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Maio de 68 foi, de facto, a “minha” revolução

As repercussões de Maio de 68 no meu percurso individual foram profundas. Tratou-se de uma ruptura violenta e radical. De tal modo que penso que posso dividir os 10 anos do meu exílio em duas épocas distintas: o antes e o depois de Maio. Por Helena Cabeçadas.
Helena Cabeçadas (de chapéu e tótós) com o grupo designado de "os desertores", a treinarem para as barricadas.

Se a revolta estudantil de 1962, em Lisboa, foi o meu despertar para a política, Maio de 68, em Paris, foi, de facto, a “minha” revolução – ou, segundo a expressão de Daniel Cohn-Bendit – “a revolução que eu tanto amei”.

Tinha então 20 anos, estava exilada em Bruxelas desde 1965 e aí frequentava o 3º ano de Ciências Sociais na ULB. Estava nessa altura em contacto muito próximo com a esquerda revolucionária belga e, nomeadamente, com o jornal “Le Point”, expressão de uma esquerda radical, não comunista, defensor da revolução cubana e das grandes lutas anti coloniais do Terceiro Mundo, da resistência vietnamita, dos movimentos da contra cultura, da defesa dos direitos cívicos e do Black Power, nos EUA e que reunia à sua volta um grupo de jovens jornalistas promissores (Jean Jacques Jespers, André Menu, Hugues Le Paige) e de colaboradores como Pierre Verstraeten e Lucien Goldman. No “Le Point” foi antecipado, de certo modo, o espírito de Maio de 68. Quando a explosão revolucionária se deu em Paris, o jornal estava preparado, como poucos, para compreender o fenómeno e analisá-lo. Jean Claude Garot, o director, foi de imediato para Paris, e eu segui com ele e com Pierre Verstraeten, o filósofo marxista, redactor dos Temps Modernes, amigo de Sartre. Aí vivemos a noite das barricadas da Rue Gay Lussac, as longas noites de debates na Sorbonne ocupada, as discussões com os operários da Renault, em Boulogne Billancourt, a ocupação do Odéon, a greve geral.

Era espantosa a facilidade com que J. C. Garot se fazia ouvir nos auditórios sobrelotados da Sorbonne, no meio de uma multidão ululante – quando Sartre e Lucien Goldman se faziam apupar – Não é por acaso que, passado o fervor revolucionário, Jean Claude faz parte da lista de indesejáveis em França, juntamente com Cohn Bendit e com Ernest Mandel.

O capitalismo era então o grande inimigo a abater, mas também a sociedade de consumo, as hierarquias, toda e qualquer forma de autoridade, tudo o que cheirava a mofo, até mesmo os partidos políticos clássicos de esquerda.

Eu estava convicta que íamos mudar o mundo, numa subversão total, económica, social, política, cultural, sexual. Tudo parecia possível nessas noites e dias loucos, de barricadas, lutas contra os CRS, ocupações das universidades, dos teatros, das fábricas… uma greve geral de 10 milhões de trabalhadores, a maior desde 1936… uma França paralisada…

Helena Cabeçadas (de chapéu e tótós) e Maria Augusta Anselmo Seixas (Magú) a treinarem para as barricadas.

Os slogans de Maio, bem sugestivos do espírito utópico e anarca da época, ainda hoje guardam a sua força subversiva: “L’imagination au pouvoir” “Je suis marxiste, tendance Groucho”, “Ne travaillez jamais”, “Soyez réaliste, exigez l’impossible”, “Jouissez sans entraves”, “La beauté est dans la rue”, “Il est interdit d’interdire”. Ou este, niilista, anunciando os tempos futuros, mais sombrios, “Dieu est mort, Marx est mort, et moi-même, je ne me sens pas très bien”. (“Deus está morto, Marx está morto e eu próprio não me sinto nada bem”).

As bandeiras vermelhas e negras, os cânticos revolucionários, as manifestações permanentes, os discursos inflamados, tinham algo de inebriante que me fazia quase sentir em êxtase. Eu saltava da Sorbonne para o Odéon e para a Renault com grupos de estudantes anarco/situacionistas, com os quais sentia mais afinidades.

