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Lições dos Erros Económicos da Islândia – Parte II

O panorama delineado do milagre económico da Islândia também tem falhas importantes. Apesar de a economia ter voltado, em parte, ao seu nível anterior à crise, os fundamento subjacentes estão infetados de térmitas, de maneira que a mais pequena brisa poderia derrubar as bases de toda a economia. Segunda parte do artigo de Olafur Margeirsson. Ver aqui a primeira parte.
O cartaz diz:"O povo da Islândia conseguiu! Nova Constituição, novo governo, acabou a escravatura da dívida dos bancos – deixem-nos escolher a liberdade agora!". Foto de cactusbones

Ah, sim... o alívio da dívida...

Bem, vamos deixar uma coisa clara desde o princípio: os lares islandeses não receberam um perdão massivo da dívida por parte do governo!

O que os lares receberam do governo foi “ A Medida do 110%” (se a sua hipoteca é maior do que 110% do valor de mercado da sua propriedade, baixa-se o valor nominal da dívida até 110%) e “O Alívio Abstrato da Dívida”, aplicável apenas aos que estivessem em dificuldades “sérias” de endividamento.

A dívida privada total que foi cancelada devido a medidas desencadeadas pelo governo ascendeu a 49,8 milhões de coroas islandesas. Para dar sentido a este valor: a dívida das famílias islandesas precisamente antes do colapso económico em outubro de 2008 ascendia a mais de 1.450 milhões de coroas islandesas. Assim, o governo conseguiu dar aos islandeses um perdão de 3-4% do total das suas dívidas. Hurra!

Logo depois veio a surpreendente entrada do sistema de justiça

Tudo começou com algumas pessoas a tentar averiguar o que tinha corrido mal. Alguém apercebeu-se do facto de que os empréstimos vinculados a uma moeda estrangeira pareciam ser ilegais desde 2001. Esta ilegalidade não deteve os bancos de criar milhares de milhões de hipotecas e empréstimos a particulares para automóveis, assim como contratos gerais de crédito a empresas em coroas islandesas mas vinculados à taxa de câmbio de uma moeda estrangeira. Isto era, no mínimo, de uma moralidade duvidosa! Finalmente, os empréstimos cotados à moeda estrangeira foram considerados ilegais depois de uma luta judicial que ainda não terminou (continua a discutir-se que tipo de empréstimos cotados a uma moeda estrangeira são ilegais.)

Contudo, há aqui uma reviravolta para todos os que pensavam que o governo estava a aliviar um pouco as famílias da sua dívida. Depois de os empréstimos cotados em moeda estrangeira terem sido declarados ilegais pelo Supremo Tribunal, o governo interveio e pôs em vigor uma lei retroactiva cujo efeito era a banca receber maiores juros desses empréstimos. Ou seja, a dívida passava a ser maior do que antes da aprovação dessas leis.

A porta da sala do tribunal abriu-se outra vez e agora as leis que o mesmo governo havia posto em marcha estavam na mira. Consideraram-se definitivamente ilegais precisamente pela sua retroactividade e os empréstimos às famílias foram corrigidos. Resultado final: uma correção de 146.800 milhões de coroas islandesas – quase o triplo do que o governo lhes deu, apesar do facto de que o governo “de esquerda” tentar intervir com um lei retroactiva.

Assim, no total, os lares islandeses tiveram um perdão da dívida de 196.300 milhões de coroas islandesas. Isto representa cerca de 13% do stock da dívida que tinham, na sua maioria procedente da luta contra os empréstimos ilegais cotados à moeda estrangeira.

Contudo, apesar do cancelamento de 13% do total da dívida, o saldo negativo privado cresceu novamente. E porquê? Não por as famílias terem regressado à festa de gastos, que sem dúvida existia antes da crise. Foi devido à indexação do capital das hipotecas na Islândia: se a inflação é de 5%, o capital em dívida ao banco aumenta 5%! Além do ajuste do capital à taxa de inflação, as taxas de juro rondam os 4-5%. E tendo em conta que taxa de inflação na Islândia desde Outubro de 2008 é de 25%, pode entender-se por que é que a dívida privada não está a cair de acordo com o que se poderia esperar após o perdão de 13%. Em comparação como Produto Interno Bruto (PIB), a dívida privada é de 117% (final do ano de 2011) em comparação com os 127% do PIB antes da crise.

