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Marcas de roupa fecham lojas na Europa e abrem crise no Bangladesh

Com o cancelamento sem indemnização das encomendas europeias às fábricas do segundo maior exportador têxtil do mundo, mais de um milhão de trabalhadoras foram despedidas ou mandadas para casa sem rendimento.
Fábrica de vestuário no Bangladesh. 2011.
Fábrica de vestuário no Bangladesh. 2011. Foto de Tareq Salahuddin/Flickr.

O Center for Global Workers’ Rights, da Universidade Estadual da Pensilvânia, divulgou esta sexta-feira um relatório sobre como as medidas de mitigação da pandemia de Covid-19 estão a afetar as condições de vida dos trabalhadores das fábricas do Bangladesh.

Com o encerramento de muitas lojas nos países ocidentais, as encomendas reduziram-se fortemente e os trabalhadores do segundo maior exportador de têxteis, logo a seguir à China, estão a pagar a fatura. Um inquérito aos donos de fábricas deste país, realizado no âmbito deste estudo, concluiu que mais de um milhão de trabalhadores foram, desde o início desta crise, despedidos ou então mandados para casa sem direito a salário ou a garantia de continuidade do seu emprego. A maior parte, explica Mark Anner, diretor da instituição que levou a cabo o estudo, são mulheres, oriundas de regiões rurais.

O governo deste país tem tentado seduzir investidores baixando impostos e não reconhecendo direitos aos trabalhadores. Chegada agora uma crise de contornos ainda não medidos, os trabalhadores do fundo da cadeia de produção estão desprotegidos.

O inquérito foi realizado entre os dias 21 a 25 de março. 316 fábricas responderam, sendo cerca de 200 grandes unidades com mais de 750 trabalhadores e um perfil exportador para a Europa. Do conjunto destas empresas, cerca de 60% afirmam que fecharam já a maior parte da sua produção e 6% disseram mesmo que todas as suas encomendas foram canceladas.

Os trabalhadores destas fábricas estão a ser mandados para casa. 70% deles, de acordo com as respostas das próprias entidades patronais, sem qualquer pagamento. De entre os que foram despedidos, só menos de 20% recebeu algum tipo, por menor que fosse, de indemnização.

A situação agrava-se porque os grandes retalhistas europeus não se limitam a não fazer novas encomendas. Lançam mão das cláusulas de rescisão por motivos de “força maior”, deixando os seus parceiros de negócios sem capacidade de resposta, depois de terem já investido nos materiais e tendo a mão de obra contratada para fazer face a estes contratos.

Anner, que é professor de Relações Laborais, na PennState, pensa que esta situação é “um desastre absoluto” que “está a mostrar o quão extremados os desequilíbrios de poder são”.

O mesmo tom adota Kalpona Akter, diretora do Centro para a Solidariedade dos Trabalhadores do Bangladesh: “os trabalhadores estão em pânico”. A desigualdade revela-se uma “realidade cruel”, pensa. Os trabalhadores “passarão fome, as suas famílias irão sofrer” ao passo que as “marcas globais perderão [apenas] uma fração do seu lucro”.

O próprio Bangladesh tomou medidas restritivas no âmbito do surto de covid-19, tendo decretado um confinamento de dez dias. Mas o setor têxtil, que é responsável por mais de 80% dos rendimentos de exportação do país, foi considerado indústria essencial e os trabalhadores que não foram despedidos ou dispensados são obrigados a apresentar-se ao serviço.

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