Recordo hoje esse período como um sonho, feito de esperança, entusiasmo, alegria e a convicção de que a revolução estava em marcha e com ela um mundo novo, de justiça, solidariedade e fraternidade. Claro que os conflitos entre os diferentes movimentos revolucionários eram violentos, mas isso não perturbava o meu entusiasmo e a minha certeza de que o que estava a acontecer iria transformar completa e definitivamente o mundo de então – num sentido positivo, isso sem dúvida. Como é que tudo isso se iria concretizar era uma outra história, secundária. O que era importante era o processo revolucionário em si mesmo, o qual, na minha ingénua perspectiva de então, era imparável e irreversível.

Regressei a Bruxelas cheia de energia revolucionária, que extravasei na ULB, onde os acontecimentos de Paris se repercutiam, de forma bem mais atenuada, hélas! Fez-se, no entanto, a ocupação da Universidade, durante um período agitado, com plenários animados de estudantes e alguns professores simpatizantes do movimento contestatário. A nível do ensino, algumas alterações importantes tiveram lugar, sobretudo nas Faculdades mais conservadoras, como a de Direito, onde as relações professor/aluno se caracterizavam por algum autoritarismo. Na minha Faculdade, de Ciências Sociais, Políticas e Económicas, onde essas relações já eram de proximidade e de confiança, não se verificaram mudanças significativas.

Em contrapartida, na Cité des Filles – Residência Universitária das raparigas, onde eu vivia – houve alterações importantes. Criaram-se “comités de andar” e reivindicou-se a entrada dos rapazes na Cité. Combinámos com eles uma incursão em massa nos andares superiores, aos quais eles estavam proibidos de aceder. Quando isso aconteceu, a Directora, Mme Staelens, ainda telefonou em pânico para os quartos, avisando “fermez-vous à clé, les garçons arrivent”… o que teve como resultado precisamente o contrário, com algumas raras excepções. Esta reivindicação, que acabou por ser conseguida, foi, digamos, uma conquista de Maio, que alterou significativamente o quotidiano das jovens estudantes.

Eu, que fizera parte dos comités contestatários da época, senti este resultado como uma vitória. Não me apercebi, nessa altura, das consequências dramáticas desta “conquista” para algumas das raparigas residentes da Cité. As Iranianas e Árabes que, nas reuniões, se tinham oposto fortemente à entrada dos rapazes, assim que foi concedida esta reivindicação, foram imediatamente recambiadas para os seus países pelas famílias, logo informadas pelos seus conterrâneos. Nem os exames as deixaram fazer e algumas delas já estavam no final dos seus cursos. Que estas raparigas, inteligentes e corajosas, tenham ficado com os seus cursos interrompidos e os seus sonhos desfeitos, faz-me sentir alguns remorsos, confesso.

Retomar o fio normal da existência, os exames, as rotinas do quotidiano, após as vivências intensas da revolução, não foi fácil. Era como que uma sensação de “ressaca”, após uma experiência inebriante. É essa, aliás, a questão que João Moreira Salles põe no seu filme, “No intenso agora”, recentemente exibido entre nós. Trata-se de uma questão existencial, tal como no fim de um grande amor – fica um imenso vazio – como preenchê-lo? (daí que eu acho muito bonito o título do livro da Maria Antónia Palla, “Revolução, meu amor” inspirado, aliás, num grafito das paredes de Paris.)

É verdade que nós, as raparigas da Cité, tínhamos conquistado uma maior liberdade, susceptível de transformar, de modo significativo, o nosso dia a dia. Penso, aliás, que esse foi, precisamente, o principal legado de Maio, que se reflectiu, sobretudo, nas mudanças a nível das relações entre os sexos, entre professores e alunos, entre patrões e empregados, entre pais e filhos, tornando-as mais igualitárias.

As mulheres tornaram-se, sem dúvida, mais conscientes dos seus direitos e verificou-se a afirmação dos movimentos feministas no universo contestatário, tal como o MLF (Mouvement de Libération de la Femme) em França, na Bélgica, noutros países europeus e nos EUA. As reivindicações do direito ao prazer, a dispor do seu próprio corpo, a legalização do aborto, a partilha das actividades domésticas, a possibilidade de abrir uma conta em seu nome (o que em França ainda não era possível sem a autorização do pai ou do marido, em 1968!), juntaram-se assim às clássicas reivindicações da igualdade nos salários e no trabalho. Queimavam-se os soutiens, como símbolos da repressão e denunciava-se o machismo dos companheiros e namorados (le chauvinisme mâle), muitos deles activistas de esquerda, o que bastante os incomodava, diga-se de passagem.

