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As Longas Noites de Caxias

Muito para além de uma memória pessoal, este livro marcante de Ana Cristina Silva trouxe-me uma realidade que foi a de milhares de vítimas da PIDE. Artigo de Helena Pato.
Capa do livro "As Longas Noites de Caxias", de Ana Cristina Silva ed. Planeta)

Há pouco tempo, na minha aldeia, comecei a ler este livro e tive de o pôr de parte, pois queria descansar, evitar perder definitivamente o sono durante aqueles dias de férias – a primeira noite foi de pesadelos, a segunda foi de insónia e ficou praticamente em branco. Eu, que sou pessoa de noites tranquilas, tive uma reacção incomum e vão perceber porquê. 

1. Na verdade, até à publicação do meu primeiro livro de memórias do fascismo, deixei passar 40 anos, o que não se deveu a falta de disponibilidade, nem a eu pensar que seria politicamente inoportuno fazê-lo anteriormente. A autora deste «As Longas Noites de Caxias» diz, a páginas tantas do livro, referindo-se a Laura, uma personagem central: “Se (ela) pretendesse viver com um mínimo de aparência de normalidade, teria de conseguir distanciar-se das evocações da tortura. Seria um processo lento, requereria todo o seu esforço para não se deixar enredar nas imagens do passado”(…)”Jamais conseguiria que as recordações da tortura emudecessem completamente” (…) “Não pretendia esquecê-las” - Assim foi comigo. Aconteceu que não as esqueci e as guardei com uma precisão difícil de explicar. Foi nesse lugar de pânico, de dor e medo, que vivi algumas memórias do meu primeiro livro. Foi nesse antro de pavor, que era o 3º andar da sede da PIDE, na rua António Maria Cardoso, que voltei a mergulhar ao escrever o meu recente livro (*). As pides sempre presentes, e elas mais do que eles. Porque eram elas que se sentavam na minha frente 24 horas em 24, eram elas que me impediam de dormir, eram elas que constantemente me humilhavam. A Madalena, a Odete e uma outra, de que me lembro menos.

Quando, há dias, no primeiro dia desta leitura, fui tomada por pesadelos, tive as tais alucinações com animais rastejantes, medonhos, que, mês após mês, década a seguir a década, ouvi descrever a companheiros, mas que nunca me haviam atormentado na PIDE … Vá-se lá saber porquê, as minhas visões nas paredes da sala de interrogatório da António Maria Cardoso não eram de bichos, eram de “anjos” comunistas [como que projectada por baixo da janela, corria uma “história de quadradinhos”, interminável, em que um “camarada” vestido de Pai Natal, despejava imprensa clandestina numa moradia]. Nessa noite, na aldeia, quando fechei o livro de Ana Cristina Silva, precisei de beber água para respirar, me desfazer da memória que tenho da pide Madalena - a Leninha deste romance – e me tranquilizar: “Vamos lá, dorme, a tortura foi há 50 anos, está calma, esquece…”

A questão é que muito para além de uma memória pessoal, este marcante texto de Ana Cristina Silva trouxe-me uma realidade que foi a de milhares de vítimas da PIDE. Não era a recordação da minha vivência que me perturbava naquela leitura. Era o reavivar dramático do que tão bem conheci, só porque o ouvi contar a amigos e a companheiros, durante o fascismo. Era o confrontar-me com o que há de mais arrepiante – e que eu apenas vislumbro – nas biografias dos antifascistas que vão passando do teclado do meu computador para o facebook, ou que nos são divulgadas pela investigação do historiador João Esteves. Era, enfim, o mundo tenebroso da hedionda tortura, chamada do sono. Raríssimas vezes li descrições desta tortura tão impressionantes. Um romance é suposto ser um espaço literário que abre as portas à imaginação. A minha ficou por ali à solta, quando parti de uma realidade que conhecia bem ou de que apenas ouvi ecos – Estive contigo, a sufocar na bacia de água, querida corajosa Laura!

Quantas vezes, durante a fase de escrita das minhas memórias do fascismo, tive de fechar o computador e mudar de ambiente. O que se sentia na tortura do sono era qualquer coisa de diabólico, pior que o medo da morte – pelo contrário, chegava a ser desejo de morrer, para que o suplício acabasse. Nunca consigo dizer mais que isto. É (era) um estado mental, psicológico, físico, impossível de descrever. Estou certa de que ninguém consegue transmitir o que realmente sofreu. Ficamo-nos por meia dúzia de frases que, tantas vezes, resultam ocas. Mas a autora, Ana Cristina Silva, fá-lo a tal ponto bem que eu revivi esse martírio. Esta aproximação ficcionada à pide Madalena, na personagem Maria Helena/Leninha, ficará certamente como um importante contributo para a história da polícia política na ditadura. 

