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Massacre de 17 de Outubro de 1961 em Paris

Há cinquenta anos, 300 argelinos foram mortos na “Batalha de Paris”, comandada por Maurice Papon. O presidente francês Nicolas Sarkozy prepara-se para ignorar o aniversário deste massacre. Artigo de Robert Zaretsky, professor de história na universidade de Houston.

A 17 de Outubro, o governo gaulista de Nicolas Sarkozy ignorará o cinquentenário dum massacre mortífero que, envolto em silêncio e na confusão até hoje, esclarece de forma crucial a complexa relação entre o passado e o presente, entre os franceses e os argelinos na França contemporânea.

Há cinquenta anos, ao final da tarde de um domingo frio, vinte a trinta mil argelinos, homens, mulheres e crianças, começaram a convergir para o centro de Paris.

Vestindo os seus melhores fatos e vestidos, tomando o metro ou o autocarro desde os seus bairros na periferia de Paris, os argelinos respondiam a um apelo para um protesto contra vários casos de violência policial contra a sua comunidade.

Os organizadores tinham exortado os manifestantes a permanecerem calmos e dignos em caso de provocação da polícia. Sem sucesso...

Bastões, coronhas e cães

Assim que a noite caiu em Paris, as forças da polícia deslocaram-se rapidamente para uma série de concentrações organizadas. Armados de metralhadoras e de matracas, lançaram-se sobre os manifestantes, juntaram-nos em grandes grupos sob os golpes violentos das suas matracas (um grupo de polícias partiu trinta das cinquenta matracas utilizadas), das coronhas das suas metralhadoras e dos seus cães.

Para além da desordem controlada, ouvia-se também tiros de vez em quando. Tal como um polícia, recordou mais tarde, “atirava-se sobre tudo o que mexia”.

Cadáveres lançados ao Sena

Mais tarde durante a noite, poucas coisas mexeram. Várias testemunhas viram uma grande pilha de corpos sem vida, amontoados pela polícia diante do famoso Grand Rex (2º bairro), enquanto que outros se aperceberam de longos pedaços de tecido sobre pilhas irregulares ao longo dos passeios ensanguentados junto da praça da Ópera (9º bairro).

De facto, os únicos objectos em movimento eram estes cadáveres que, deitados do alto das pontes da cidade, flutuavam no Sena, assim como os autocarros da polícia que lentamente transportavam os manifestantes presos para os enviar para os centros de detenção provisória.

Três centenas de mortos

Longe de oferecer uma pausa aos manifestantes, os centros (estádios na maior parte) representavam arenas da violência policial. Os argelinos tinham de abrir passagem através das matracas e dos cassetetes dos polícias, desde a saída das carrinhas até à entrada.

Um vez no interior, eram confrontados com uma cena digna de Jerónimo Bosch (“O Jardim das delícias”): centenas de homens e de mulheres, ensanguentados e mutilados. Antes de Maurice Papon, comandante da polícia, declarar vitória alguns dias depois do que ele chamou a “Batalha de Paris”, pelo menos 300 civis argelinos estavam mortos, enquanto que várias centenas de outros estavam feridos, traumatizados ou deportados para sempre.

O que é notável na “Batalha de Paris”, é que ninguém tenha dado por ela, durante tanto tempo em França. Depois de um primeiro bailado de comunicados de imprensa, a história conheceu a mesma sorte que as vítimas argelinas: foi enterrada e esquecida. As razões deste esquecimento geral continuam ainda hoje.

Papon, cérebro da repressão

Em primeiro lugar, o governo de Charles de Gaulle empenhara-se num esforço fútil e desesperado para vencer a FLN, o movimento nacionalista que se batia pela independência da Argélia. A chamada “guerra suja” foi de facto positivamente terrível: os dois campos eram culpados de empregar uma violência perigosa que custou a vida a milhares de civis franceses e argelinos. Actos de terrorismo e contra-terrorismo provocaram, além disso, vagas no Mediterrâneo que vinham bater no solo francês.