Solidarizei-me com as suas lutas, participei em algumas das suas acções, na elaboração de posters provocatórios, colaborei no jornal “Le Menstruel”, mas não era uma luta que me preenchesse, parecia-me limitada. Parcelar. A solidariedade com as mulheres só porque eram mulheres, não me fazia muito sentido. Assim, de modo algum, as lutas feministas se substituíram ou preencheram a minha necessidade de encontrar formas subversivas de vivência do quotidiano.

As repercussões de Maio de 68 no meu percurso individual foram profundas. Tratou-se de uma ruptura violenta e radical. De tal modo que penso que posso dividir os 10 anos do meu exílio em duas épocas distintas: o antes e o depois de Maio. Antes eu era uma militante do PCP conscienciosa e uma estudante cumpridora – depois tornei-me uma jovem inquieta, procurando sem cessar estilos de vida alternativos: grupos de teatro provocatórios, vivências comunitárias radicais com preocupações ecológicas, experiências de contracultura, numa deriva irrequieta, no sentido situacionista do termo, num desafio permanente à ordem e aos poderes instituídos, a todos os níveis. Assim, com um pequeno grupo de “Enragés”, criávamos situações provocatórias e insolentes que causavam irritação e mal estar nas hostes esquerdistas.

Como eu, muitos outros jovens que vivenciaram intensamente os acontecimentos de Maio, passada a euforia revolucionária, órfãos da revolução, afundaram-se num certo desespero, procurando nas drogas ou no misticismo oriental a ilusão de um mundo outro, com consequências por vezes dramáticas... Ou mesmo, noutros casos, mergulhando num extremismo radical, como os Baader Meinhof na Alemanha ou as Brigadas Vermelhas na Itália.

E agora, 50 anos depois, como é que eu vejo o Maio de 68?

Vejo-o, essencialmente, como um movimento antitotalitário, anti burocrático e anticapitalista. A rejeição da sociedade de consumo trazia consigo já preocupações ecológicas, tal como a rejeição da tecnocracia, da ideologia do progresso e da rentabilidade. Tratou-se de uma utopia libertária e romântica, pacifista – contra a guerra do Vietname – anti imperialista – defensora do direito à independência dos povos colonizados, anti racista – donde a sua simpatia pelo Black Power – Era forte, na época, a influência guevarista, dos movimentos de guerrilha da América Latina (Guevara fora assassinado um ano antes, na Bolívia), da revolução cubana, tal como a de uma revolução cultural chinesa mitificada. “Criar um, dois, três Vietnames” era uma das palavras de ordem (Guevara). Daí as tácticas de protesto “guerrilheiras”: barricadas, ocupações, conflitos de rua… que, aliás, se inseriam também na tradição revolucionária francesa do século XIX.

Não podemos ignorar que a revolta estudantil era um fenómeno global, nesse ano de 1968, manifestando-se com força também na Alemanha (onde tinha, aliás começado antes, agudizando-se na sequência do atentado contra o leader estudantil Rudi Dutshke), na Itália (aí, também com uma forte componente operária), na Checoslováquia (onde se vivia então a Primavera de Praga), nos EUA (nas Universidades de Berkeley e Columbia, contra a guerra do Vietname e na sequência dos assassinatos de Luther King e, mais tarde, de Robert Kennedy), no Japão (onde assumiu formas de grande violência, sobretudo na Universidade de Tokyo), no México (onde teve lugar o terrível massacre da Praça de Tlateloc), no Brasil, etc… Nem mesmo a Igreja católica permaneceu imune, com a sua teologia da libertação e os seus padres guerrilheiros; conheci alguns nessa época, em Lovaina e que partiram, aliás para fazer a guerrilha na América Latina.

