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Livro de Greenwald denuncia a cultura de controlo e de sigilo que se tornou norma em Washington

No seu novo livro No Place to Hide, Glenn Greenwald conta-nos como ele e Edward Snowden arrastaram uma agência secreta, a NSA, para a praça pública. Quando os oficiais do Governo rotularam Snowden ou Greenwald como terroristas ou criminosos, não são só palavras soltas - são os representantes de uma das forças mais poderosas a identificá-los como inimigos. Por Daniel Massoglia.
Foto e Mike Mozart

No dia 5 de junho de 2013, quando o diário britânico The Guardian informou os oficiais dos Estados Unidos que estava prestes a publicar um relatório sobre uma operação de vigilância massiva aos americanos operada pela NSA, a resposta do Governo foi a indignação. Janine Gibson, a editora americana do jornal “não era uma jornalista séria”, o The Guardian “não era um jornal sério” e “nenhum jornal sério publicaria antes de se reunir connosco”, declaravam fontes anónimas do governo.

O relatório, que foi publicado nesse mesmo dia, foi a primeira de uma série de histórias sobre a NSA que atribuíram ao The Guardian e ao Washington Post o Pulitzer Prize 2014 pelo serviço público prestado. No Place to Hide, o novo livro do jornalista Glenn Greenwald – a força por detrás das histórias do The Guardian –, é uma acusação precisa e arrepiante sobre uma cultura de controlo e de sigilo que se tornou norma em Washington, mas também é uma história de como poderá este pesadelo estar a chegar ao fim.

Com base nos documentos divulgados por Edward Snowden, a reportagem do The Guardian oferece-nos uma introspeção inédita ao mundo ultra secreto da NSA, revelando que é uma agência sem qualquer fiscalização, que faz o que quer e como quer, com inúmeras capacidades e uma fome insaciável de querer espiar tudo e todos. A reposta às divulgações por parte dos média mainstream  dos Estados Unidos, por outro lado, demonstram como estes estão ansiosos e dispostos a defender e a servir o poder.

Greenwald lança ataques impiedosos e violentíssimos a estes ambos, que são os principais alvos deste livro. (Até o Washington Post, covencedor do Pulitzer, não escapa à sua ira; Greenwald rotula os editores como “entusiastas vociferantes e irracionais do militarismo, sigilo e vigilância Norte Americana”).

No Place to Hide está repleto de críticas às regras disfuncionais dos relatórios de segurança nacional. Por exemplo, a prática de “tratar [as afirmações do Governo] com respeito mesmo se estas não estiveram fundamentadas”, em que “se lida de igual forma com a defesa do Governo e os factos reais”, “diluindo as revelações de forma confusa, incoerente e  inconsequente”. Ou a supressão de histórias comprometedoras a pedido do Governo, como fez o New York Times em 2004, ano de eleições, sobre as escutas ilegais autorizadas pelo George W. Bush. (Greenwald sugere que isto é porque o jornal não queria ser comprometido por um furo jornalístico do seu próprio repórter).

Depois também existe a trindade obscena, “segurança nacional”, “terrorismo” e o “11 de setembro”, que é usada para justificar qualquer abuso ou transigência moral por parte do Governo, independentemente da sua gravidade e da sua dimensão. Ou até o mito da objetividade, uma neutralidade quimérica que na prática é uma poderosa defesa do status quo. Todos estes temas são tratados e são muito esclarecedores: algo está muito mal no reino da Dinamarca que está sobre vigilância (uma metáfora mal conseguida sobre os EUA, que com a ajuda dos média, é governada pela NSA).

Greenwald não poupa nas críticas: os argumentos tem “falhas morais óbvias”; não são só enganadores, mas enganadores “ao extremo”. Mas o seu desdém pelas hordas de especialistas e políticos que vomitam, consomem e voltam a vomitar as suas “opiniões neutras” em defesa do status quo é óbvia, através do trabalho de fontes, indivíduos e programas que é feito por Greenwald. Todas as decisões foram de alto risco e grande parte delas está em bruto para os leitores poderem decifrar. Esta história daria um excelente filme.

Entra a polémica e o relato da história, Greenwald faz uma sincera e convincente defesa sobre a importância da privacidade – um direito com muitas faces como destaca o professor de direito Daniel Solove – e os perigos da vigilância de massa online.

