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Mariano Gago, o físico que aproximou Portugal do século XXI

Ex-ministro é recordado pelo seu empenho no desenvolvimento da Ciência em Portugal, quando se multiplicou o número de investigadores e cresceu o número de estudantes formados em áreas científicas.
"Há uma ciência antes de Mariano Gago, que era muito pequena, e uma ciência depois de Mariano Gago, que é muito maior", diz Carlos Fiolhais. Foto da OCDE
"Há uma ciência antes de Mariano Gago, que era muito pequena, e uma ciência depois de Mariano Gago, que é muito maior", diz Carlos Fiolhais. Foto da OCDE

O físico de partículas José Mariano Gago, falecido sexta-feira aos 66 anos, usou a sua passagem longa mas discreta pelos governos de António Guterres e José Sócrates para desenvolver a ciência em Portugal. Para Sobrinho Simões, diretor do Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto (IPATIMUP), “tivemos a sorte de o ter durante dois períodos muito grandes como ministro da Ciência. Um tipo fora de série. Como partimos de valores muito baixos, tivemos crescimentos que são de facto recordes mundiais”.

O físico Carlos Fiolhais recorda da mesma forma o seu colega cientista: "há uma ciência antes de Mariano Gago, que era muito pequena, e uma ciência depois de Mariano Gago, que é muito maior", disse.

Foi o ministro mais empenhado no desenvolvimento da ciência e, por isso, aproximou Portugal de um país do século XXI

Para o professor catedrático de economia Francisco Louçã, “a morte precoce de Mariano Gago faz desaparecer o melhor ministro da ciência”, escreveu numa nota da sua página no Facebook, sublinhando que “no desenvolvimento da ciência, foi o ministro mais empenhado e que, por isso, aproximou Portugal de um país do século XXI”. Louçã recorda que se opôs à sua política a favor de Bolonha, “que achei e acho que prejudica o ensino superior”, mas homenageia o “homem cordial, competente e combativo”.

No seu mandato no executivo, elevou o orçamento para a Ciência até 1% do PIB, o que nunca ocorrera antes. Com isso, multiplicou o número de investigadores (chegaram a cinco por cada mil trabalhadores), fez crescer o número de estudantes formados em áreas científicas e abriu as portas do país aos investigadores que só encontravam rede para criar conhecimento no estrangeiro.

A redução dos orçamentos para a ciência resulta em quebra de confiança e em procura de oportunidades noutros países.

Um período de ouro que se inverteria nos últimos anos, com a extinção do Ministério da Ciência e os cortes orçamentais à investigação científica. Numa entrevista dada à Análise Social em 2011, Mariano Gago lamentava já, num momento em que os cortes na área de investigação ainda não tinham atingido a dimensão catastrófica que ocorreria depois, as reduções significativas dos salários dos quadros mais qualificados, que teriam “quase naturalmente como consequência a sua emigração real, ou a sua integração nos sistemas científicos e económicos de outros países, mesmo que permaneçam formalmente vinculados ao país de origem, para além do colapso na capacidade de atração e fixação de talento externo”. E insistia: “A redução dos orçamentos para a ciência resulta em quebra de confiança e em procura de oportunidades noutros países. O aumento injustificado da burocracia, das restrições à autonomia de contratação pelas universidades (tentações que bem conhecemos de outras épocas recessivas) arrasta desperdício e afasta os melhores”.

Doutor em Física pela Universidade de Paris

José Mariano Gago nasceu em Lisboa em 1948. Foi cientista, professor catedrático no Instituto Superior Técnico (IST), da Universidade de Lisboa, fundador e Presidente da JENICT, que daria origem à Fundação para a Ciência e Tecnologia e Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior em três mandatos do partido socialista, o que o torna o Ministro que mais tempo permaneceu como governante após o 25 de abril de 1974.

Em 1971 licenciou-se em Engenharia Eletrotécnica pelo Instituto Superior Técnico, em 1976 doutorou-se em Física pela Universidade de Paris e três anos depois realizou a agregação em Física pelo IST.

Enquanto investigador, foi bolseiro na Organização Europeia de Pesquisa Nuclear (CERN) entre 1976 e 1978 e, mais tarde, em 1986, participou como membro fundador e presidente do Laboratório de Instrumentação e Física Experimental de Partículas (LIP). Uma instituição científica que foi essencial para a adesão de Portugal como membro do CERN.

Entre 1986 e 1989, assumiu o cargo de Presidente da Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica (JNICT).

Foi Ministro da Ciência e Tecnologia dos XIII e XIV Governos Constitucionais (1995-2002), liderados por António Guterres, e Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior dos XVII e XVIII Governos Constitucionais (2005-2011), liderados por José Sócrates.

Apaixonado pela divulgação científica, escreveu obras importantes para a cultura científica nacional, entre elas o "Manifesto para a Ciência em Portugal" (1990) e o "O futuro da cultura científica" (1994). Foi um dos responsáveis pela criação da Agência Nacional para a Cultura Científica e Tecnológica – Ciência Viva, que atualmente gere os centros de divulgação e cultura científica em todo o país.

Leia a entrevista dada por Mariano Gago, em 2011, à revista Análise Social.

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