Marisa Matias interveio no comício de verão do Bloco, em Olhão, nesta quarta-feira, e começou por lembrar as “políticas fatalistas” de há dois anos atrás: “o tempo em que não havia alternativa, em que era preciso cortar salários, na saúde, na educação, na cultura, nos serviços públicos, destruir a nossa dignidade e cortar em tudo… não havia outra política”. Porém, “dois anos depois, descobrimos, que afinal havia outra, havia outra política”, concluiu, referindo-se à nova maioria de esquerda do parlamento e ao fim do ciclo do empobrecimento.
Afirmando que “a direita perdeu a maioria na Assembleia da República, não por desígnio divino ou desastre natural, mas por vontade das portuguesas e dos portugueses”, a eurodeputada do Bloco defendeu que, na altura, “a esquerda esteve à altura de assumir um compromisso, que não sendo perfeito, permitiu recuperar dignidade, direitos e algum espaço de respiração; voltámos a ter a noção de que valemos mais do que o diretório de Bruxelas, de que a nossa vida vale mais do que o défice ou a dívida”. Aliás, disse ainda, “é o nosso emprego que poderá garantir a capacidade de algum dia pagarmos essa dívida, e não a emigração forçada e o desemprego”.
Marisa Matias acusou a direita de ter “caído na tristeza da política abutre”: “Ainda nem as chamas de Pedrógão estavam apagadas, já estavam a fazer política às custas da desgraça alheia, com suicídios inventados e insistindo em pedir uma lista de mortes, denegrindo assim a tragédia de quem sofreu tanto”.
Referindo os dados da autoria divulgada pelo IGAI, na qual consta que houve falhas significativas no Siresp, Marisa Matias sublinhou que “o Siresp anda a falhar desde que é uma parceria público-privada [PPP], envolvendo grupos como a PT, o Espírito Santo ou SLN”.
Concordando com o Ministério da Administração Interna, que quer penalizações para o Siresp, a eurodeputada bloquista disse que é preciso mais do isso e “exigir a PDS, CDS e PS que não voltem a chumbar a proposta do Bloco para acabar com a PPP do Siresp”, ou seja, “exigir um sistema de informação com controlo público, ao qual se podem pedir todas as responsabilidades, sem ter uma fatura que aumenta todos os anos”. Só este ano, lembrou, “a fatura do Siresp aumentou mais 10 milhões de euros”.
Temos de ser exigentes, este caminho não é ainda suficiente
Na sua intervenção, Marias Matias argumentou que o “acordo desta maioria foi o que permitiu eliminar, do programa de governo do PS, a liberalização dos despedimentos, o congelamento das pensões, a redução das contribuições sociais para a Segurança Social e até aquele ‘imposto negativo’ que permitia atribuir subsídios às empesas que pagassem salários mais baixo”. Contudo, “temos de ser exigentes, este caminho não é ainda suficiente, está longe de ser a solução para o país”, concluiu.
“Todos achavam que ia falhar, não tardaram em chamar-lhe geringonça”, disse, acrescentando, “mas, eu até gosto bastante da palavra - significa que é imperfeita, que é preciso fazer mais, que precisa de exigência e de democracia”.
Marisa Matias critica os partidos da direita que “perderam o seu poder de narrativa” e lembrou quando, no verão passado, “o anterior primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho disse que o Diabo vinha aí, mas não veio”. “Vieram a recuperação dos rendimentos e o fim do empobrecimento, mas ainda temos muitas desigualdades para combater, muitos direitos para conquistar”, rematou. Depois de anunciar “o descalabro, a bancarrota do país e os castigos de Bruxelas”, a direita vê agora os resultados do contrário das suas políticas: o fim do empobrecimento, a diminuição do défice, o aumento do salário mínimo e a reposição das pensões e dos salários, “embora o salário médio seja ainda tão baixo”, referiu.
Marisa Matias considera que a diminuição da taxa de desemprego, que está agora nos 8,8 por cento, “é de facto uma boa notícia”. “Mas nós somos pelo pleno emprego, que não haja aqui equívocos”, disse ainda, referindo que “continuamos, no entanto, com uma taxa de desemprego jovem impossível, acima do 22 por cento, e com pensões insustentavelmente baixas”.
A eurodeputada anunciou que, depois do fim do ciclo do empobrecimento, o Bloco vai bater-se pelo fim da austeridade: “Exigir que os compromissos vão tão longe quanto possível; queremos ir para além do acordo e rever os escalões do IRS, aumentar mais as pensões, acabar de vez com os vínculos precários, no público e no privado, recuperar todos direitos laborais para proteger quem trabalha, aumentar os salários, que é o que faz crescer a economia, mais dignidade e serviços públicos para toda a gente e em todos os lugares”. “Temos dois anos para fazer mais e melhor; o que fizemos não foi pouco, mas falta quase tudo”, rematou.
“A força do Bloco fez a diferença”, alegou Marisa Matias, lembrando ainda que o Bloco foi quem mais aprovou iniciativas parlamentares e, por isso, deixou o apelo: “não tenham medo, tenham esperança e a certeza de que somos exigentes e incapazes de nos calarmos, exijam mais de nós e da democracia, aqui e no parlamento europeu”.
O Bloco volta a Olhão para prestar contas
Marisa Matias disse ainda que “o trabalho autárquico não é fácil, mas é preciso prestar contas e que havendo tantas pessoas dependentes do município, o medo prevalece onde deveria prevalecer a democracia”. Referiu que o Bloco de Olhão “foi quem mais apresentou propostas, mas ficou a frustração por não termos conseguido a capacidade para a transformação e a mudança que queremos na sociedade, a que é justa e é para as pessoas”.
Valorizando a ação e persistência do Bloco na luta pelo fim das portagens na A22, em particular, a intervenção do deputado parlamentar João Vasconcelos, a eurodeputada recordou também o exemplo de Domingos Terramoto, falecido recentemente: “Não nos deixava ser incompetentes, nem fazer o trabalho pela metade, estava sempre atento, era irreverente, profundamente exigente e nunca desistiu – o Bloco tem de ter a capacidade de ser assim”.
No comício de Olhão intervieram também João Vasconcelos, Ivo Madeira, Mónica Neto e Idalécio Soares.