“A internet não é um domínio à parte onde algumas da funções da vida são executadas”, escreve Greenwald. “Não é só o nosso correio ou o nosso telefone... É o epicentro do nosso mundo, um lugar onde virtualmente tudo é feito. É onde as amizades são feitas, onde escolhemos livros e vídeos, onde o ativismo político é organizado e onde grande parte dos nossos dados privados são criados e guardados”.

Quando o “Church Committee”i, responsável pela reforma dos serviços de inteligência na década de 70 devido aos abusos cometidos, abordou a vigilância e a sabotagem, havia um domínio que se mantinha indiscutivelmente privado: o pensamento humano. Com o desenvolvimento da Internet, contudo, o escrutínio das pesquisas que as pessoa fazem, os emails, os tweets e diversões, tornaram-se instrumentos para ler os pensamentos de uma pessoa. Ou, como escreve Greenwald, “permitir que a vigilância na internet se implemente, significaria subjugar todas as formas de interação humana, planeamento e o próprio pensamento, a um escrutínio abrangente”.

O homem por detrás das fugas de informação

Compreender que podemos estar a ser vigiados é uma parte crítica da vigilância -  a questão não é que o Governo esteja a observar tudo – é sim que, a qualquer altura, qualquer ação poderá estar a ser escrutinada. “Conhecer Tudo, Recolher Tudo, Processar Tudo e Explorar Tudo”, lê-se num slide da NSA publicado no livro No Place To Hide. Sobre a orientação do antigo diretor Keith Alexander, o objetivo da NSA era recolher tudo em todo o lado – a total erradicação de qualquer tipo ou qualquer forma de privacidade.

Pela primeira vez, Greenwald cita Snowden ao descrever o seu tempo destacado no Japão, enquanto contratante da NSA na companhia Dell [uma empresa de hardware de computadores dos Estados Unidos], “As coisas que via começaram a perturbar-me. Eu podia ver os drones em tempo real enquanto eles vigiavam as pessoas que poderiam matar. Podíamos ver vilas inteiras e ver o que é que toda gente estava a fazer. Eu vi o sistema de rastreamento das atividades das pessoas da NSA enquanto escreviam... Foi aí que me apercebi do alcance do sistema. E quando ninguém sabia o que estava a acontecer”.

No Place To Hide conta-nos de uma forma muito nítida a relação que se desenvolve entre Snowden, Greenwald e a diretora de filmes Laura Poitras, desde o seu contacto inicial (Snowden contacta a Poitras quando Greenwald não consegue decifrar as nossas mensagens encriptadas), até às reuniões em Hong Kong e os dias tensos quando preparavam os primeiros artigos para publicação. A influência do Snowden no autor é palpável, já que as suas ações tiverem um impacto no mundo. A admiração do Greenwald pelas pessoa que têm a coragem de denunciar estes casos, são um contraponto cativante às passagens anti autoritárias implacáveis.

Os detalhas sujos

Os documentos escolhidos destacam os grandes contornos das operações globais da NSA. Primeiro, sobre o sistema de gravação e armazenamento dos informantes ilimitados da NSA que, estava no topo de um arquivo meticulosamente organizado, informação esta que foi recolhida pelos slides da NSE e dada à Poitras e a Greenwald por Snowden. Descreve a missão de “recolher tudo” sobre os opositores à NSA para guardar e utilizar em futuros casos.

Segundo, a secção central do No Place to Hide enfatiza a relação que a NSA tem com corporações, que constituem uma parte indispensável do arrastão de informação global. O livro inclui documentos que já tinham sido previamente reportados pelo jornal alemão Der Spiegel, mas que nunca foram publicados na integra, com listagem da Qwest, AT&T, EDS, H-P, Motorola, Cisco, Qualcomm, Oracle, IBM, Verizon, Microsoft e Intel como parte das “80 multinacionais” com quem a NSA tem parcerias. Através da unidade de Operações de Fontes Especiais (SSO), a NSA utiliza estas parcerias para “ganhar acesso aos cabos de fibra ótica de alta-capacidade internacional, comutadores e/ou encaminhadores em todo o mundo”.

Este acesso permite ao Governo dos EUA recolher informação ilimitada. Uma das parcerias com empresas, parceria que tem o nome de FAIRVIEW, recolheu mais de 200 milhões de gravações telefónicas e digitais por dia em dezembro de 2012. O alcance total da coleção sobre a alçada do SSO e outras unidades vai muito além destes números – em meados de 2012, mais de 20 mil milhões de “evento comunicacionais” no mundo por dia. A uma certa altura, o único obstáculo na recolha global é a incapacidade de armazenar a informação que os tentáculos da NSA capturam.

