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Kosovo: segunda testemunha de crimes de guerra morta num ano

Dois homens foram encontrados mortos a 15 de janeiro no Kosovo com um ano de diferença. Outro facto os une: foram testemunhas dos crimes de guerra do UÇK que levaram o presidente kosovar a ser acusado no tribunal internacional de Haia. Há anos que desaparecem testemunhas desse passado sombrio.
Uniforme do UÇK no Museu Militar de Belgrado. Foto de Adam Jones/Flickr.
Uniforme do UÇK no Museu Militar de Belgrado. Foto de Adam Jones/Flickr.

Exatamente com um ano de diferença, dois homens são encontrados mortos junto ao mesmo lago, o Badovc, perto da capital do Kosovo, Pristina. A 15 de janeiro deste ano foi o antigo oficial de polícia Fadil Syleviqi. A 15 de janeiro do ano passado tinha sido Nazmi Rrustemi.

A história destes homens mostra que ambos foram presos pelo UÇK, o grupo militar que lutou pela independência do Kosovo, e é dada a conhecer esta terça-feira pelo Libération. Fadil Syleviqi tinha origem albanesa mas era acusado de ter feito parte da polícia controlada pela Sérvia antes da guerra de independência do país. Durante o conflito passou pelas prisões do movimento guerrilheiro pró-albanês, acusado de cumplicidade com o lado contrário da guerra, mas depois da independência foi reintegrado na polícia do Kosovo. Em 2015, a Klan Kosova TV acusou-o de participação, enquanto fazia parte da polícia controlada pela Sérvia, na detenção de um médico, Hafir Shala, que não voltou a ser visto com vida.

O mesmo jornal conta que, quando Nazmi Rrustemi, um ex-guarda-florestal, foi encontrado morto, por assassinato, o crime não foi imediatamente ligado à guerra que atravessou o país no processo de independência. Depois do sucedido, a viúva revelou que ele era uma testemunha protegida do Procurador Especial do Tribunal Internacional de Justiça, com sede em Haia, que investiga os crimes de guerra cometidos no Kosovo. Rrustemi passou pelos campos de detenção do UÇK e ia contar o que vira.

Os dois homens, aliás, estavam na mira de alguém há algum tempo. Rrustemi teve o carro incendiado em 2017 e Syleviqi tinha ficado ferido num ataque contra o seu carro em 2003. O seu companheiro de viagem faleceu nessa ocasião.

Não são casos únicos. A RFI, na altura em que Rrustemi foi morto, contava como Agim Zogaj, que tinha pertencido ao grupo mas que tinha passado a ser testemunha, contra Fatmir Limaj, ex-ministro e um dos chefes da guerrilha, tinha sido encontrado enforcado em 2011 na Alemanha e de como o processo contra Ramush Haradinaj, ex-primeiro-ministro e comandante do UÇK, se tinha concluído por uma absolvição depois de doze testemunhas terem desaparecido, morrido ou sofrido de “amnésia” relativamente aos factos.

Carla Del Ponte, antiga Procuradora do Tribunal Penal Internacional para a antiga Jugoslávia, chegou a dizer que a investigação ao UÇK era “a mais frustrante” porque as testemunhas "tinham tanto medo e estavam tão intimidadas que até temiam falar na presença do UÇK em algumas áreas, já para não falar nos próprios crimes”.

A lista de outras testemunhas atacadas é longa, apesar de parcial: em 2002/3, Tahir Zemaj foi morto depois de testemunhar contra um dirigente do UÇK, duas outras testemunhas no mesmo julgamento, Sadik Musaj e Ilir Selamaj, também foram assassinadas; Kujtin Berisha foi atropelado em Montenegro e Bekim Mustafa e Auni Elezaj foram mortos a tiro; Sabaheta Tava e Isuk Hakljaja foram encontrados mortos num carro queimado; em 2016 um ex-comandante do UÇK que ia testemunhar foi morto a tiro.

Em novembro passado, no âmbito deste tribunal, Hashim Thaçi, que fora o principal líder do grupo militar UÇK e que era então presidente do Kosovo, foi acusado de crimes de guerra e contra a humanidade, nomeadamente detenção ilegal, tortura e assassinato de civis e opositores, e acabou por se demitir. É ele e outros altos responsáveis que estão em causa nesta nova tentativa de alcançar justiça.

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