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Manuel Pérez García (1931-2013)

Faleceu no dia 12 de março o camarada Manuel Pérez García, uma figura inesquecível do movimento operário asturiano. Texto de Miguel Pérez.

Faleceu no dia 12 de março o camarada Manuel Pérez García, que era conhecido como Manolo ou Pérez. Era um homem que fazia, para pessoas como eu, uma ponte com a geração que combateu na guerra civil e nos transmitiu, a quem o conheceu, princípios e formas de agir na política e na vida que fazem parte da tradição do movimento operário. Pérez foi o primeiro secretário-geral da secção sindical da UGT de Ensidesa (Empresa Nacional Siderúrgica, SA) de Avilés (Astúrias) logo após o fim da ditadura, e membro do Comité de Empresa, como militante da UGT e de CCOO, até a sua reforma em 1990. Depois foi secretário-geral da Federação Local de Reformados de CCOO de Avilés e da Federação Regional das Astúrias. Foi um militante de referência da esquerda e da corrente marxista “Nuevo Claridad-El Militante” na cidade de Avilés.

A sua perda enche-nos de tristeza e pretendemos neste texto render uma homenagem a um homem inesquecível com quem passámos muitos bons momentos e a uma geração que ousou lutar e sonhar um mundo melhor, uma sociedade socialista. Neste texto lembrarei momentos vividos e algumas conversas que tive o prazer de manter com ele.

Yo soy un hombre del sur/ Polvo, sol fatiga y hambre / Hambre de pan y horizontes / Hambre (Pedro Garfias)

Pérez nasceu em Málaga em 1931. Contava que se lembrava vagamente de visitar os locais da CNT da cidade durante a guerra com o seu pai, que militou na central anarco-sindicalista e sofreu perseguição no após-guerra. Creio que sentia Andaluzia como a sua verdadeira terra, gostava de lá estar e de visitar parentes e desfrutar do ambiente de lá. Ele foi um de tantos milhares que procurou melhor sorte longe do sul. Primeiro em Barcelona, onde testemunhou a histórica “greve dos tranvias” de 1951, um dos primeiros protestos de massas contra a ditadura. Em 1953 nas Astúrias, onde se empregou nas obras de construção da Siderúrgica de Avilés. Pérez contava a impressão da chegada às Astúrias nele, um homem habituado ao sol do Mediterrâneo. A visão da vila carvoeira de Mieres num dia de inverno cinzento e de chuva impressionaram-no de tal maneira que pensou em desistir daquela terra. Felizmente para todos nós tal não aconteceu.

Pérez foi um dos cerca de 30.000 operários que levantaram nas marismas de Avilés a que chegou a ser a segunda maior planta siderúrgica do mundo, a Ensidesa, trabalhando no que ficou conhecido como “sinos”, estruturas usadas para o alicerçamento da nova empresa, umas cápsulas de ar comprimido em forma de sino dentro das quais os operários drenavam as lamas até atingir niveis de profundidade adequados para a injeção de betão, uma operação perigosissima que terá custado não se sabe quantas vidas. 

Ele foi um ator na recuperação das organizações de classe no fim da ditadura. Depois de outras experiências laborais empregou-se na própria empresa siderúrgica e por afinidades pessoais filiou-se na UGT clandestina. Com a sua legalização foi escolhido secretário da secção da Ensidesa-Avilés e militou no PSOE, num contexto em que essas organizações jogavam uma cartada mais radical com o intuito de fortalecer a sua base de apoio social. Uma estratégia bem sucedida: enquanto o PSOE se tornou o principal partido da esquerda, a UGT tornou-se um competidor sério de CCOO, tornando-se hegemónica em empresas como a mineria pública do carvão das Astúrias e na própria Ensidesa-Avilés. 

Muito cedo se desiludiu com as manobras espúrias e oportunistas na família socialista e abandonou a UGT pelas CCOO e, após uma curta passagem pelo PCE, aderiu à “Tendência” trotskista NC-EM que nascera no PSOE no fim da ditadura e da qual Pérez se sentiu sempre parte. Os seus últimos tempos foram de participação na IU e em CCOO-Reformados. (Assinale-se que na sociedade das Astúrias, com dezenas de milhar de reformados e pré-reformados da indústria, as federações sindicais de aposentados têm um papel muito assinalável, como mostram as presentes e massivas mobilizações dos reformados da empresa mineira pública Hunosa em defesa das reformas acordadas).

O meu contato com ele foi a través no grupo NC-EM nos primeiros anos 90. Era alguém que se impunha com a sua idade a jovens de escola como eu, mas Pérez sempre quis ter relações de igual para igual com os camaradas, e conseguiu. Sabia expressar as suas ideias e respeitar outras opiniões, aberto sempre ao debate franco com todos. Ensinou-nos a entender valores como a organização e a solidariedade. Foi um exemplo de anti-sectarismo de que muito precisa a esquerda do estado espanhol. Apesar da nossa diferença de idades sempre conversámos muito, e quando no final da década e por motivos de saúde deixou de militar no NC-EM tão ativamente quanto antes fomos mantendo contacto. Lembro-me de visitá-lo nessa altura, cerca de 1995, no hospital de Avilés porque tinha sofrido uma grave doença do coração, e outras vezes na casa dele no bairro de “Tocote” de Avilés. A última foi no verão de 2012 e conversámos uma tarde inteira sobre a situação que vivemos. Falamos da IU e do BE, da Grécia e de Chávez, da greve mineira que incendiara as Astúrias semanas antes... Foi como que uma bela despedida de um camarada doente e enfraquecido. Tivemos a surpresa e a honra, porém, de ainda lhe apertar a mão na semana passada quando travava o seu último combate, e de estar nessa altura com a sua família.

À sua companheira Teresa e aos seus muitos filhos (7 mulheres e 2 homens) e muitos netos e bisnetos deixo um abraço fraterno e este singelo texto que mal consegue resumir a sua vida de luta permanente, um abraço que gostaria de fazer em nome do Bloco para esta figura exemplar de uma esquerda irmã. Para os camaradas que o homenagearam no funeral civil realizado a 14 de março fica uma saudação companheira. Entre nós, Pérez viverá para sempre. Hasta la victoria final.


Outras ligações sobre Manuel Pérez:
Entrevista com Manuel Pérez (1996)
Nota da corrente El Militante
Nota da corrente Lucha de Clases

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