Em França, particularmente, fez-se também sentir a influência das vanguardas artísticas mais ousadas: o Dadaísmo, o Surrealismo e, sobretudo, o Situacionismo (1950), um movimento de vanguarda total, cuja palavra de ordem “Ne travaillez jamais” está bem presente nos muros de Paris e cuja influência é bem clara no Movimento do 22 de Março, em Nanterre – onde o seu panfleto “De la Misère em milieu étudiant…” teve forte repercussão, traduzindo bem o mal estar juvenil da época. “La société du spectacle” de Guy Debord (Buchet- Chastel, 1967) e o “Traité de savoir vivre à l’usage des jeunes générations” de Raoul Vaneighem (Gallimard, 1967), ambos publicados em 1967, são, na minha perspectiva, dois livros fundamentais para compreender “o espírito de Maio”, e que continuam, aliás, a ser profundamente subversivos, sobretudo Debord, com a sua crítica fulgurante da sociedade do espectáculo. Henri Lefèbvre, com o seu “Droit à la ville”, é também um pensador influente na época, tal como Herbert Marcuse, (“O Homem Unidimensional” e “Eros e Civilização”) este sobretudo nos EUA e na Alemanha.

Verifica-se, e esse é também o lado romântico de Maio, a ausência de uma apologia da violência, tal como um total desinteresse pela tomada do poder por parte dos jovens rebeldes de 68, mesmo na altura em que este mais tremeu, durante a greve geral, sobretudo na noite de 24 para 25 de Maio, quando a revolta se poderia facilmente ter tornado revolução. Há, sim, interesse em tomar a palavra – em todos os locais: em casa, na escola, na rua, nas empresas, nas fábricas – em discutir novas formas colectivas de organização, em contestar os poderes instituídos, a todos os níveis, em mudar a vida quotidiana, reivindicando o direito à subjectividade e rejeitando a tirania do metro – boulot – dodo.

Novas temáticas surgiram em Maio, até então pouco presentes nos movimentos revolucionários, como a igualdade de género, a liberdade sexual, os direitos das minorias, a anti psiquiatria, o direito à cidade, o apelo à criatividade nos métodos de ensino. E muitas destas temáticas mantiveram a sua força reivindicativa até aos tempos presentes.

O legado de Maio está também vivo nos novos movimentos sociais como o Anonymous, os Indignados, Occupy Wall Street, “Que se lixe a troika”, nas Nuits Debout ou na recente ocupação da Universidade de Tolbiac (em França) tal como nas novas expressões musicais e artísticas (como no movimento punk, nos seus aspectos mais lúdicos e provocatórios, cuja influência se fez também sentir na moda, na literatura, no cinema e na street art – Banski é um bom exemplo de um artista herdeiro do espírito de Maio, fugitivo, anónimo, crítico do establishment), encontramos também esse espírito nas propostas de vida alternativas dos ecologistas, nas lutas contra o nuclear e as alterações climáticas, nos espaços culturais alternativos que surgem em zonas intersticiais/abandonadas das cidades europeias, oferecendo uma estética de resistência – de reciclagem, de do it yourself, que podemos designar como alterarquitecturas – capazes de transformar espaços abandonados e por vezes sinistros em espaços conviviais e sustentáveis (de que a Fábrica do Braço de Prata nos parece ser um bom exemplo, entre muitos outros, aqui em Lisboa).

Não podemos deixar de constatar, no entanto, a hábil recuperação de muitos dos valores e ideais de Maio pelo neo liberalismo – ou pelo que Boltanski & Schiapello designam como o novo espírito do capitalismo. Para já, a venda massiva dos slogans de Maio em canecas, tee shirts ou ímans – mas esse é, talvez, o lado mais superficial da recuperação. Mais irritante é a recuperação, pelo novo espírito do capitalismo, de valores como o hedonismo, a criatividade, a flexibilidade, a liberdade sexual. A festivalização (as associações de estudantes em Portugal estão quase reduzidas à organização de festas) e a ideologia das cidades criativas (Flórida/Landry) são disso um bom exemplo, da perversão do direito à cidade invocado por Lefèbvre e pelos situacionistas. Tal como o do it yourself dos hippies e dos ecologistas foi recuperado pela IKEA com o sucesso (e o lucro) que todos nós conhecemos.

Esta recuperação, que é um facto, não invalida, no entanto, de modo algum, a riqueza da experiência de Maio, poética e política, de uma frescura imensa, profundamente subversiva. Portadora de esperanças utópicas, permitiu e transmitiu – na feliz expressão de Sartre – um “alargamento do campo dos possíveis”.

 


Comunicação de Helena Cabeçadas no Colóquio comemorativo dos 50 anos de Maio de 68 (Maio de 68: do poético ao político), que teve lugar na Associação de Estudos em Comunicação e Jornalismo, em 24 de maio de 2018.

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