Está aqui

Justiça brasileira manda retirar especial de natal de Porta dos Fundos

Netflix Brasil ainda não se pronunciou sobre a decisão. Juiz responsável pela decisão defendeu no passado o direito de Bolsonaro proferir declarações homofóbicas e racistas com a defesa do “direito de manifestação” em democracia.
Justiça brasileira manda retirar especial de natal de Porta dos Fundos

Especial de Natal do grupo humorístico Porta dos Fundos está a causar polémica desde que foi disponibilizado na versão brasileira da plataforma de streaming Netflix.

Neste especial, o segundo que o grupo brasileiro produz, Jesus é retratado como um homem homossexual que tem dúvidas sobre a sua vontade e vocação para pregar a palavra de Deus.

Depois de a Associação Centro Dom Bosco de Fé e Cultura ter lançado uma petição que pedia o “impedimento” desde especial de natal – e que reuniu mais de dois milhões de assinaturas e de ver esse pedido negado em 1ª instância, houve agora um juiz do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro que determinou que o filme deve ser retirado.

"Por todo o exposto, se me aparenta, portanto, mais adequado e benéfico, não só para a comunidade cristã, mas para a sociedade brasileira, maioritariamente cristã, até que se julgue o mérito do agravo, recorrer-se à cautela, para acalmar ânimos, pelo que concedo liminar na forma requerida”, argumenta Benedicto Abicair.

Entretanto, o jornal brasileiro O Globo recordou que, em 2017, o juiz desembargador Abicair relatou em novembro de 2017 um processo no qual o presidente Jair Bolsonaro, à época deputado federal, foi condenado em segunda instância a pagar indemnização por danos morais numa ação movida por grupos de defesa dos direitos LGBTI+ que o acusaram de ter proferido declarações homofóbicas e racistas. Na ocasião, Abicair votou a favor de um recurso de Bolsonaro argumentando que, em democracia, não via como "censurar o direito de manifestação de quem quer que seja".

"Não vejo como, em uma democracia, censurar o direito de manifestação de quem quer que seja. Gostar ou não gostar. Querer ou não querer, aceitar ou não aceitar. Tudo é direito de cada cidadão, desde que não infrinja dispositivo constitucional ou legal", defendeu Benedicto Abicair.

Em causa estavam as declarações de Jair Bolsonaro a um programa de televisão onde afirmou que não poderia ter filhos homossexuais porque lhes deu “uma boa educação” e, ao ser questionado sobre a possibilidade de algum dos filhos se relacionar com uma mulher negra, ter respondido que não discutiria "promiscuidade", voltando a afirmar que os seus filhos foram "muito bem educados".

Para além de ter colhido a ira de milhões de cristãos, o grupo Porta dos Fundos foi vítima de um ataque à sua sede no Rio de Janeiro. A 24 de dezembro, véspera de natal, houve uma tentativa de ataque com um cocktail molotov que foi filmado pelas câmaras de vigilância do edifício. De imediato começou a circular na internet um vídeo onde um grupo de homens de cara tapada e voz distorcida reivindicava a autoria do ataque.

“Nós, do Comando de Insurgência Popular Nacionalista da Grande Família Integralista Brasileira, reivindicamos a ação direta revolucionária que buscou justiçar os anseios de todo o povo brasileiro contra a atitude blasfema, burguesa e antipatriótica que o grupo de militantes marxistas culturais Porta dos Fundos tomou quando produziu o seu Especial de Natal”, diziam.

A polícia federal está à procura de Eduardo Fauzi, economista e empresário, por suspeita de envolvimento no ataque. Fauzi está já na lista de procurados da Interpol, podendo assim ser detido pela polícia de qualquer país onde se encontre. Tanto quanto se sabe, Eduardo Fauzi fugiu do Brasil a 29 de dezembro e julga-se que esteja de momento na Rússia. A 31 de dezembro a polícia brasileira tentou cumprir o mandado de prisão, tendo percebido que o empresário já não se encontrava no país.

Termos relacionados Internacional
(...)