Terceiro, os documentos atraíram a atenção do envolvimento da NSA na espionagem económica que tem sido um ponto de tensão diplomática desde que o The Guardian publicou a história. A reportagem prévia que nunca foi publicada sobre os ataques da NSA às redes privadas demonstra o alvo específico que foi a companhia de energia brasileira, Petrobas, o sistema bancário SWIFT com sede na Bélgica e o gigante petrolífero russo Gazprom e a companhia área Aeroflot. Outros demonstram os casos individuais que envolvem o então candidato à presidência mexicana, Enrique Peña Nieto, e a presidente do Brasil Dilma Rousseff. “Parar o terror”, diz Greenwald, “é claramente o pretexto”.

Alguns documentos traçam os grandes programas como o PRISM e o XKEYSCORE, enquanto outros mostram um olhar mais detalhado sobre operações mais localizadas – as técnicas da NSA de supervisionar as missões diplomáticas em Washington e Nova Iorque; os programas, apropriadamente designados de THEAVING MAGPIE e HOMING PIGEON, desenhados para intercetar a atividade de telemóveis nos aviões; e a vigilância da rede de distribuição de conteúdos que guardam e facultam alguns conteúdos – como fotos – usadas nas páginas de Facebook.

Finalmente, Greenwald destaca como a parceria de inteligência “Five Eyes” e a aliança militar desde a Segunda Guerra Mundial, viabilizaram a grande cooperação (e um pacto de não intervenção) entre os serviços secretos do Reino Unido, EUA, Canadá, Austrália e Nova Zelândia. Os materiais que foram recolhidos por Snowden incluem documentos da sede de comunicações do governo britânico que descrevem as jogadas psicológicas que têm o intuito de semear a desconfiança e a paranoia entre os alvos enquanto, simultaneamente, advogam as técnicas de “disrupção em vez de... a forma tradicional de aplicar a lei” – por outras palavras, atacando os suspeitos de forma digital em vez de lidar com as formalidades chatas de “recolher provas, tribunais e acusações”.

Inimigos Poderosos

Durante o ano, enquanto as revelações sobre a espionagem do Governo saiam umas atrás das outras, é fácil ficar desnorteado e perder noção sobre o significado destas revelações. Mas a NSA é uma entidade tão obcecada com o sigilo que em Washington o seu acrónimo quer dizer: No Such Agency [Nenhuma Agência]; e antes de 2013, os seus críticos apenas falavam publicamente dos seus excessos através de traziam avisos crípticos. A transparência e a crítica no despertar do caso Snowden foi impensável; representa uma ameaça ao status quo.
Quando os oficiais do Governo rotularam Snowden ou Greenwald como terroristas ou criminosos, não são só palavras soltas – são os representantes de uma das forças mais poderosas a identificá-los como inimigos. Após o parceiro de Greenwald, David Miranda, ser solto depois de 9 horas de detenção no aeroporto de Heathrow (Londres) sob a acusação de terrorismo, ele afirmou: "Não há realmente nada mais assustador do que o que estar a ser acusado por estes dois Governos de ser um terrorista... Apercebes-te que eles podem fazer o que quiserem contigo... Eles sequestram pessoas, mantêm-nas presas sem acusação e sem direito a um advogado, fazem-nas desaparecer, enviam-nas para Guantanamo e matam-nas”. Greenwald a um certo ponto sugere que os serviços de segurança são mais poderosos do que o próprio presidente e, na realidade, não existe razão para acreditarmos que ele está errado.

No Place to Hide é uma sistematização do que foi certamente um ano singularmente desconfortável para o sistema de defesa. É um retrato contundente de um Governo que opera fora da lei, sem prestar contas e trava guerras na imprensa contra as pessoas associadas aos arquivos de Snowden, contra o jornalismo e contra a dissidência. Mas, afinal, No Place to Hide vai ser chocante em proporção à profundidade das ilusões que cada um tem quanto à bondade dos média e os poderosos interesses que defende. Ele deixa pouco espaço para discussão: O que é normal em Washington é realmente muito perigoso.

Daniel Massoglia (@jujueyeball) é um escritor e estudante de direito em Chicago.


i Church Committee é o nome da Comissão de Inquérito do Senado americano, que foi realizada em 1975 e presidida pelo senador dos EUA Frank Church,  e que investigou várias atividades da Central Intelligence Agency (CIA) , da Agência de Segurança Nacional (NSA) e da Agência Federal de Investigação (FBI).

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