O protesto foi convocado por dois grupos de extrema-direita. Os manifestantes incendiaram, pelo menos, um carro e vários caixotes do lixo e bloquearam a entrada de um centro de acolhimento temporário. Estavam contra a chegada de um grupo de 70 ciganos, dos quais 33 crianças. Destruiram também a comida que se destinava ao centro.
Os manifestantes chamaram os ciganos de “animais”. Houve quem gritasse que deviam “morrer à fome”, outros diziam que deviam ser queimados. A presidente populista da Câmara de Roma, Virginia Raggi, fala num “clima muito pesado de ódio” por parte dos manifestantes. Face aos protestos, escolheu acolher estas famílias noutra zona.
Mas o partido a que Raggi pertence, o Cinco Estrelas, e a extrema-direita estão coligados no governo italiano. E Matteo Salvini, vice-primeiro-ministro e ministro do Interior, dirigente do partido de extrema-direita, a Liga (anteriormente a separatista Liga Norte), tem um discurso forte contra o ciganos, prometendo acabar com os seus acampamentos: “o objetivo para que estou a trabalhar há meses é não ter nenhum acampamento até ao fim do meu mandato como ministro”, afirmou à agência Ansa.
Em junho de 2018, Salvini tinha sugerido recensear a população cigana de forma a poder facilitar a expulsão dos que fossem estranegeiros e acrescentou que “os ciganos italianos têm, infelizmente, de ser mantidos em casa”.
Fora do governo, os movimentos mais agressivos da extrema-direita também agitam o ódio étnico. Um dos movimentos que convocou a manifestação contra os ciganos foi o CasaPound, grupo originado a partir de um “centro social”, uma casa ocupada em 2003, que criou entretanto um partido ao nível nacional e uma rede internacional de movimentos de extrema-direita na Europa.
O outro movimento na origem do protesto foi o neofascista Forza Nuova. Em comunicado escreveu “estamos preparados para levantar as bandeiras negras e as italianas contra a invasão e a miscigenação”. A semana passada um dos dirigentes desta organização, Giuliano Castellino, junto com Vincenzo Nardulli, da Avanguardia Nazionale, foi acusado de agressão agravada contra dois jornalistas do L'Espresso que cobriam uma outra ação dos neofascistas em janeiro.
As autoridades italianas comunicaram esta quinta-feira que a manifestação de Torre Maura vai ser também investigada pelos danos causados, pelas ameaças e pelos apelos ao ódio racial.
Su #TorreMaura posto solo questo video.
Il coraggio di un ragazzo di 15 anni che non ha avuto paura di essere umano, davanti ad un mucchio di fasci.
Tanta stima e soprattutto grazie!#Simone pic.twitter.com/byNQFZm08t— Fiorenza M. J. Panke (@FiorePanke) 4 de abril de 2019
A extrema-direita ainda tentou apresentar a manifestação como um movimento espontâneo dos moradores da zona. Mas toda a simbologia, palavras de ordem e atitudes dos manifestantes mostravam claramente do que se tratava politicamente. Nas redes sociais, circula o vídeo em que um jovem de 15 anos contesta as motivações dos manifestantes e lhes diz que estão lá "apenas para conseguir votos" e lhes pergunta: "eu sou de Torre Maura, e vocês de onde são?" Simone enfrentacom estas palavras Mauro Antonini, dirigente da extrema-direita. Diz na sua cara que estes "odeiam apenas as minorias" e que “ninguém deve ser deixado para trás”.