização ao Governo para casar, o livro não durou mais de três dias nas bancas.

Para o fascismo, por mais primaveras marcelistas, era “insanavelmente pornográfico e atentatório da moral pública” falar do trabalho das mulheres e da violência contra elas, do colonialismo e da dominação masculina, da vertigem do corpo e do corpo como campo de batalha, dos úteros “escangalhados por tentativas de aborto clandestino com agulhas de tricot e talos de couve”, do desespero da guerra, da emigração a salto, da desigualdade, da pobreza, da ditadura.

Os livros foram recolhidos e destruídos pela censura.

Maria Teresa Horta, Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa foram atiradas para o Tribunal da Boa Hora, de tal forma os estilhaços do que tinham escrito tinham ferido o regime.

O julgamento, contudo, transformou o caso numa causa feminista internacional. Simone de Beauvoir, entre outras, propôs que as feministas de todo o mundo se mobilizassem. Muliplicaram-se manifestações e protestos pelas embaixadas portuguesas, em vários países.

Seria preciso a Revolução para que o julgamento mudasse.

Para que tudo mudasse.

Para que não fosse mais a mesma essa metade da humanidade de que falavam as Três Marias.

*

E não foi a mesma? A nossa democracia nasceu da revolução, tem a marca inapagável desse cordão umbilical. A democracia não ficou à espera que viesse o documento autenticado, o papel oficial, a ordem do sr. Doutor.

Foi fazer o sindicato e gerir a empresa porque o patrão Tinha fugido.

Foi fazer a creche e a cantina, porque não havia e era preciso.

Foi trabalhar a terra e aprender as contas.

Foi pôr a gente a morar nas casas abandonadas, porque ter casas vazias, ao abandono, não era um direito, e ter um teto sim.

Foi passar os filmes todos, que agora não eram proibidos.

Foi fazer cooperativas de produção e de teatro e de cinema e até de espetadores.

Foi não aceitar esconder, mesmo se um general da Junta de Salvação Nacional dizia que “a revolução não foi feita para prostitutas e homossexuais”.

Foi tratar os outros por tu.

Foi sair de casa ou dizer ao homem que agora as coisas mudaram, que o tempo da servidão já não é.

Foi o salário mínimo, o direito à greve, foi o serviço nacional de saúde, foi a segurança social e a escola pública. Foi fazer isso tudo com as próprias mãos. Foi não ficar à espera nem ficar satisfeito.

Estamos em 2022 e nós não estamos satisfeitos.

Não olhamos a democracia como um protocolo sem conteúdo de igualdade.

Nós celebramos termos agora mais tempo de democracia do que de ditadura. Fazemos a festa na rua. Mas nós não queremos ter só mais tempo de democracia, nós queremos ter mais democracia.

Falta-nos ainda quase tudo.

Falta Estado social onde já começámos a construí-lo, como na saúde. E onde não tem existido, como nos cuidados e na habitação. Falta acabar com as hierarquias e as divisões sexuais, os padrões de colonialidade que persistem. Falta produzir e viver de outro modo.

Não nos digam que o debate é entre quem quer simplesmente manter o que existe e quem quer destruir o que existe.

Que triste e que pobre visão do mundo a de quem acha que o campo de possíveis da democracia se resume a sermos democratas liberais ou iliberais.

Nós não aceitamos essa prisão de expectativas.

A Revolução não é um património a ser velado com zelo, mas um legado para iluminar as contradições do presente.

A memória da revolução é um repertório de luta para ampliar o nosso imaginário e para empurrarmos hoje as fronteiras do possível, contra a exploração, a destruição climática e o despotismo do mercado.

Não olhamos a democracia como uma herança a ser conservada, mas como uma tarefa para o presente. O futuro não há-de ser o passado, nem a perpétua repetição do presente. É agora fazer outro tempo.”

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