2. Nas agentes Madalena e Odete tudo me fazia nojo. O casaco de pele de leopardo da Odete, as roupas da Madalena, o debitar constante das historietas do dia - que cada uma delas, perante o meu silêncio, vomitava em monólogo, na minha frente – ou as anedotas porcas e as “conversas de chacha”, com fraseado ordinário, que elas tinham com os homens (polícias) que entrava e saíam da sala. Provocações, não eram, Laura? Ainda que eu quase não lhes desse atenção, agrediam-me realmente. Porém, de tudo isso, o que me causava maior repulsa era o arrazoado melado, maternal, com que elas – a apostarem na cumplicidade feminina –  pretendiam aliciar-me para a confissão.

Isto, nas primeiras noites, quando eu ainda lúcida, tal como a personagem Laura, somente “desejava cair de vez na loucura, para me ver livre de mim própria e não correr o risco de denunciar alguém”. Oh, Laura, como te compreendi! Enquanto isto, os agentes e o inspector Mortágua (depois, também, o sub-director Sachetti) entravam e saíam, sentavam-se na minha frente (e na frente da Laura) “com um papel com declarações escritas”, que punham debaixo dos meus olhos, para eu assinar. Já nem eles explicavam ao que iam, nem eu acrescentava nada à declaração inicial: “Já disse que estou aqui por engano”.

À medida que eu me aproximei do delírio, aconteceu-me o mesmo que à Laura: “Todos aqueles homens aparentavam faces iguais”, e eu deixara de ter medo deles ou medo de falar. Quando entrei em alucinações, mal dava pelas ameaças, tinham cessado as preocupações com o que eles perguntavam – em boa verdade, nem os ouvia – mas o sono tornava-se cada vez mais irresistível. Vivia, hora após hora, a tentar vencê-lo – uma postura inelutável e inevitável, nessa monstruosa forma de tortura. Excruciante. Pestanejar tinha um preço elevado, que se pagava muito para lá do desumano. O martírio em que se estava era então acrescido de castigos. Vinham os ruídos das agentes. Com os sapatos no soalho; com os nós dos dedos; e com os punhos, e com não sei que mais, no tampo da mesa, ecoavam amplificados. Batiam como machadadas no cérebro, para nos impedirem de fechar os olhos. Oh, Laura, Laura! Barulhos infernais que até hoje associo à tortura do sono e a um estado de sofrimento no limite do humanamente possível. Fiquei então a saber o que é desejar morrer!

A agente da pide tirou-me a cadeira e encostou-me à parede (porque eu estava cabeceando…). Sentei-me no chão, a Madalena quis puxar-me, levantar-me, lembro-me da fulana aos berros – eu dei-lhe umas murraças no braço gordo, repelente, ela gritou, entraram uns pides e espancaram-me, bateram-me na cabeça e sei lá eu por onde mais. De seguida, na encenação habitual dos “pides bonzinhos”, surgiram outros na sala … “Calma, calma! O que é que se passa aqui? “ –  E deram-me a cadeira. Sentei-me. A tortura seguiu, comigo então mais desperta, em menos sofrimento (aliviada do sono). Tenho a ideia de que só nessa altura me passei para o estado de alucinações. Foi a única ocasião em que me bateram. Creio que tiveram sempre a expectativa de que a tortura psicológica resultasse melhor comigo; e, factor importante, essa era uma tortura que não deixava marcas visíveis para a família. Não me lembro de, no meu processo, alguém ter sido espancado – nem as companheiras de origem operária. A aposta da PIDE para fazer falar os presos, nos anos de 1967 e 68, centrou-se sobretudo na privação do sono, na humilhação, na chantagem psicológica e no terrível regime de isolamento prolongado, a que muitos não resistiam …

3. Durante os interrogatórios, a pressão psicológica (nas formas mais inconcebíveis) era prática constante da PIDE/DGS: fazia parte da táctica usada com os presos para os levar a «falar», a denunciar companheiros ou a confirmar as actividades de que eram acusados. Com as presas, porém, a PIDE recorria, também, a tudo o que ofendesse a sua dignidade enquanto mulheres e a sua natureza de mães. Nos testemunhos de presas políticas, com que contactamos, é frequente a referência a humilhações inqualificáveis, muito piores do que aquela a que me sujeitaram. Incomparavelmente mais brutais.