Tenho pena, mas o (não) tão famoso perdão da dívida não foi mais do que um remédio para curar a tosse a um doente grave.

“Se eu me for não haverá problemas, e se fico duplicarão!”

Comentámos brevemente a existência de controlo de capitais e como o FMI se apercebeu de que eram uma arma que, pelo menos, deveria ser tida em conta dentro do arsenal anticrise. Pena que, para os países do Sudeste Asiático, não se aperceberam antes.

Genericamente, o controlo de capitais é considerado como um entrave na economia, ainda que a prática demonstre terem sido uma escolha bastante atrativa quando se trata, não apenas de responder à crise em curso, mas também de evitar que esta se repita. Contudo, o tema é complicado porque o controlo de capitais abre a porta a investimentos maus, ao favoritismo (exceções a esses controlos) e a um mercado negro de divisas. Nada disto é desejável, por isso muitas vezes é preferível que se livrem do controlo de capitais. Pelo menos a sua implementação tem de ser escrupulosamente planeada!

Tudo isto correu mal porque os controlos de capital foram estabelecidos em 2008, num momento de pânico, e agora o FMI finalmente compreendeu que a sua natureza de “curto prazo” pode não ser assim tão curta (“enquanto a posição externa [da economia] é saudável, a Islândia é vulnerável à eliminação de controlos de capitais antes de as condições internas serem adequadas”).

Por outras palavras, se retirarmos os controlos e permitirmos que uma taxa de câmbio flutue talvez uns 20-25% (algo que facilmente podia acontecer já que a taxa de câmbio – offshore – da coroa islandesa está aproximadamente 40% mais fraca do que a taxa que marca o controlo interno) corremos o risco de que a economia vá para o inferno! É isto o prodígio económico!

Lamento, mas se alguns ungunentos verdadeiramente heterodoxos não se aplicam ao problema da taxa de câmbio, os controlos de capital chegaram para ficar! E isto é problemático devido ao mencionado impacto geral negativo que tem sobre a economia.

O problema é que os ditos unguentos já tinham sido propostos. E são tão heterodoxos que nem o governo, nem o FMI, nem mesmo os Senhores das Finanças, querem sequer pensar neles. Isto é assim apesar do facto de que, historicamente, estes remédios já se aplicaram noutros países onde produziram melhorias imediatas e duradouras que surpreenderam todo o mundo – exceto as pessoas que os aplicaram. O milagre económico alemão é um exemplo excelente das pomadas heterodoxas de que estamos a falar.

Mas porquê a recuperação?

A pergunta sobre o porquê de a economia ter recuperado não foi ainda respondida. Mas Richard C. Koo deu um resposta há dois anos no seu artigo “O mundo numa recessão de equilíbrio”. A sua resposta foi a seguinte: a economia da Islândia encontra-se num “choque de Lehman Brothers”, em concreto, podemos dizer que foi um “choque pós-banca falida”.

O argumento é o seguinte. Em primeiro lugar, a economia experimenta uma grande bolha da dívida. Quando as finanças Ponzi herdadas da bolha da dívida finalmente explodem, os preços dos ativos caem e a economia desacelera, surgindo a ameaça de que uma instituição financeira importante se afunde. Assim ocorreu com Lehman Brothers nos EUA, porém, no caso da Islândia, a quebra foi do sistema financeiro no seu conjunto.

Obviamente, essa quebra representou um duro golpe na economia e foi como tirar um pedra da base da Torre de Pisa. No entanto, quando o pânico económica se alivia, o comércio volta – as pessoas têm de comer – a economia recupera lentamente a partir do seu nível mais baixo. O desabar da taxa de câmbio também ajuda a impulsionar o turismo.

