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“A maior expressão de preconceito racial consiste na negação deste preconceito”

“Durante décadas, apregoar a inexistência de fenómenos racistas na sociedade portuguesa tornou-se um quase lugar-comum. A repetição incessante da ideia não teve, contudo, a virtualidade de a converter em verdadeira”, afirmou a ministra da Justiça esta terça-feira.
Francisca Van Dunem, ministra da Justiça. Foto de Paulo Novais, Lusa (Arquivo).
Francisca Van Dunem, ministra da Justiça. Foto de Paulo Novais, Lusa (Arquivo).

Francisca Van Dunem participou na conferência “Racismo, Xenofobia e Discriminação Étnico-Racial em Portugal”, que decorreu na Assembleia da República, por iniciativa da subcomissão para a igualdade e não discriminação.

A ministra da Justiça defendeu que “pensar, ponderar, analisar e acima de tudo, realizar estudos sobre os fenómenos do racismo, da xenofobia e da discriminação étnico-racial em Portugal, constitui uma necessidade imperiosa de uma sociedade que cresceu e se diversificou no plano étnico, no plano racial, no plano cultural”.

Francisca Van Dunem afirmou ter a perceção que “a realidade não é idêntica para as várias comunidades étnico-raciais que residem em Portugal: “A discriminação é hierarquizada – existirão uns que estão mais no fim da cadeia do que outros”, assinalou.

A governante destacou ainda que “sobre estas temáticas relacionadas com o racismo, a xenofobia e a discriminação étnico-racial tende a recair um enorme manto de silêncio” e que “durante décadas, apregoar a inexistência de fenómenos racistas na sociedade portuguesa tornou-se um quase lugar-comum”.

“A repetição incessante da ideia não teve, contudo, a virtualidade de a converter em verdadeira”, sinalizou Francisca Van Dunem, defendendo que “a maior expressão de preconceito racial consiste, precisamente, na negação deste preconceito”.

“Como já alguém afirmou, o racismo é o crime perfeito – quem o comete acha sempre que a culpa é da vítima”, acrescentou, avançando que, “relativamente a estes fenómenos não há uma solução ou a solução. Existirão, ao invés, inúmeros ângulos que necessitam de ser abordados sendo que, entre estes, os mais prementes se prendem com a desigualdade e com a exclusão”.

Para a ministra da Justiça, “uma das chaves – claro está que integrada numa miríade de outras – será a da inclusão”, sendo que “o receio, o medo e a hostilidade serão, creio, tanto menores, quanto mais o diferente nos seja próximo, quanto mais convivermos, repartirmos, e estabelecermos cumplicidades com esses outros”.

“Essa inclusão apenas se alcançará se os que aparentemente não são iguais frequentarem as mesmas creches, o mesmo ensino pré-escolar, as mesmas escolas, forem vizinhos ou colegas de trabalho. Se tiverem os mesmos estímulos”, disse Van Dunem, assinalando que “temos de construir sobre bons valores partilhados e ver na diversidade, não uma ameaça, mas antes uma riqueza”.

“Portugal não merece nem espera de nós outra atitude”, frisou.

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