Está aqui

Leïla Slimani e a tensão manipulada

O problema do romance – ou talvez a sua maior benesse – é que a tensão se mantém para lá do fim. É que se sabe desde o início que o bebé morre, mas falta saber como. É essa procura que motiva o leitor, é isso que torna a leitura num caminho de cães com fome. Por Ana Bárbara Pedrosa.

Leïla Slimani não poupou ninguém neste romance que Tânia Ganho traduziu com a elegância habitual e, na primeira frase, escancarou as portas do inferno: “O bebé morreu.” A partir daqui, é difícil descer, não há como não viver a angústia e a tensão das 215 páginas de “Canção doce” (Alfaguara, 2017). A mestria com que essa tensão foi controlada, dando sem dar, revelando e escondendo, pontapeando para a frente da narrativa o que, na verdade, estava desvendado na primeira frase, é uma prova de talento e domínio técnico inestimáveis. Slimani chocou o público leitor, que teve de ficar rendido à bravura e ao seu próprio papel de criatura frágil, impávido ao ver desfiar-se o que aconteceu à criança, não conseguindo ver onde encaixava ou como se poderia ter impedido aquela morte.

O problema do romance – ou talvez a sua maior benesse – é que a tensão se mantém para lá do fim. É que se sabe do início que o bebé morre, mas falta saber como. É essa procura que motiva o leitor, é isso que torna a leitura num caminho de cães com fome. Portanto, conhecendo o leitor a manipulação que é a escrita, encara o detalhe como quem procura pistas, atenta nos pormenores para entender os passos. A autora apresenta os factos como quem faz a radiografia do acto, mas cabe ao leitor ressignificar as acções das personagens, sabendo de antemão que Slimani não facilitará a tarefa: dando à obra o efeito do real, não cai na armadilha de deixar tudo explicado. Reconstitui os episódios da acção e a obra refulge depois nas interpretações várias dos leitores.

Louise, a ama que mata o bebé e a criança ao seu cuidado, salta à vista enquanto figura complexa. Apresentada como dócil e terna, sabe-se que matará duas crianças. Cabe ao leitor, por isso, entender a personagem na sua plena dimensão. Longe da ideia de monstro, não se esconde a monstruosidade do que fez, mas Louise existe enquanto gente, e por isso enquanto figura multidimensional. Capaz de violência, é devorada por um passado que lhe deixou espetada a farpa, e ainda vive com uma família que não a vê – que não a vê sequer como gente, antes como ajuda; que não a vê como família, ainda que lhe escancare as portas. Desta forma, são ainda exploradas as tensões entre classes, o papel de cada um, o lugar na família de alguém que cuida dos filhos.

A vida de Myriam, de Adam e dos seus dois filhos parece igual à de tantas outras. Não têm dificuldades financeiras, o marido trabalha fora de casa, a esposa dentro. Foi por vontade própria que ficou em casa a tomar conta das crianças. Aos poucos, começou a sentir-se diminuída, a ter vergonha da vida que levava. Começou a sentir-se “morrer por não ter nada para contar, a não ser as palhaçadas dos filhos e as conversas entre desconhecidos que ela espiava no supermercado.” (p. 18). Foi pelo desencontro de expectativas que o casal acabou por contratar Louise, que ali chegou com excelentes recomendações: “até pensei em ter um terceiro filho para podermos mantê-la connosco” (p. 27), dissera a antiga patroa.

Louise chega e, como conquistara a família anterior, conquista a de Myriam e Adam. Parece perfeita, tudo o que faz é uma benção. Cria e cuida de filhos que nunca serão dela, cultiva o bem-estar de uma família, e depois volta para casa, numa vida que, perante aquela casa, pertencerá sempre aos escombros: Louise existirá fora dali?

Assim como assim, é ali dentro que a ama ganha espaço. Aos poucos, começa a gerir a casa. A proximidade entre adultas aumenta ao ponto de Adam se irritar: a relação patroa-empregada parece já não existir. Myriam tem de se impor, reganhar espaço, e a perfeição começa a ceder numa fórmula putrefacta. Aí Louise surge enquanto gente: não é apenas o escape, apenas a mão que ajuda. Aparece finalmente também enquanto agente, revela coisas que tem dentro, dignificada pela capacidade de decisão e de irritar, enfrentando os afectos distorcidos, não recusando remeter-se para um lugar secundário depois de ter ocupado tanto espaço.

De forma talentosa, Leïla Slimani mostra cada um enquanto aquilo que se apresenta, desvenda as farsas do dia-a-dia, o que existe para lá do que se vê, e portanto cada um enquanto sugestão de si mesmo. Após a leitura, sobrevivem a força, o talento e a tensão.

Sobre o/a autor(a)

Doutorada em Literatura, investigadora, editora e linguista. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990.
Termos relacionados Cultura
(...)