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Lóbi das elétricas provocou demissão no Governo, admite Álvaro

Em entrevista à TSF, Álvaro Santos Pereira afirmou que o ex-secretário de Estado da Energia terá apresentado a demissão por pressões do lóbi do setor da energia, quando já tinha concluído um relatório sobre o corte nas rendas excessivas. Na semana passada, Henrique Gomes acusou o Governo de manter "um silêncio ensurdecedor" ante os privilégios da EDP.
Ministro da Economia admitiu que a saída de Henrique Gomes do Governo foi festejada por Mexia e Catroga. Foto Miguel A. Lopes/Lusa

Passado mais de um ano, o ministro da Economia revelou, em entrevista à TSF/DN, que o seu ex-secretário de Estado da Energia, Henrique Gomes, se demitiu por pressões do lóbi do setor da energia quando já tinha concluído o relatório sobre o corte nas rendas excessivas no sector elétrico, previsto no Memorando da troika. "Quando o meu anterior secretário de estado da energia, o engenheiro Henrique Gomes, saiu, eu tive um dos principais presidentes das produtoras de energia elétrica em Portugal a telefonar para várias pessoas, a celebrar com champanhe”, revelou Álvaro Santos Pereira.

A demissão foi anunciada no dia 12 de Março do ano passado, mas o pedido de demissão de Henrique Gomes já tinha sido formulado na semana anterior, quando não o deixaram fazer uma intervenção no ISEG sobre o assunto. Nesse discurso que não chegou a ser feito, apontava a "perda incomportável de competitividade da nossa economia e uma sobrecarga socialmente insuportável pelos consumidores" por causa do "sector protegido" da eletricidade. "As rendas excessivas e a atual garantia de potência impactam fortemente na sustentabilidade futura do sector elétrico, estando a desviar da economia e das famílias recursos num valor global de 3500 milhões de euros até 2020", escreveu o secretário de Estado no seu discurso, acrescentando que para pagar estes custos seria preciso aumentar o preço ao consumidor em 4,7% ao ano.

“Os portugueses têm razões para estar preocupados”, diz Henrique Gomes

Num artigo publicado na semana passada no Jornal de Negócios, Henrique Gomes volta a denunciar os "privilégios do setor elétrico" que se traduzem "em rendas e tarifas excessivas, financeiramente insustentáveis, económica e socialmente ilegítimas e, no caso das rendas, ilegais". O ex-secretário de Estado analisou as contas do grupo EDP em 2012 e concluiu que “o que os portugueses pagam a mais é drenado para fora da nossa economia”, uma vez que o mercado português é o mais rentável para os acionistas, mesmo que o volume de negócios seja maior lá fora. Por exemplo, na EDP Renováveis, a rentabilidade dos capitais próprios é de 46% em Portugal, enquanto nos EUA, que concentra 38% do volume de negócios da empresa, é apenas de 0,6%. Em Espanha, com 34% do volume de negócios, a rentabilidade é de 2,9%, acrescentou o ex-secretário de Estado.

“A propaganda e o lobby dos grandes operadores e o silêncio do governo, igualmente ensurdecedor, têm assegurado os privilégios do sector eléctrico”, denuncia o ex-secretário de Estado, que já tinha contado que enviara o seu relatório do corte das rendas ao gabinete de Pedro Passos Coelho e uma hora depois já estava na posse da administração da EDP, liderada por António Mexia. Já na altura, Henrique Gomes contou que a notícia da sua demissão tinha sido festejada com “champanhe numa empresa do setor”, entenda-se EDP.

Ana Drago: "Quem se mete com Catroga e Mexia, leva!"

Extatamente um mês antes de Álvaro Santos Pereira ter confirmado as pressões do lóbi das elétricas, a deputada bloquista Ana Drago levou o assunto à Assembleia da República. "No exato momento em que Henrique Gomes, Secretário de Estado da Energia se pronunciou contra as rendas excessivas garantidas à EDP, saiu do Governo", lembrou Ana Drago na sua declaração política a 28 de março sobre o balanço desastroso da política energética do Governo. "Bem sabemos, quem se mete com Catroga e Mexia, leva!", acrescentou.

Para o Bloco, as conclusões da negociação com a EDP mostraram que afinal "a montanha pariu um rato". Ana Drago afirmou que "não há melhor testemunho do falhanço do Governo que o comunicado da EDP aos seus acionistas", ao garantir que o impacto corresponde a cerca de 1% da rentabilidade. "Corte de um por cento para a EDP, aumento de 25 por cento para as famílias", concluiu a deputada, lembrando "as famílias a quem a EDP já cortou o serviço, os idosos a viver à luz das velas e empresas estranguladas pela fatura energética". 

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