Os dados são do Gabinete de Estratégia e Planeamento do Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social: entre os 200.649 trabalhadores que pediram o subsídio, 81% eram mulheres. Um indicador de que a crise reforça as desigualdades estruturais já antes existentes.
Ao jornal Público, a presidente da Comissão para a Igualdade no Trabalho e no Emprego, Carla Tavares, afirma que “quando nos fomos apercebendo que na sua maioria eram as mulheres quem ficava em casa em regime de teletrabalho, sobretudo, ou mesmo em regime de apoio especial, manifestamos de imediato essa preocupação junto do Ministério do Trabalho para que essa situação fosse avaliada e que no futuro fossem tomadas medidas que minimizassem o facto de serem sempre as mulheres as prejudicadas e aquelas a quem incumbe sempre o dever de cuidar dos filhos”, diz.
Para a responsável do CITE, não são apenas alterações ao regime de teletrabalho que irá corrigir o problema, uma vez que “é uma questão mais estrutural que está por detrás de tudo isto”.
Estas desigualdades tornaram-se mais evidentes devido às características específicas da pandemia, que transformou os mais idosos em grupo de risco, impedindo-os de ficar com os netos. Segundo o estudo Os Usos do Tempo de Homens e de Mulheres em Portugal, publicado em 2016 pelo investigador Manuel Abrantes, do Centro de Estudos para a Intervenção Social, os avós são um elemento essencial “para que as mulheres possam ter mais tempo para o trabalho”.
O estudo revela, por exemplo, que, à pergunta “quem são as pessoas adultas que no agregado doméstico habitualmente cuidam das crianças aí residentes”, 83,2% dos casos de crianças com menos de três anos ou 68,8% no caso de crianças entre os seis e os 14 anos, a resposta é “apenas uma mulher”. Ou seja, o nascimento de uma criança é um fator que desequilibra imediatamente as responsabilidades dentro do casal. Para estes investigadores, “há riscos de reforço das desigualdades” devido à pandemia, uma vez que a resposta tendencial da família a um novo “fator de stress” é o “reforço do estereótipo da mãe como primeira protetora”.