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Manifestações no Líbano enfrentam a mais forte repressão policial desde o seu começo

As manifestações do fim de semana no Líbano enfrentaram forte repressão policial. Esta segunda-feira o Presidente tinha conversações com os partidos e era esperada a nomeação de um Primeiro-Ministro. Pressionado pelas ruas para não reconduzir no cargo o ex-Primeiro-Ministro e sem acordo com os partidos, tudo ficou adiado.
Manifestantes libaneses em frente ao Parlamento. Dezembro de 2019.
Manifestantes libaneses em frente ao Parlamento. Dezembro de 2019. Foto de LUSA/EPA/NABIL MOUNZER

Sábado e domingo foram dias de manifestação em Beirute. O que começaram por ser manifestações pacíficas, como tantas outras que têm ocorrido nos últimos meses, acabaram por enfrentar a mais forte repressão policial desde o início da onda de protestos no Líbano. A polícia atacou os manifestantes com balas de borracha, gás lacrimogéneo e canhões de água.

Dos confrontos resultou, de acordo com a Cruz Vermelha, mais de uma centena de feridos. Um manifestante citado pela Reuters, o enfermeiro desempregado Omar Abyad, criticou as atuação das forças policiais dizendo: “atacaram-nos de forma bárbara, como se não estivéssemos a protestar também pelo seu bem, pelas suas crianças”.

Depois da intervenção policial, algumas centenas de pessoas responderam à violência policial atirando pedras e latas à polícia e deitaram fogo a caixas de lixo. Duas sedes de partidos políticos foram também incendiadas de acordo com agência de notícias oficial do país.

Os manifestantes acusam ainda o Hezbollah e o grupo Amal de serem responsáveis por provocar violência no sábado. E alegam que dezenas de apoiantes destes grupos os atacaram com paus e bastões. Isto porque os partidos xiitas têm também sido alvos de críticas tal como os restantes principais partidos.

O Líbano tem vivido protestos contínuos contra o sistema político. Como resultado, o Primeiro-Ministro Saad Hariri demitiu-se cerca de duas semanas após o início dos protestos, a 29 de outubro, e desde então o governo tem estado em gestão. E nem por isso a contestação abrandou. Os manifestantes continuam a sair às ruas criticando a corrupção na elite política enquanto ao mesmo tempo o país enfrenta a mais profunda crise económica de há décadas e o Banco Central deixou que existisse uma fuga de capitais dos mais ricos. Para além de uma das dívidas públicas maiores do mundo, a desvalorização da moeda que causou uma subida de preços dos bens importados agravou a situação. Agora, canta-se nas manifestações: “o povo quer deitar o regime a baixo”.

Uma das exigências levadas à rua este fim de semana era precisamente que o ex-Primeiro-Ministro Hariri não fosse renomeado depois da sua demissão. Os manifestantes querem um governo independente, não ligado aos partidos tradicionais que têm dominado a cena política libanesa. Mas estes não parecem preparados para alterar profundamente a complexa arquitetura étnica e de interesses necessária para formar governo.

Se mais alguma prova disto fosse precisa, o adiamento da nomeação de um novo Primeiro-Ministro, prevista para esta segunda-feira, depois do Presidente Michel Aoun fazer uma ronda de conversações com os vários partidos políticos, prova o impasse.

Segundo algumas fontes consultadas pela Reuters, Hariri é o único candidato que a nomenclatura sunita quer no cargo. Este continua assim a insistir em ser reconduzido no cargo e diz que tentará, até quinta-feira, obter um acordo entre os partidos para fazer um governo que contaria, para além dele, sobretudo, com técnicos. O Hezbollah e o Aoun, xiitas, insistem num perfil político do governo. E o Partido das Forças Libanesas, cristão, pelo contrário, insiste em que o Primeiro-Ministro deveria ser um especialista como exigido pelos manifestantes, recusando o nome de Hariri.

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