Assustados por esta maré tingida de sangue, muitos franceses e francesas apressaram-se a classificar esta tentativa de manifestação como a cobertura para uma acção militante. O cérebro desta repressão policial, Maurice Papon, explorou este medo. Ele insistiu que a República tinha vencido uma iniciativa da FLN (que de facto tinha apelado à manifestação) querendo servir-se de crianças como escudos e reféns numa manifestação destinada a provocar a violência policial.

A construção social da indiferença”

Como os historiadores Jim House e Neil MacMaster observaram1, Papon apresentou-se com sucesso à nação como sendo o “herói que cumpria a missão pessoal de De Gaulle: querer “defender Paris” (muitas das técnicas empregadas por Papon contra os argelinos tinham sido testadas por ele quando era um burocrata em Vichy, no momento em que tinha deportado 1.600 judeus para Auschwitz – um outro facto que passou despercebido até ao processo contra Papon por crimes contra a humanidade em 1997).

Finalmente, o público francês tinha sido preparado para esquecer este acontecimento atroz graças ao que os sociólogos chamam “a construção social da indiferença” e a que todos os outros, como nós, chamamos um processo de embrutecimento.

A espiral de violência na Argélia, assim como no Estado francês e a propensão dos média públicos a representar os argelinos como sendo profundamente “diferentes”, condicionaram a resposta do público francês ao massacre. Ao invés de um massacre, na realidade, a acção da polícia foi entendida como um acto necessário de auto-defesa contra os bárbaros. Era-lhe muito mais simples simpatizar com os manifestantes franceses mortos pela polícia uns dias mais tarde no tristemente célebre “Massacre de Charonne”2, do que com os seus pares norte-africanos.

Desde os anos 80, os historiadores e cientistas políticos têm recriado meticulosamente os acontecimentos de 17 de Outubro de 1961. O que se passou naquela noite já não levanta dúvidas. Numerosas organizações cívicas, incluindo 17 Octobre : contre l'oubli (17 de Outubro: contra o esquecimento), durante muito tempo assinalaram este aniversário, escolhendo como local de comemoração a Ponte Saint-Michel, da qual os manifestantes argelinos tinham sido lançados ao Sena.

Um silêncio dolorosamente ruidoso

E no entanto a República francesa, quer seja dirigida pela esquerda, pela direita ou pelo centro, manteve sempre um silêncio ensurdecedor.

Este silêncio é particularmente e dolorosamente ruidoso no governo actual. Em 2005, quando Sarkozy era ministro do Interior, o seu partido, a UMP, votou uma lei para obrigar os docentes a ensinar as vantagens da “missão civilizadora” da França.

Pouco depois de se tornar presidente, Sarkozy foi a Dacar (Senegal) e, num discurso controverso, as opiniões da lei votada antes (e rapidamente revogada) ganharam eco. O seu esforço, de criar um Ministério da Imigração, da Integração e da Identidade nacional, que por fim abortou, foi largamente vista como uma acção para isolar os muçulmanos franceses, tal como o é a lei que proíbe o uso do véu islâmico em público.

Imaginem Sarkozy, na Ponte Saint-Michel

Mas Sarkozy tem um talento especial para as viragens súbitas, como testemunha o papel desempenhado pela França na Líbia. Tal como acontece com a recente imagem de Sarkozy a fazer uma saudação de herói na cidade libertada de Tripoli, imaginem o impacto que teria o Presidente, na Ponte de Saint-Michel, reconhecendo os crimes cometidos pela França contra outros norte-africanos há meio século. Num país onde a retórica xenófoba está de novo em alta, o gesto de Sarkozy serviria de recordação decisiva: aqueles que perderam a vida há cinquenta anos não eram “diferentes” mas homens e mulheres tal como nós. Os fantasmas do passado da França poderiam fazer eco à música que acabamos de ouvir em Tripoli: “Um, dois, três: Sarkozy obrigado”.

Artigo traduzido para francês por Agathe Raymond Carloe publicado em Rue 89, traduzido para português por Carlos Santos para esquerda.net


1 House, Jim e Neil MacMaster, Paris 1961 - Les Algériens, la terreur d'Etat et la mémoire, Tallandier, 2008

2 A polícia carregou contra uma manifestação convocada pela esquerda francesa contra a guerra da Argélia, tendo assassinado nove pessoas, que se tinham refugiado da carga policial na estação de metro Charonne.

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