Esta “recuperação natural” é a recuperação económica da Islândia! Não há nada de surpreendente no crescimento económico deste país, é uma resposta totalmente normal a um “choque pós-banca falida”: a mera recuperação do pânico absoluto traz a nova recuperação da produção e, com ela, o crescimento económico. O problema é que as dívidas continuam aí e os fundamentos subjacentes podem quebrar a qualquer momento.

O artigo de Koo é extraordinariamente claro neste ponto: a recuperação depois do “choque pós-banca falida” não é uma recuperação dos problemas subjacentes à dívida que, de facto, no início provocaram aquele choque. Tendo em conta a debilidade dos fundamentos económicos reais da Islândia, a resposta de Koo é bastante correta.

Por outro lado, um crescimento económico de 3,2% emociona alguém? Perante o contexto histórico: na verdade, não. Porém, em comparação com o Sul da Europa: a maioria diz sim, sem dúvida! Essa é talvez a razão pela qual o exíguo crescimento da Islândia está a causar tanta perturbação.

“O longo prazo é um guia enganador para os temas da atualidade. A longo prazo, todos estaremos mortos.” (O futuro)

Pronto, aqui o têm. O panorama delineado do milagre económico da Islândia também tem falhas importantes. Apesar de a economia ter voltado, em parte, ao seu nível anterior à crise, os fundamento subjacentes estão infetados de térmitas, de maneira que a mais pequena brisa poderia derrubar as bases de toda a economia. Isto aplica-se especialmente ao problema da supressão dos controlos de fluxo de capitais.

Não obstante, a Islândia tem energia limpa, um povo feliz, está a crescer de novo (pelo menos por agora) e tem muitas possibilidades de ser um paraíso na Terra a longo prazo, mas não é isso que importa agora. Devemos recordar o que Keynes nos ensinou: “O longo prazo é um guia enganador para os temas da atualidade.” E porquê? Devido ao facto de que “A longo prazo, todos estaremos mortos.” Dizer que tudo vai ficar bem num futuro longínquo é inútil se morrermos antes que ele finalmente chegue.

Mas fizemos alguma bem? Sim, fizemos!

. Demos a cara contra o FMI e, ainda que fora de forma pouco entusiasta, é provável que tenha servido para preservar o sistema de bem-estar e os estabilizadores económicos gerais dos gastos públicos.

. Introduzimos um perdão da dívida pelo qual devemos felicitar-nos, apesar de ser como pôr um penso numa ferida aberta por uma arma de fogo, pelo menos fez-se. Demonstramos que os perdões da dívida são possíveis!

. Por último, mas não menos importante: salvámos o sistema eletrónico de pagamentos! Manter o bom funcionamento de um sistema eletrónico de pagamentos num país cujo sistema financeiro está a desmoronar é um feito em si mesmo incrível!

Na verdade, a maior lição da Islândia a outros países é sobre como manter o sistema eletrónico de pagamentos com vida durante a tempestade financeira. Essa lição passou completamente despercebida e não acredito que uma única entidade estrangeira ou banco central tenha reparado nela até agora. Em grande medida, isto anula o problema do “too big to fail” sobre a banca tradicional. Portanto, a lição é enorme e o seu valor incrível!

Sobre o autor: Olafur Margeirsson é islandês e está a fazer um doutoramento em Exeter (UK). Atualmente está a escrever um livro chamado “Economia má: Como as Políticas Económicas Estúpidas da Islândia levaram o País à Bancarrota” (extrato disponível aqui). O livro explica em detalhe o que se menciona no artigo, desde como a indexação das hipotecas foi à loucura, ou como o funcionamento do sistema de pensões é uma doença financeira para o país, e justifica por que é que a segunda crise económica da Islândia está ao virar da esquina, já que, na realidade, o menino prodígio da economia está doente.

Publicado em Sintetia

Tradução de Sofia Gomes para o Esquerda.net

Leia aqui a primeira parte deste artigo

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