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Massacres nos EUA relançam debate sobre violência de extrema-direita

Tiroteios nos EUA este fim de semana deixaram dezenas de mortos e relançaram debate sobre a violência de extrema-direita no país e não só. Um dos atiradores alegadamente justificou o seu ato como uma resposta à "invasão hispânica do Texas".
Vigília de solidariedade em Ciudad Juarez, México, pelas vítimas do massacre de El Paso, Texas, 3 de agosto de 2019. Foto: Rey Jauregui/EPA/Lusa.
Vigília de solidariedade em Ciudad Juarez, México, pelas vítimas do massacre de El Paso, Texas, 3 de agosto de 2019. Foto: Rey Jauregui/EPA/Lusa.

Foram 29 mortos neste fim de semana, e 125 desde o início do ano. Os tiroteios mortais são uma realidade a que os Estados Unidos estão resignadamente acostumados, mas este fim de semana as televisões tiveram de dividir atenções entre cenários de horror paralelos no Texas e Ohio. E as motivações do atirador do Texas, que alegadamente qualificou o seu ato como uma resposta à "invasão hispânica" num texto divulgado na internet minutos antes do ataque, relançaram o debate no país sobre a violência de extrema-direita.

Sábado de manhã, um homem abriu fogo num supermercado em El Paso, Texas, cidade na fronteira com o México, matando 20 pessoas e ferindo outras 26, antes de se entregar à polícia. Na noite do mesmo dia, em Dayton, no Ohio, outro homem de 24 anos abriu fogo em plena rua, próximo de um bar no centro da cidade, matando nove pessoas e ferindo 27 em menos de um minuto, antes de ser abatido pela polícia. Entre os mortos encontra-se a irmã do atirador. Segundo dados da Northeastern University, foram os 21º e 22º tiroteios de massa (isto é, com mais de quatro mortos) no país desde o início de 2019. Os casos estão em investigação, mas no caso do Texas vários elementos apontam para uma motivação de ódio racial e xenófobo.

O atirador do Texas, detido pela polícia, conduziu mais de dez horas e mil quilómetros desde Dallas, onde residia, até El Paso, cidade onde mais de 80% da população de 700 mil residentes é classificada como hispânica. Na orla da cidade, dominando a sua paisagem e muita da sua atividade, fica a fronteira com Ciudad Juarez, México. Das 20 pessoas que matou, sete eram de nacionalidade mexicana, segundo adiantou o governo do México. Surgiram relatos nas redes sociais de que alguns feridos estariam a evitar recorrer a ajuda médica, por medo de serem identificados. As autoridades americanas procuraram tranquilizar os feridos, declarando não fazer operações de controlo sobre imigrantes em casos de emergência. A polícia está a classificar o caso como "terrorismo doméstico".

Minutos antes da carnificina começar em El Paso, foi publicado no 8Chan, fórum popular entre várias subculturas da internet, incluindo de extrema-direita, um manifesto intitulado "A Verdade Inconveniente". O texto anuncia um ataque iminente "em resposta à invasão hispânica do Texas", acusa os imigrantes de roubar empregos aos "nativos" dos EUA e elabora um projeto de divisão do país segundo critérios raciais. Faz também referências elogiosas ao atirador de Christchurch, que em março deste ano matou 51 muçulmanos numa mesquita na Nova Zelândia, ato que justificou com teorias da conspiração sobre uma substituição encapotada da população branca por imigrantes muçulmanos. O texto faz ainda referência direta a Donald Trump: "As minhas opiniões sobre automatização, imigração e tudo o mais são anteriores a Trump e à sua campanha presidencial". Embora não seja ainda certo, as autoridades estão ao atribuir a autoria do manifesto ao atirador do Texas.

O caso voltou a lançar para a ribalta o debate sobre violência de extrema-direita, assente em discursos de ódio e supremacia racial. O tema é exacerbado com a presidência de Donald Trump, com o discurso incendiário sobre imigração que tem explorado e as ambiguidades que cultiva em relação à extrema-direita. Multiplicaram-se as acusações do campo democrata a atribuir responsabilidades indiretas ao presidente. Há apelos de democratas e também de republicanos para que as autoridades passem a dar aos casos de "terroristas brancos" a mesma atenção que dão à Al-Qaeda ou ao Estado Islâmico.

Apesar das especificidades americanas, a violência de extrema-direita é um fenómeno a nível global, para o qual contribuem as desigualdades e polarização crescentes nas últimas décadas a nível económico, social e cultural. Franjas minoritárias da população na América e Europa, mas com algum crescimento, têm reagido virando-se para uma ideologia difusa de ameaça de uma "população branca" por um conjunto vago e fluído de inimigos: refugiados, imigrantes, muçulmanos, judeus, negros, feministas, o "marxismo cultural". A internet e as redes sociais aceleram o fenómeno e transformam também as suas formas, com processos de radicalização mais rápidos, individuais e difíceis de detetar. Mais do que grupos ou partidos organizados, a violência de extrema-direita tem-se feito notar cada vez mais por ações isoladas de indivíduos que buscam o choque e impacto máximo, através de ações extremas e concebidas de antemão para serem um espetáculo mediático, com divulgação de manifestos ou filmagem dos próprios atos. Um itinerário sinistro que vai de Anders Breivik na Noruega ao atirador de Christchurch na Nova Zelândia, e a que se junta agora El Paso.

Termos relacionados Resistências anti-Trump, Sociedade
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