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Manuel Pinho terá pedido à Universidade de Columbia para esconder patrocínio da EDP

Novos dados apontam também que pode ter sido o próprio Manuel Pinho quem sugeriu o apoio da EDP à universidade através da Horizon, filial norte-americana da elétrica, e a sua contratação. Terá ainda pedido para que o patrocínio da EDP fosse escondido da imprensa portuguesa.
Manuel Pinho na comissão parlamentar de inquérito às rendas de energia. Foto António Cotrim/Lusa
Manuel Pinho na comissão parlamentar de inquérito às rendas de energia. Foto António Cotrim/Lusa

O “Observador” divulgou novos dados, que terá conhecido através de acesso a e-mails apensos ao processo das rendas da EDP, conduzido pelo Ministério Público (MP). Neste processo terão sido agora incluídos um conjunto de novos e-mails, derivados do facto da universidade de Columbia ter disponibilizado ao MP português a documentação relacionada com a contratação de Manuel Pinho.

A questão que está colocada é a possibilidade de Manuel Pinho, enquanto ministro da Economia, ter favorecido a EDP na legislação de rendas excessivas e em compensação ter sido contratado para dar aulas na Universidade de Columbia, com a EDP/Horizon a fazer uma significativa doação à universidade.

Até agora, tinha sido conhecido que terá sido a EDP quem redigiu a legislação que lhe garantiu rendas excessivas (ver notícia no esquerda.net) e que terá sido pelo seu favorecimento à EDP, que esta compensou Manuel Pinho conseguindo-lhe um contrato para dar aulas na universidade de Columbia (ver esta notícia no esquerda.net).

Os novos dados apontam para que terá sido Manuel Pinho quem se ofereceu à universidade de Columbia, assim como terá sugerido que o patrocínio da EDP, que garantia o pagamento da sua contratação, fosse feito através da sua subsidiária nos EUA, desde 2007, a Horizon.

O “Observador” destaca que a documentação agora conhecida põe a tese de defesa da EDP, de que a proposta para o patrocínio da universidade (1,2 milhões de dólares) e a contratação do ex-ministro tinham sido da sua responsabilidade. Assinala também que estes documentos reforçam, por outro lado, os indícios de corrupção ativa de António Mexia e João Manso Neto (presidentes da EDP e da EDP Renováveis) e os indícios de corrupção passiva de Manuel Pinho.

Manuel Pinho, universidade de Columbia e Horizon/EDP

Os documentos da universidade divulgam os e-mails trocados entre Manuel Pinho; a sua esposa Alexandra Pinho; Anya Stiglitz, professora em Columbia e esposa de Joseph Stiglitz; John Coatsworth, reitor da universidade de Columbia e, entre 2007 e 2012, reitor da School of International and Public Affairs (SIPA - Escola de Assuntos Internacionais e Públicos) e António Mexia.

Segundo o site, Alexandra Pinho enviou um e-mail a Anya Stiglitz, em julho de 2009, onde refere que Manuel Pinho deixou de ser ministro, pelo que seria a “altura ideal para planear algo relacionado com Columbia”, ao que a norte-americana responde que iria falar com o reitor.

Em setembro de 2009, Manuel Pinho informa Anya Stiglitz que a empresa Horizon do grupo EDP “está preparada para “fazer um donativo por cinco anos (300 mil dólares/ano)” à universidade de Columbia, desde que ele estivesse incluído “no desenvolvimento de um programa relacionado com a energia”. O ex-ministro frisa: “as minhas aulas são uma pequena parte dessa doação”.

A 8 de outubro de 2009, o reitor da universidade de Columbia, John Coatsworth, manifesta a Pinho satisfação pelo projeto e pergunta-lhe pormenores de como tratar com a Horizon. O ex-ministro responde uma hora depois, referindo que “a Horizon não teria qualquer restrição temporal para o financiamento, por terem uma visão de longo prazo”, que “a maior parte dos fundos da Horizon seriam alocados ao curso da SIPA”; que “iria ver com a Horizon se o apoio seria por 4 ou 5 anos”; que “ele próprio iria assumir um cargo muito importante não executivo na Horizon”.

A 1 de novembro de 2009, Pinho comunica ao reitor da universidade que “o CEO da Horizon vai enviar-lhe uma mensagem pessoal na próxima sexta-feira para calendarizar um encontro para a última semana de novembro”.

António Mexia reunir-se-ia a 20 de novembro de 2009 com Coastsworth, que depois informa Manuel Pinho: “acordamos um compromisso de quatro anos da Horizon com um financiamento de 300 mil dólares /ano que nos permitirá contratar professores visitantes (incluindo você)”. Segundo o site, o reitor da SIPA diz mesmo “António [Mexia] referiu que você e ele trocaram mensagens nas quais descreveu de forma sumária os projetos que seriam financiados pela Horizon”.

Controle total” sobre a informação à imprensa

De acordo com o site, Manuel Pinho manifestou sempre grande preocupação com as respostas da universidade à imprensa portuguesa, pedindo reiteradamente “controle total”.

Posteriormente, já em março de 2012, o ex-ministro envia um e-mail a Dan McIntire, diretor-adjunto da SIPA, onde informa que um jornal em Portugal “voltou à carga com a história inventada sobre a EDP pagar o meu salário na SIPA e eu decidi processá-los”. “É muito importante que, se alguém da administração da SIPA receber chamadas de Portugal, a resposta seja muito clara e que não sejam levantadas mais dúvidas, ok?”, conclui o ex-ministro.

No dia seguinte volta a pedir a McIntire “controle total” em relação às respostas dadas aos jornalistas portugueses, afirmando: “em Portugal, a situação é semelhante à da Alemanha antes da II Guerra Mundial. É muito perturbadora e perigosa”.

Termos relacionados Rendas da energia, Sociedade
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