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Líbia: falham conversações de paz num conflito em que Turquia e Rússia medem forças

O general Khalifa Haftar está a desencadear uma ofensiva militar contra o governo reconhecido pela ONU há nove meses. As tréguas alcançadas neste fim de semana ficam agora em causa devido ao falhanço das conversações de paz em Moscovo.
Sergey Lavrov e Haftar encontram-se na Rússia em 2017.
Sergey Lavrov e Haftar encontram-se na Rússia em 2017. Foto de МИД России/Flickr.

O general Haftar saiu repentinamente das conversações de paz que decorriam desde segunda-feira em Moscovo. O líder das milícias que avançam sobre Tripoli desde abril passado abandonou o diálogo promovido pelas duas potências rivais, a Rússia e a Turquia, que estarão interessadas em chegar a um acordo apesar de apoiarem lados diferentes da barricada na Líbia.

Erdoğan, o presidente turco, não ficou satisfeito com o gesto e jurou que não hesitaria em “dar uma lição merecida ao golpista Haftar se continuar a atacar o governo legítimo do país e os nossos irmãos da Líbia.” Acusou ainda o general de ter dado o dito por não dito e depois ter “fugido de Moscovo”. Um resultado que até seria positivo porque teria “mostrado a verdadeira cara do golpista Haftar à comunidade internacional.”

Destas palavras facilmente se depreende que lado está a Turquia nesta guerra. O governo de Ancara apoia o chamado governo “de Acordo Nacional” liderado Fayez al-Sarraj e que é reconhecido pela ONU. Este controla Tripoli e parte da zona costeira com o apoio ainda do Qatar e do Sudão.

Das ações também se conclui o mesmo que estas palavras revelam. O governo de Erdoğan foi fortemente criticado internacionalmente por ter, recentemente, enviado tropas para apoiar os seus aliados líbios. Disse que teriam funções de treino. Só que as suas ameaças desta terça-feira indicam que talvez a sua tarefa no terreno possa não ser apenas essa. Em troca do apoio militar Sarraj assinou um acordo que dá à Turquia direitos sobre uma área do Mediterrâneo oriental.

Do lado de Haftar, líder do chamado Exército Nacional Líbio, temos o Egito, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos. E a Rússia, claro, que não tem militares no terreno como sublinhou em várias ocasiões. Mas a presença de mercenários deste país ligados ao Grupo Wagner, supostamente uma organização paramilitar privada mas que apenas tem atuado em conflitos como o da Ucrânia e o da Síria do lado mais conveniente ao governo de Moscovo, também não passou despercebida. Haftar avança a partir do leste e domina parte importante do petróleo do país.

Desde 2011, com a queda de Muammar Gaddafi, que a situação política não voltou a estabilizar. Em 2014 rebentou mesmo uma segunda guerra civil na Líbia na qual se enquadra esta ofensiva de Haftar de abril do ano passado. Nesta ofensiva, de acordo com a ONU, terão morrido cerca de 2280 pessoas e terão sido obrigadas a fugir 146 mil.

O cessar-fogo do passado fim-de-semana e o empenho direto das duas potências, Rússia e Turquia, fizeram subir as expetativas de que as conversações fossem resultar na assinatura de um acordo de paz. Mas, passadas sete horas de negociações, as coisas não terão corrido ao jeito de Haftar que saiu sem assinar um acordo que já contava com a assinatura de Sarraj.

A justificação do general só é conhecida indiretamente: a agência noticiosa russa RIA Novosti cita uma fonte do seu grupo que alega que o acordo não foi assinado por não prever prazos para desmantelar os grupos aliados do Governo de Acordo Nacional. Assim, à terceira vez em que Sarraj e Haftar tentaram alcançar acordo afinal não foi de vez.

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