Perceber-se-á que eu tenha terminado a leitura do romance «As longas noites de Caxias» particularmente emocionada com a vida da Laura, com a tortura a esta personagem e, uma vez mais, revoltada com a violência dos crimes cometidos pela outra personagem, a agente Leninha/Madalena. Sou uma das muitas mulheres que, tendo passado pelas mãos da PIDE, poderiam dar o seu testemunho, articulando-o com a vivência de Laura. Em alguns parágrafos do romance fui encontrar espelhados recortes de violência, a que foram sujeitas amigas e companheiras. Quando faço “pesquisas” para escrever biografias de mulheres antifascistas, deparo com descrições de camponesas, de estudantes e de intelectuais, que justificariam uma investigação objectiva, concreta e sem demagogia, sobre: “As torturas, as humilhações e as sequelas, nas mulheres da Resistência antifascista que foram vítimas das polícias políticas do Estado Novo”. [não tenho conhecimento de que tenha sido foi feita].

4. A humilhação das mulheres começava logo no momento da prisão e assim tinha sido comigo, nesse 14 de Junho de 1967. Eu acabara de ser presa - passávamos em frente da Igreja de S. João de Deus -  quando um dos pides, que me ladeavam no banco traseiro do carro policial,  pôs a mão sobre a minha perna. Eu tinha 28 anos, era Verão, a saia usava-se acima do joelho e eu não levava meias. Dei-lhe prontamente um safanão, cheia de raiva. O imbecil galhofava com o outro, enquanto insistia no toque, e, antes que eu tornasse a reagir, o inspector voltou-se para trás e murmurou em tom de normalidade: «Vá lá, meninos, juízo!». Foi então que os dois agentes entraram num diálogo feito de provocações verbais, que me eram dirigidas. Percebi-o, mas nunca me recordei do que diziam. Lembro-me, sim, do nojo e da gigantesca irritação, da sensação de impotência perante aqueles energúmenos, da vontade de despir a minha pele, nauseada. Só voltei a sentir-me gente quando saí do carro, no pátio interior da sede da PIDE. Respirei fundo e, foi como se acabasse de retomar uma liberdade que me encorajava a defrontá-los nas horas seguintes, que comecei a subir as escadas que davam acesso ao piso das salas de interrogatório e tortura. À noite, já acomodada na cela 66 do Forte de Caxias, consegui racionalizar: a cena do carro tinha sido planeada com o inspector, para começarem a fragilizar-me antes da chegada ao primeiro interrogatório. Passaram 50 anos, mas ainda agora, quando passo na Rua António Maria Cardoso, onde era a sede da PIDE, continuo a sentir um vago acelerar do coração. O facto é que o livro de Ana Cristina Silva veio avivar a minha memória e dar-me a certeza de que há memórias da PIDE/DGS marcadas para sempre nos presos. Traumáticas vivências essas, não foram, querida Laura?

5. Não sei se me ficou ódio, se nojo, se raiva, se vontade da vingança que nunca exercemos (e nem nos moveu, diga-se! Queríamos os julgamentos sérios que não ocorreram). Tenho uma certeza: nem o tempo apaga tais acontecimentos, estas barbaridades, estes crimes da Ditadura. O regime fascista sobreviveu sustentado pelo terror, quase sempre pensado, organizado, concretizado, espalhado, a partir da Rua António Maria Cardoso. Era naquela casa - onde fui sempre interrogada – que diariamente, dia e noite, eles escutavam telefonemas, confiscavam cartas, interrogavam, ameaçavam e torturavam cidadãos. Era dali que a Madalena, já como chefe de brigada, saía de madrugada para fazer prisões – mais e mais, e mais, e ainda mais, pois que “os perigos que a pátria corria eram incomensuráveis (…) e obedecia aos seus superiores”. 

No romance de Ana Cristina Silva, a acção está focada na década de 70, numa fase em que, historicamente, os interrogatórios já decorriam em Caxias, no reduto sul. Mas nem por isso, com essa mudança, o terror abrandou: a acção da PIDE/DGS reforçou-se e alargou-se. A actuação dos polícias nos interrogatórios, os crimes para obterem confissões dos presos políticos e as condições do regime prisional mantinham-se intocados. Salazar morrera, era o tempo de Marcelo Caetano, a Ditadura refinara, mas as lutas prosseguiam na Resistência, com muitas Lauras, a arriscarem e a confrontarem-se corajosamente nas prisões com as sinistras Madalenas, as torturadoras que, durante a noite mais longa de todas as noites, destruíram a vida a muitas, muitas mulheres, de muitas gerações. Mais do que julgamos saber. 

Este romance, muito bem escrito – e também por isso aliciante –  surpreende e revela-nos uma pesquisa de grande seriedade. Daí a importância de AS LONGAS NOITES DE CAXIAS, como contributo para uma narrativa histórica do regime fascista. 

Parabéns, querida Ana Cristina! 

Helena Pato   

Museu do Aljube, 28 de Maio de 2019

[Intervenção na sessão de apresentação deste livro]

(*) "A noite mais longa de todas as noites". Ed. Colibri, 2018.

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